Educação Infantil terá aulas presenciais. Seu filho volta? | Jornal Plural
27 jan 2021 - 0h11

Educação Infantil terá aulas presenciais. Seu filho volta?

Perda no desenvolvimento e socialização dos pequenos é inegável; riscos da Covid-19 também

Nas escolas municipais de Curitiba a volta às aulas presenciais, no modelo híbrido, será em 18 de fevereiro. Nas instituições particulares de Educação Infantil, a partir da semana que vem, 1 de fevereiro. Os pais podem escolher se os filhos voltam ou não para as salas de aula. Os que optarem por mandar, avaliam as irreparáveis perdas pedagógicas e sociais. Os que escolherem continuar no ensino à distância, consideram o coronavírus e suas consequências, muitas vezes mortais. Em qualquer situação, há riscos, e a decisão pode ser bem difícil.

Os casos de Covid-19 na Capital chegam a 126 mil nesta terça-feira (26). São 6.854 pessoas com a doença ativa no organismo, ou seja, com potencial de transmissão, e outras 2.574 que perderam a batalha pela vida. Mesmo com todos os protocolos de segurança nas escolas, as chances de contaminação existem, especialmente entre crianças menores, que tendem a não cumprir as regras de distanciamento social.

“Os protocolos podem minimizar os riscos de transmissão, mas não tem como garantir que não vai haver esta transmissão, tanto no contato quanto na questão respiratória; se a criança vai conseguir ou não manter a máscara, que é a principal arma pra evitar a transmissão do coronavírus, já que a via aérea é a principal forma de transmissão da doença”, avalia a médica infectologista Viviane de Macedo, doutora em Ciências e professora do curso de Medicina da Universidade Positivo (UP).

“Acho difícil a manutenção deste distanciamento [social], até porque a criança é sociável e tem dificuldade no respeito destas regras. Mas cada família vai ter que avaliar, pois o contato físico vai acontecer de alguma forma, o contato com os objetos vai acontecer, e não vai ter como evitar isso.  Então, cada família vai ter que avaliar se quer o risco de ter sua criança infectada, e se houver infecção ter a consciência de não visitar avós”, reforça.

Entretanto, a infectologista lembra que “as crianças transmitem mal a doença e se ficarem infectadas têm uma menor repercussão clínica, evoluem menos mal do que os adultos. O problema é se esta criança é cuidada por pessoas acima de 60 anos”.

Outros riscos

Sem ter onde deixar seus filhos para trabalhar, muitos pais acabam recorrendo a “creches clandestinas”, pelos bairros, onde cuidadoras improvisadas cuidam de várias crianças, de idades diferentes, sem nenhum tipo de protocolo de segurança, como lembra o médico da família e da comunidade, Rogério Luz Coelho Neto. “O que não me parece correto, embasado em diversos estudos, é que estas crianças estejam fora da escola, mas os pais estejam trabalhando normalmente. Então, se você vai fechar tudo, você pode fechar tudo. Ou seja, o fechamento de escola é ótimo como auxiliar à mitigação da pandemia. Agora, se tá todo mundo lambendo corrimão de shopping e estão só as escolas fechadas, mais nada, isso não é uma boa estratégia”, avalia o médico.

Integrante da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia – Núcleo Paraná (ABMMD/PR), Rogério destaca que há ainda o risco de segurança nutricional, “pois grande parte das crianças muito pobres só recebe nutrição através da escola e isso desde o começo da pandemia foi perdido”.

O médico se diz a favor do retorno, mas acredita que deveria haver um plano de contingenciamento nas escolas. “Elas deviam ter sido reformadas, arejadas, tinha que ter mais gente trabalhando antes, e agora vacinar todos os professores. Nesse sentido pecamos, e o poder público foi o que mais pecou pois não se planejou.”

