19 jan 2022 - 11h10

Curitiba vive novo surto de Covid-19 repetindo erros de 2021

Alto índice de positividade em testes Covid-19 apontam para descontrole do surto e baixo volume de testagem. Dados sobre exames são incompletos e opacos

Às vésperas de completar dois anos de pandemia de Covid-19, Curitiba vive um novo surto da doença com alta recorde de casos ativos e velhos problemas nos dados abertos. A principal: o alto índice de positividade nos testes de Covid-19. Neste mês de janeiro ele chegou a 41%, o maior valor desde o início da pandemia. A princípio esse valor indica que a cada 10 testes feitos, 4 deram resultado positivo. Especialistas, no entanto, apontam para uma análise mais reveladora.

“É o principal indicador que precisamos acompanhar”, explica o coordenador da Rede Análise Covid, Isaac Schrarstzhaupt. Especialista em modelagem de dados, ele descreveu em artigo da Rede o índice de positividade como o “placar” da pandemia. No futebol, diz, “temos muitos indicadores, mas o padrão é o GOL. Basta ligarmos a televisão e olharmos para aquele pequeno placar no cantinho da tela e pronto. Sabemos o que importa a respeito do jogo. Depois, com calma, podemos acompanhar e, aí sim, entender quem teve a maior posse de bola, quem errou menos passes, quem aproveitou melhor as chances de gol. Mas o placar é aquele que imediatamente passa para quem está assistindo qual é a situação que mais vai afetar o jogo ao seu final”.

O índice de positividade teria a mesma função. No entanto, desde o início da pandemia este tem sido um indicador negligenciado. Segundo Schrarstzhaupt, podemos interpretar o índice da seguinte forma:

“Positividade baixa: (de 1% a 2%): Neste caso, estamos em relativo controle da infecção, sabemos onde estão os casos, e temos de isolar os positivos e também seus contatos, para manter a positividade baixa;

Positividade em alerta (de 3 a 5%): Neste caso, percebemos que o surto está aumentando, e é necessário, além de um isolamento dos positivos e seus contatos, uma restrição mais firme em atividades que possam gerar risco”.

Mas e quando o índice está muito acima de 5%? “Estamos testando pouco”. Isso quer dizer que estamos deixando casos leves e assintomáticos sem acompanhamento das autoridades da saúde e potencialmente transmitindo para outras pessoas.

Mas quantos testes seriam necessários? Antes de mais nada é preciso melhorar os dados disponíveis. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informa que 1.013.692 testes PCR-RT e 160.177 antigeno foram realizados na cidade. “Este total inclui o sistema público e privado, no entanto alguns laboratórios que enviam resultados diretamente ao Ministério da Saúde via RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde) não estão compilados neste total”, detalha.

A página, no entanto, só apresenta o total por mês sem diferenciar o tipo de teste e sem disponibilizar os dados em formato aberto (ou seja, quer quiser obtê-los para análise tem que usar alguma estratégia para raspá-los da página). O ideal, segundo Schrarstzhaupt, era contabilizar só os exames PCR-RT, que são o padrão ouro no diagnóstico da Covid.

Capital tem maior índice de exames com resultado positivo desde março de 2020. Imagem: Plural com dados da SMS

Além disso, a SMS informa quantos testes foram feitos para 100.000 com base no total de exames, e não por mês em que eles foram realizados.

E quantos exames deveriam ser realizados? Muito mais do que está sendo feito. Neste mês de janeiro Curitiba realizou 516 exames para cada milhão de habitantes. Em Portugal, por exemplo, são feitos 23.779 a cada milhão de habitantes por dia, dos quais 3.467 têm resultado positivo (14%). Nos EUA, são realizados 7.003 testes por dia para 1.000.000 de habitantes com 30% de índice de positividade.

“Ao testar bastante, descobrimos onde estão os casos positivos, inclusive os assintomáticos. Ao isolar estas pessoas e seus contatos, acabamos reduzindo a taxa de transmissão, e diminuindo os novos casos. Ou seja: quanto mais testes, menos casos”, aponta Isaac.

E em Curitiba? Fizemos um total de 35.675 testes (PCR-RT e antígeno) nos primeiros 12 dias de janeiro, que são os dados disponibilizadas pela SMS, dos quais 14.627 tiveram resultado positivo. Esse total já é superior ao de testes realizados durante todo mês de dezembro de 2021 (33.289), quando o índice de positividade era de 8%. Hoje, sem testes suficientes pessoas contaminadas continuam circulando na rua, em escritórios, transporte coletivo transmitido a doença e colocando em risco pessoas que ainda não se vacinaram – principalmente crianças.

