Ela sabe curar as dores de uma vida pobre | Jornal Plural
14 jan 2021 - 10h58

Ela sabe curar as dores de uma vida pobre

Uma chacina levou Gessi Borrher a acolher e fazer “milagres” aos moradores da vila Jardim União

Esta publicação faz parte do Festival de Jornalismo Literário, organizado em parceria pelo Plural e faculdades de jornalismo de Curitiba e Ponta Grossa. Jessica Brasil Skroch é formada pela UFPR

Gessi nasceu com o bicho-carpinteiro no coração. Uma doença dessas incuráveis, que requer tratamento para o resto da vida. É ele que a rói por dentro e a faz amar e amar cada vez mais. O diagnóstico não é comum e atinge principalmente mulheres. É uma das formas de empatia aguda. Sabe-se que a cura é doar amor para quem mais precisar. Para pessoas com essa doença, desistir de acreditar pode ser fatal. Se a enferma parar o tratamento, conta-se que o bicho come as entranhas e o seu organismo deixa de bombear a sua substância vital. O amor precisa de movimento para fazer efeito.

É por isso que essa mulher não para quieta um só segundo. Ela precisa estar para lá e para cá, sempre com muitas coisas a fazer, e ainda com muitas coisas a inventar. Não se sabe como o dia de Gessi Borrher cabe num dia de gente comum, esse que tem 24 horas. Porém, crises de dores intensas no seu corpo todo a imobilizam com certa periodicidade. Gessi tem fibromialgia. Tem vezes que não consegue sair da cama de tanta dor. Já tomou vários tipos de remédios, que hoje não fazem mais efeito. Para piorar, toma medicamentos que também derrubam, deixam sem vontade. Com a doença ou com a solução, é tudo a mesma coisa, não a permitem trabalhar. Ficar quieta é um tormento para ela.

O sonho de Gessi é transformar vidas. É acolher e apoiar todas e todos que estão em situação de vulnerabilidade. Pessoas que sofrem com a dependência química, com o crime, com a pobreza, com a violência, com a fome. Ela quer resgatar a humanidade no mundo e a dignidade humana nas pessoas. Gessi quer que as pessoas vivam, e não apenas sobrevivam. É o trabalho que faz há mais de uma década na vila Jardim União, em Curitiba.

Talvez o corpo de Gessi doa porque já viu e ouviu muita dor nessa vida. Foram incontáveis feridas irreparáveis causadas por diferentes violências. É gente com fome, gente doente, gente abusada, gente perdida, gente sozinha. Mas ela não aceita a determinação do irremediável. Desde adolescente, sentia a necessidade de fazer alguma coisa pelas pessoas, ajudar, levantar, criar oportunidades. Quando ia para a escola no Centro, pegava todo o dinheiro do lanche que seu pai lhe dava e comprava bolachas e salgadinhos, sentava na praça e comia junto com os garotos em situação de rua. Ela, que sempre foi pobre, sabia que tinha gente em situação muito pior. Nunca deixou de repartir o pão que tinha, mesmo que fosse em pedacinhos. Já mais velha, se via alguém sem gás ou remédios, fazia vaquinha com o pessoal da comunidade para conseguir comprar o que faltava. Diz Gessi que se todos derem as mãos, pode-se ir cada vez mais longe. E ela foi, levando muita gente com ela.

Em 1999, Gessi saiu do Bairro Novo e se mudou para a vila Jardim União, que tinha sido invadida no ano anterior. Era uma vila ainda muito miserável. A água vinha de poço, os pés afundavam na lama, o pouco de comida que se tinha era preparado dentro de latas. Naquela época, ela era casada com um homem que gastava quase todo o dinheiro que ganhava para suprir o vício em álcool. Com dois filhos para criar, só podia depender de si mesma. Por ser um lugar tão pobre, tomado pelo tráfico de drogas e pela violência, trabalhar fora era difícil. Gessi trabalhava de casa para não deixar os dois filhos pequenos sozinhos, vendia salgados congelados, doces, costurava.

