Curitiba vive pior momento na falta de anestésicos em UTIs Covid | Jornal Plural
9 abr 2021 - 21h08

Curitiba vive pior momento na falta de anestésicos em UTIs Covid

Consumo de oxigênio também está crítico e aumentou 70% desde dezembro

O estoque de drogas usadas para a intubação de pacientes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de Covid-19 em Curitiba continua limitado, e a escassez é considerada a mais grave até agora. Levantamentos recentes alertam que a disponibilidade de insumos essenciais em hospitais da Capital paranaense está em patamares críticos, aviso que também vale para a oferta de oxigênio. Em algumas unidades, a reposição de gases medicinais que ocorria a cada dez dias, agora é feita dia sim, dia não. Em todo o Paraná, o consumo de oxigênio entre os internados já superou em 70% o volume de dezembro.

“Apesar de tudo, de oxigênio não temos ainda relatos de falta, mas de [falta de] anestésico com certeza este é pior momento. Como lá atrás tivemos o nosso pior momento com falta de máscara, agora a bola da vez é o anestésico. Ninguém hoje arrisca abrir leito porque sem anestésico não adianta abrir”, afirma Flaviano Venturim, presidente da Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Paraná (Femipa) e também do Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde no Estado do Paraná (Sindipar).

Com cerca de 90% dos leitos SUS exclusivos de Curitiba ocupados nesta sexta-feira (9), o gestor teme que a situação possa piorar em consequência de possíveis aglomerações do feriado de Páscoa, elevando ainda mais a pressão pelo uso destes medicamentos.

A preocupação faz todo sentido. A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) incluiu Curitiba na lista de cidades com filiados que relataram ter estoque de anestésico suficiente apenas para um período de cinco dias – caso, em situação extrema, não haja reposição alguma. O levantamento foi divulgado na última quarta-feira (7) e não revela o nome das instituições consultadas. Mas o conjunto de hospitais privados e beneficentes da Capital paranaense está operando praticamente em sintonia – inclusive, conforme mostrou o Plural, no esquema de empréstimo de medicamentos.

Importados

Quem pode, também começou a olhar para o mercado externo. Até o próximo dia 20, o Hospital Marcelino Champagnat deve receber dois lotes de bloqueadores neuromusculares – anestésicos fundamentais para o processo de intubação – comprados da Índia e da Turquia. O Hospital Nossa Senhora das Graças (HNSG) também afirmou já estar em negociação com uma indústria peruana para adquirir os anestésicos e amenizar a crise da distribuição.

As transações ganharam fôlego com decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de autorizar, em caráter excepcional, a importação direta de diversos medicamentos não regularizados no país por entidades públicas e privadas. O critério é que as drogas sejam pré-qualificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ou já regularizada em algum país com membros no Conselho Internacional para Harmonização de Requisitos Técnicos de Produtos Farmacêuticos de Uso Humano (ICH).

“A importação é uma solução de caráter imediato. Não é um processo simples porque precisa ter uma documentação extensa, pagar antecipado e pagar em dólar. Então, são poucos os hospitais que têm condições de fazer”, explica Ventorim, que também é diretor-executivo do HNSG. Segundo ele, o HNSG, especificamente, ainda não atingiu uma fase mais dramática porque segue um plano interno de contingência que alterna modalidades de anestésicos disponíveis. A escolha otimiza a duração das reservas e amplia a lista de fornecedores.

Entre os hospitais que integram a Rede Covid-19 – com leitos disponíveis pelo SUS em Curitiba –, a rotina não tem sido diferente. No Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM), a reposição de drogas para as UTIs é feita, mas sempre com uma quantidade de estoque para no máximo uma semana. O Hospital São Vicente afirma que está administrando todos os itens, mas que a dificuldade é a mesma que a dos outros hospitais de Curitiba.

Kit intubação

Os percalços relatados foram tema de reunião entre o secretário de Estado da Saúde, Beto Preto, o governador Ratinho Jr. (PSD) e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na última terça-feira (6), em Brasília. O Governo Federal teria sinalizado ajuda para robustecer as reservas do SUS no Paraná.  