Reformas em Escolas e Centros de Educação começaram em janeiro de 2021. Foto: SME

Perdas pedagógicas

Não há como negar os impactos no desenvolvimento educacional e social das crianças nesse ano fora da escola. Com o ensino à distância, as perdas pedagógicas foram sentidas, mas foi na Rede Pública que elas se acentuaram. “Muitos alunos não têm opção nem condição de ter o instrumento e toda funcionalidade necessária para acompanhar a aula de casa, e mesmo as gravadas são maçantes, pesadas, e não são com a professora da criança, então claro que o pedagógico é prejudicado”, percebe a doutora em Educação, Giselle Corrêa. “A criança de escola pública, em geral, tem uma diferença de acesso e condição de acompanhamento e isso reflete na aprendizagem.

Segundo ela, a ideia é que este ano comece com uma retomada de 2020 para que o aluno não siga como se nada tivesse acontecido. “Em geral, se manterá a mesma professora, para que ela continue os conteúdos fazendo uma avaliação diagnóstica, e uma retomada do que é necessário.”

“O bom é estar na escola. E isso ficou muito evidente para todos com a pandemia, que a escola é, além de aprendizagem, um lugar de socialização. Um espaço fundamental e um dos únicos onde a criança socializa com o outro, o outro que não é seu parente, que não é a pessoa que está todo dia, que dorme junto, que não é só adulto ou a outra criança que ela conhece de casa. Que é o outro realmente, com outro histórico, outra família, outra cultura, e é isso que é rico. A escola está fazendo muita falta, também por esse motivo”, destaca a doutora em Educação.  

No entanto, ela percebe o momento complicado para o retorno. “Estamos sem perspectiva de vacina para todos, nem para crianças e nem para professores neste momento. Se fosse para todos da Educação ficaria mais viável, agora, sem vacinar ninguém numa situação desta, é um erro. Vamos ter mais casos, crianças assintomáticas passando para os familiares; é um retorno precoce e preocupante. As medidas não são suficientes, pois são paliativas. A medida real seria vacinar todos”, conclui Giselle.

Autonomia Particular

Cada escola da Rede Particular de Ensino no Paraná tem autonomia para decidir a data e a forma de retorno, e isso depende da infraestrutura e do número de alunos de cada uma. Algumas voltarão totalmente presencial, já outras no sistema híbrido, respeitando os protocolos sanitários, informou o Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe).

“A sala precisa estar com a capacidade de uso reduzida, e assim será feito o rodizio entre os estudantes. O distanciamento é de dois metros no mínimo, (…) utilizando-se de calendários dinâmicos e o escalonamento dos alunos nestas duas modalidades [presencial e virtual].”

Não houve fiscalização ou recomendação sobre a estrutura das mais de 500 escolas particulares no Paraná e cada uma fez as alterações que julgou necessárias para se adequar aos protocolos sanitários do Estado e do Munícipio. “Os pais precisam visitar a escola e verificar se atende as diretrizes. As salas de aulas estão sendo preparadas para cumprir os protocolos sanitários. Por exemplo, distanciamento das carteiras, ventilação adequada, higienização, número adequado de estudantes, uso obrigatório de máscaras. A instituição também irá orientar, por meio de professores e funcionários, da importância dos alunos seguirem todas as regras.”

Segundo o Sinepe, “cada escola possui suas peculiaridades e os espaços precisam ser arranjados”. Sobre de que forma as instituições farão o acompanhamento dos casos de Covid-19, o sindicado diz que “estarão acompanhando o dia a dia dos estudantes, aferindo a temperatura e registrando os casos que apareçam com temperatura acima do previsto como normal. Apontando em suas fichas individuais, comunicando aos pais e cuidando individualmente de cada aluno”.

As instituições privadas “estarão reiterando às famílias que informem a escola caso tenha ocorrido alguma possibilidade de caso confirmado de Covid-19, como qualquer outra enfermidade”.

Rede Municipal

Parte das 140 mil crianças que integram a Rede Municipal de Curitiba volta às salas em 18 de fevereiro. A outra parte continua no modelo remoto, com as videoaulas da TV Escola Curitiba. A escolha caberá às famílias.

Em janeiro, a Prefeitura divulgou reforma em 19 escolas e 40 Centros de Educação Infantil (CMEIs), entre elas, intervenções em banheiros, rede elétrica, telhados, refeitórios, portas e pinturas. Todos devem seguir os protocolos de segurança instituídos. O prazo para finalização das obras não foi informado.

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