Dentro de casa, ouvia muito do marido que ela não era capaz. Não acreditou. Se ela esmorecesse, quem cuidaria dos pequenos? Precisou arrumar estratégias para aumentar a renda da família. Com muita dificuldade, conseguiu pagar o próprio curso de confeitaria do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). O marido não aprovava, vivia colocando empecilhos. Queria que Gessi fosse uma mulher oprimida e “com medo do marido bêbado”, conta ela. Para pagar as passagens de ida e de volta do curso, vendia adesivos no intervalo do almoço. Depois, a primeira batedeira planetária, que usa até hoje, comprou bordando bonequinhas: bordava um olho, ganhava um centavo. Bordou várias pequenas partes do corpo da boneca e parcelou a aquisição que renderia boa parte do sustento da casa.

Quando Gessi decidiu que tinha que ter maior liberdade para ir e vir e fez sua habilitação para dirigir, mais uma vez seu marido não aceitou que fosse independente, que fosse mulher de si mesma. O homem ficou mais de um mês sem falar com ela. Não importava o que ele dissesse, “eu precisava estar bem pelos meus filhos”, relembra.

Até hoje, Gessi sente que tem que estar bem pelos seus filhos, todos os filhos que já adotou na sua história.

O chacoalhão

O ano é 2009. No dia 03 de outubro, sábado, oito pessoas são assassinadas e duas ficam feridas na Vila Jardim União. Entre as vítimas mortas, além de um bebê, estão jovens de 17 a 29 anos. A chacina foi motivada por vingança pela morte do sobrinho – que tinha 15 anos na época – de um dos sete acusados pelo crime. A maioria dos participantes também era de jovens, o mais novo com 16 anos, o líder do grupo com 23 anos, e o mais velho com 25 anos. Eles faziam parte de uma quadrilha de tráfico de drogas. Um dos pontos em que os tiros foram disparados foi na rua Helena Carcereri Piekarski, então endereço de Gessi.

Não foi a primeira vez que ela viu corpos tão jovens da vila Jardim União serem enterrados. Crianças de 12 anos morrendo, sendo violentadas e abusadas por causa do tráfico de drogas. Ela consegue lembrar de vários nomes e as idades de cada vítima. Eram crianças que nunca degustaram o seu direito à infância. Tudo isso mexia muito com Gessi. Depois da tragédia, o bicho-carpinteiro a corroeu tão forte que não pode mais evitar, precisava fazer algo.

Não adianta só tirar da rua

Apesar de pensar que o lugar em que se vive não pode definir a identidade de alguém, Gessi entende que faltam condições e oportunidades. E, principalmente, falta amor. Mas no coração dela, o amor transborda. Ele perpassa todas as fronteiras. Transpassa o medo. O preconceito. O amor supera o que se tem de barreiras morais, do mundo e dela mesma.

Depois de ver a realidade triste da vila, Gessi começou a trazer para casa pessoas que estavam em situação de rua e que queriam ajuda, principalmente aquelas que tiveram problemas pelo consumo abusivo de drogas. Pessoas que gastaram todo o dinheiro próprio, pessoas que não conseguiam mais trabalhar, pessoas que foram expulsas de casa. Ela disponibilizava o seu chuveiro, arranjava roupas, dava alimento e água. Conversava, explicava como seria um tratamento. Mas, acima de tudo, confiava no ser humano. Conseguiu parceria de vagas sociais em comunidades terapêuticas. Até arranjar um lugar, as pessoas ficavam morando na casa da Gessi. Alguns ficavam, outros fugiam. Alguns melhoravam, outros recaíam. Mas as portas da casa dela sempre ficavam abertas. Conta ela que, além do seu marido atual e os seus três filhos, já teve seis pessoas acolhidas morando ao mesmo tempo em sua casa.

Atualmente, por causa da saúde, Gessi não está indo tanto para rua. Mas ela ajuda quem vai. Arruma comida, doações, empresta panela e o fogão industrial. Mas se tiver que levar para casa, ela leva.

A primeira pessoa que acolheu era uma rapaz de 19 anos. Ele ficava na vila porque servia de olheiro para o tráfico, mas tudo o que ele mais queria era sair dali. Uma vida marcada por abusos sexuais na infância fez com que o menino fugisse de casa. Um dia, Gessi fez um bolo e uma festa de aniversário para ele. O garoto chorou. Em toda a sua vida, era um momento que ele nunca tinha tido. Depois dele, ela não consegue nem lembrar quantos foram aqueles que ela chama de “filhos e filhas”.