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), responsável pelo gerenciamento de vários hospitais públicos em Curitiba, nega falta dos chamados “kits intubação”, mas ressalta que, devido à alta demanda e à entrega fracionada pelos fornecedores, não tem conseguido suprir estoques para mais de 30 dias. Nas últimas semanas, a pasta distribuiu cerca de 260 mil unidades dos kits aos 60 hospitais que integram a estratégia de enfrentamento da pandemia, inclusive particulares com leitos SUS.

Nas unidades gerenciadas pela prefeitura de Curitiba, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) também nega falta, mas admite que o nível de disponibilidade de medicamentos como sedativos e bloqueadores neuromusculares está crítico. Lotes foram comprados em regime emergencial e, além disso, o padrão do coquetel usado pelas equipes médicas passou por ajustes, com outras drogas incluídas na lista para aumentar as opções de compra, sem afetar a eficácia aos pacientes.

Oxigênio

O alerta da Anahp também vale para a disponibilidade de oxigênio, considerada crítica em Curitiba. Os hospitais, por sua vez, afirmam que têm conseguido gerenciar o estoque do insumo com menos apreensão do que em relação aos medicamentos.

Com contrato junto a hospitais da Grande Curitiba, incluindo o Complexo do Hospital do Trabalhador, do Governo do Paraná, a Indústria Brasileira de Gases (IBG) explica que a empresa tem conseguido atender a demanda dos estados, mas no limite. “A empresa fica sujeita a uma série de alterações que implica em aumentar o banco de capacitores, de vaporizadores, trocar quadros e, além disso, a frequência de abastecimento tem crescido demais”, relata o presidente da IBG, Newton Oliveira.

Para a capital paranaense, conforme o presidente, as entregas antes programadas a cada dez dias, passaram a ser dia sim, dia não. “E você ainda conta com outro problema que, como aumenta essa frequência, começa a faltar caminhões, o seu pessoal acaba ficando doente porque entra nos hospitais. E são pessoas que não são fáceis de encontrar no mercado de trabalho porque são treinadas. Todas essas dificuldades acabam levando a uma quase falta de produto para o cliente, mas até o momento estamos atendendo todos, rodando em plena capacidade”, complementa.

Uma das principais distribuidoras de oxigênio líquido no Paraná e no restante do país, a White Martins informou que o consumo de oxigênio nas Redes Pública e Privada está estável nos últimos dias, mas disparou em relação ao fim do ano passado. Em 2 de abril, o volume diário de oxigênio líquido medicinal foi de 32.875 mil metros cúbicos, um aumento de 72% em comparação com dezembro de 2020. Com relação especificamente às unidades mantidas pela Sesa, o aumento foi de 68% no mesmo período.

Para atender às necessidades dos hospitais, a fornecedora passou a fazer entregas em Curitiba a cada três dias, e não mais semanalmente, como costumava.  Apesar de ainda não prever falta da distribuição do insumo, a White Martins diz que “tem alertado exaustivamente às autoridades competentes sobre os riscos envolvidos na transformação de unidades de pronto atendimento em unidades de internação para pacientes com Covid-19 sem um planejamento adequado, o que traz impactos significativos na logística, na segurança operacional e na confiabilidade do abastecimento”.

Em março, a prefeitura de Curitiba transformou todas as suas nove UPAs em leitos clínicos para Covid-19, espécie de retaguarda dos hospitais que colapsaram em consequência da falta de controle mais rígido de isolamento social e do maior pico de casos e mortes de toda a pandemia até então.  

Sem se referir especificamente ao arranjo posto em prática pela Saúde de Curitiba, a empresa acrescentou que “algumas unidades não contam com infraestrutura apropriada, como tanques de estocagem de oxigênio e redes centralizadas para o gás, ou não possuem sistemas com a dimensão adequada para a expansão do consumo”, o que é essencial para o armazenamento e uso adequado do oxigênio.

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