Estudantes da UFPR pedem suspensão do calendário acadêmico | Jornal Plural
17 abr 2020 - 17h46

Estudantes da UFPR pedem suspensão do calendário acadêmico

Para os Centros Acadêmicos, a educação à distância precariza a qualidade do ensino presencial e exclui parcela significativa da comunidade universitária

Alunos da Universidade Federal do Paraná publicaram, na última terça-feira (14), nota com posicionamento favorável à “suspensão do calendário acadêmico por tempo indeterminado, até o fim dos efeitos da pandemia, e contra qualquer tentativa de implementar um plano de trabalho de educação a distância no período de crise.”

O documento, assinado por 30 centros acadêmicos da instituição, é uma resposta ao Plano de Retomada de Aulas proposto pela Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (PROGRAD) à UFPR, que interrompeu as atividades acadêmicas em 16 de março. O plano sugere a adoção do Ensino à Distância (EaD) durante a pandemia do coronavírus, com atividades teóricas no primeiro semestre letivo de 2020 e reposição das atividades presenciais no semestre seguinte.

Para os representantes dos discentes, a educação à distância precariza a qualidade do ensino e exclui parcela significativa da comunidade universitária. “Não há garantia de padronização do ensino emergencial remoto dentro da UFPR, nem de estrutura para os professores ou para os estudantes”, afirmam os alunos no documento. As aulas práticas, que compõem o currículo de grande parte dos cursos oferecidos pela instituição, demandam espaços e materiais específicos que não estão disponíveis em domicílio.

A dificuldade de acesso à plataforma online é a principal preocupação dos alunos, já que parte da comunidade universitária não possui meios de se conectar à internet. Os 80 computadores da UFPR disponíveis para empréstimo representam apenas 0,2% do número total de estudantes, o que não garante a inclusão de todos os discentes que precisem da ferramenta. Ademais, a universidade não teria como suprir, remotamente, as necessidades específicas de pessoas com deficiência. “Na linha de defesa de uma Universidade Pública que seja gratuita e para todos e de qualidade, não podemos aceitar nenhuma medida que deixe estudantes de fora, mesmo que seja um número considerado baixo. Acreditamos em uma Universidade para todos e não para uma parcela”, ressaltam os discentes.

Segundo os representantes, a instabilidade do contexto atual interfere no desempenho dos alunos, prejudicando o aprendizado: “Enfrentamos a pior crise dos últimos tempos e a primeira pandemia em 100 anos. Não é fácil passar por isso em um país politicamente instável, nem ficar em isolamento social por tempo indeterminado. Como agravante, a previsão da comunidade científica é de que o número de casos vai subir em um período breve, de modo que os estudantes precisarão cuidar de sua saúde e/ou terão à sua volta pessoas precisando de atenção e dedicação.”

As estudantes que têm filhos enfrentariam ainda mais dificuldades para acompanhar o ensino remoto. Com crianças em casa durante todo o dia, a atenção e a disposição para atividades acadêmicas ficam prejudicadas. Estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica também poderiam ter seu desempenho acadêmico afetado pelo momento de crise econômica e demissões em massa.

Existe ainda a preocupação de que o uso precário e emergencial de aulas remotas possa abrir precedentes para a implementação de disciplinas à distância nos cursos presenciais, que não possuem os recursos pedagógicos e estruturais de uma instituição EaD.

Os Centros Acadêmicos enfatizam a necessidade de que a UFPR tome medidas de maneira unificada, estabelecendo medidas aplicáveis a todos os cursos. De acordo com a nota, “neste momento, não é adequado colocar a responsabilidade nas mãos de cada Departamento e/ou coordenação de curso para as decisões relacionadas às atividades remotas, visto que em muitos cursos as disparidades sociais pedagógicas são mais intensas e com públicos sociais específicos. É necessário que a UFPR tome uma posição como um todo, ou todos os cursos adotam as atividades remotas ou nenhum adota.”

A nota não configura, ainda, o posicionamento de toda a comunidade discente da UFPR. O Diretório Central de Estudantes (DCE), entidade que representa os universitários da UFPR como um todo, publicará nota após a consideração das realidades dos diferentes setores. A Gestão Executiva do Diretório Central dos Estudantes esclarece que “sua maior prioridade tem sido o processo de escuta junto às/aos estudantes, e que, por procurar o processo mais democrático, trazendo debate entre os setores, buscando alternativas ao momento atual, em que o ponto inicial é a defesa de uma educação igualitária e de qualidade. Não se aceita, por este diretório, medida que desconsidere a discussão abordada pela comunidade discente, e que não atenda às necessidades dos e das estudantes em restrição de acesso digital. Para tanto, disponibilizar-se-á, nos próximos dias, relatório na íntegra dos dados obtidos em nossas setoriais, e convocação de reunião extraordinária do Conselho de Entidades de Base, para que haja o posicionamento, em decisão benéfica a todos e todas.”

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