Mas o problema não se resolve apenas com paliativos. Isso Gessi aprendeu na prática. Segundo ela, “Deus foi dando a direção”. Mas é que Gessi conhece dos caminhos do amor.

E ajudar a pessoa envolve também ajudar o entorno dela, ajudar a família. Gessi encontrava famílias desestruturadas, doentes. Nisso, ela percebeu que precisava cuidar de todos. Com as crianças, precisava fazer um trabalho de prevenção e orientação. Com as mulheres, principalmente as que estão em situação de violência doméstica, era necessário apoiar, empoderar, possibilitar um caminho para a renda familiar, seja pelo artesanato, pela costura, ou pela venda de doces e salgados. Para todos, mostrava que um caminho era possível. E a porta de entrada era a porta da sua própria casa.

O trabalho foi crescendo e mais pessoas passaram a procurar a Gessi. Ela entendeu que precisava se capacitar e foi alargando a sua rede. A partir de um colega da Sociedade Bíblica do Brasil, conheceu a REAGE, a Rede Cristã de Agentes em Proteção e Prevenção às Drogas. Passou também a fazer os cursos da Cruz Azul do Brasil sobre dependência química. Começou a estudar, conhecer estratégias e pessoas que pudessem qualificar suas ações. E a sua casa foi ficando pequena para tudo isso.

A ajuda de Gessi ajuda não tem limites. Foto: Reprodução Mulheres da Vila

ONG Missão Acolher

Em 2016, Gessi assumiu ainda mais a sua missão de acolher pessoas em situação de vulnerabilidade. Alugou um salão próximo a sua casa na vila Jardim União para alocar as suas atividades e criou a ONG Missão Acolher. Ela e os voluntários, muitos deles também atendidos por ela, ficaram nesse espaço por três anos.

O trabalho consiste em grupo de apoios com pessoas que estão em dependência química e mulheres em situação de violência, além de ofertar, para elas, cursos de pintura, costura, confeitaria e artesanato. Ela realiza também rodas de conversa com crianças e adolescentes da vila, ação que já estava com 110 participantes. Há também uma escolinha de futebol em parceria com uma escola próxima. Além de sempre continuar a acolher pessoas em situação de rua e encaminhar para as comunidades terapêuticas, Gessi faz diversos eventos, principalmente para as crianças. Mas a sua ajuda não tem limites. Se algo falta na vida de alguém, Gessi dá um jeito de arrumar, desde uma roupa, um alimento, uma creche, ou até um atendimento médico mais qualificado.

Os dois eventos que mais causam ansiedade nos pequenos da Jardim União são os dias do cinema e a festa de Natal, numa pizzaria, lugares que muitos deles só entraram a primeira vez por causa da ONG. Mas Gessi também já preparou almoços, distribuiu brinquedos no Dia das Crianças, doces e chocolates na Páscoa. Na última, Gessi bateu um recorde: conseguiu agradar mais de mil crianças com uma caixa de chocolate, pacotes de doces e um monte de bolo no ginásio da escola.

Para custear tudo isso, Gessi e os voluntários fazem uma porção de coisas: bazar de roupas e outros itens, como laços de cabelo, panos de prato, cestos, almofadas, bonecas, tudo feito pelas mãos delas e deles, além da venda de doces e salgados. Gessi também arranja vendas pela internet, para os amigos, para quem aparecer. É assim que junta dinheiro e leva 100 crianças numa pizzaria – entre várias outras coisas que nem ela consegue lembrar direito.

Pede uma benção que Gessi atende

Gessi virou a milagreira da vila. É ela quem sabe curar as dores de uma vida pobre. Ela que resolve o problema da falta insuportável. Gessi era o caminho para o que se é de direito. Ela era o caminho para o Estado. Na vila Jardim União, volte e meia a solução passava pela porta da sua casa.

Apesar de Gessi saber onde se busca a solução para cada problema, entende que não pode fazer tudo. Até tenta, mas nem sempre consegue. Ainda que muitas pessoas não entendam, nem todas as preces estão sob o seu alcance.

É que Gessi já tirou muito cachorro da rua, também, além das pessoas. Já arrumou donos e lares novos. A fama dos seus “milagres” chegou tão longe que esses tempos um moço de São José dos Pinhais, cidade na região metropolitana de Curitiba, pediu ajuda para conseguir um dono para um pitbull. Gessi reclama, “como que esse moço me achou? Eu não entendo”. Feito mãe que se queixa dos filhos que não fazem nada, mas que sempre acaba limpando a sujeira deles, no final, Gessi arranjou a vida do cão.

Coragem, mulher!

Muita gente chama a Gessi de louca, que ela poderia estar vivendo a sua própria vida, e não a vida de problemas dos outros. Mas o bichinho do amor não a deixa parar. “Mas tipo assim, o meu trabalho é como o ar para mim. Se eu parasse, não tem mais razão de viver”, responde. É esquisito, por que alguém dedicaria todo o seu tempo para essas pessoas?

São pessoas que requerem muito trabalho. Pessoas que estão invisíveis, pessoas que precisam de muito tempo de cuidado. Esse, cuidado que talvez nunca tiveram. Gessi insiste por meses, anos, até ver uma pessoa bem. Acompanha cada passo, não dá as costas. Porém, também não passa a mão na cabeça. Dá sermão.

Gessi acredita que as pessoas podem se empoderar, acreditar nelas mesmas e conquistar assim o que sempre sonharam. É que ela nunca deixou de acreditar, em si mesma e no mundo. Ela tem muita fé em Deus, mas também na deusa que mora dentro dela. Para ela, o medo é um obstáculo ultrapassável pela coragem. E não tem nenhuma palavra que defina mais Gessi do que “coragem”.

Coragem vem do latim “coraticum”, derivado de “cor”, que significa coração, e “aticum”, que significa a ação do termo anterior. Coragem é, então, a ação do coração. Na Roma Antiga, acreditava-se que era no coração que se alocava a bravura para enfrentar o medo. O coração não representava só as emoções, mas os pensamentos, a vontade, a inteligência, a alma. O coração, na luta, bate mais forte.

De tijolo em tijolo

O sonho de Gessi é fazer a ONG crescer, conseguir melhorar a vida de mais pessoas. Desde dezembro de 2018 a ONG está sem sede. O galpão de antes tinha um aluguel muito caro, e Gessi não dava conta de estudar, facilitar os grupos e ainda trabalhar para sustentar tudo isso financeiramente. Era preciso ter os recursos, se preparar, administrar, atender, tudo ao mesmo tempo. Foi ficando cansativo.

Gessi e o marido decidiram demolir a própria casa na Vila Jardim União para construir uma nova sede. Então, eles se mudaram para um lugar fora da vila, mas próximo. Porém, a mãe de Gessi doou uma casa da vila para ela, na frente da antiga sede, e agora estão juntando dinheiro para construir a nova Missão Acolher em containers. Faltam R$ 80 mil, que a Gessi não tem, mas tem muita fé. Ou melhor, coração.

A falta de coração assusta Gessi. Não entende como isso existe no mundo. É que, para ela, apenas isso que pode curar. Diz que não é tão difícil assim, é só uma questão de tempo, de cuidado, de encontro.

A antiga casa de Gessi será alugada. Fora da vila, ela conta que agora tem um pouco mais de privacidade do que antes. Consegue dedicar mais tempo à família, dormir e comer sem ter que estar sempre atendendo alguém. Quando desce na vila, algumas quadras da sua casa, as crianças saem correndo e abraçam a tia Gê: “Tia, tia, quando que vai começar de novo?”.

Ainda que Gessi tenha ouvido que ela não era capaz, foi possível. Continua sendo. Segundo ela, Deus é quem tem pressa para que a obra fique pronta. Até lá, Gessi trabalha. Se algo for impossível de fazer, fica a cargo de Deus.

*Esta é a terceira parte da publicação, pelo Plural, do projeto Mulheres da Vila

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