O que precisaria ser feito? Para Isaac a “ação imediata é aumentar os testes juntamente com  o fechamento de atividades não essenciais para controle da taxa de transmissão”.

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17 comentários sobre “Curitiba vive novo surto de Covid-19 repetindo erros de 2021

  1. É muito importante dar visibilidade ao trabalho da Rede Análise Covid. O Isaac Schrarstzhaupt, desde o início da pandemia, tem se desdobrado para apresentar dados estatísticos complexos de maneiras compreensíveis. Quem acompanha criteriosamente o trabalho deste grupo sabe que adjetivos pejorativos não lhe são aderentes. Os que não conseguem ir além de raciocínios binários e toscos, vociferarão impropérios. A pandemia da COVID-19, no Brasil, se sobrepõe a outra epidemia: de desinformação, de falseamentos, de rudez. Por isso que gente como o Isaac e jornais como o Plural são importantes: que haja luz! E vida.

    No caso deste aumento descontrolado no número de casos, certamente que a prefeitura de Curitiba e a Secretaria de Saúde deveriam agir com mais energia. O tão falado “princípio da precaução” parece não constar dos manuais curitibanos. Bastaria a pergunta: e se uma pequena fração destes que agora adoecem desenvolver sequelas de longo prazo? E se essas sequelas forem incapacitantes?

    Neste momento, seria urgente insistir para que houvesse aumento de testes – e que os mecanismos de busca e isolamento de casos acontecessem com presteza. No entanto, parece que Curitiba também não se faz capaz de seguir mais este caminho civilizado. Então, seria o caso de a cidade adotar outras medidas, mais simples e também eficazes. Seguem alguns exemplos:

    1- Curitiba poderia investir em campanhas maciças estimulando o uso de máscaras PFF2. Por que não adotar uma política pública de distribuição dessas máscaras nas escolas e nos terminais e pontos de ônibus? Certamente que a cidade teria recursos para bancar uma iniciativa desta natureza.

    2- Tendo em vista o iminente retorno às aulas, também seria o caso de investirmos no monitoramento da qualidade do ar. Por exemplo, instalando medidores de CO2 em todas as salas de aula. A esta iniciativa, acompanharia outra de conscientização das pessoas a respeito dos mecanismos de contágio, particularmente a propagação do vírus pelo ar.

    3- Para complementar as iniciativas de monitoramento da qualidade do ar, poderíamos lançar uma campanha de mobilização para garantir a boa qualidade do ar nas escolas. Há mecanismos de ventilação, filtragem e purificação do ar. Projetos que poderiam contar com a participação de cientistas das universidades que têm sede em Curitiba. Existe uma miríade de possibilidades de baixo custo e que permitiria realizar parcerias entre perfeitura, escolas e universidades. Os curitibinhas ficariam mais protegidos. Há muita inteligência em Curitiba. Pouca articulação.

    4- Seria importante diminuir aglomerações, por exemplo, no transporte público. Nesta linha, cidades sérias também atentariam para aglomerações tais como as que ocorrem em espaços de festas infantis etc.

    Note-se que “controlar” não é, necessariamente, a mesma coisa que fazer “lockdown”. Ocorre que, hoje, a política adotada pela prefeitura foi reduzir a 70% a ocupação de espaços; o festival de música foi adiado; unidades de saúde estão sendo rearticuladas (para receber mais pacientes); o prefeito anuncia a vacinação feito fosse panaceia. Ante as possibilidades e recursos, Curitiba continua fazendo pouco. Muito pouco. Por isso que assistimos à escalada desgovernada dos números.

    Continuemos com as rezas, com as torcidas e – por que não – com a insistência de pensar, de propor, de conscientizar e de cobrar as autoridades para que façam mais e melhor.

  2. Embora o comentário pareça bastante oportuno em sua análise, me parece pecar no seu final quando fala em fechar atividades não essenciais. Está bem claro que os vacinados estão tendo poucos casos graves, então vejo urgência em vacinar crianças…e afastar do convívio aqueles que não se vacinaram, para que não prejudiquem os demais.

  3. Você vai no posto de saúde procurar atendimento não estão atendendo,somente se ligar na prefeitura pra daí ver se vc precisa de atendimento ou não. Na minha casa estamos em 5 pessoas todos com gripe ,sintomas leves mas estamos,a indicação deles foi fazer isolamento e não testar ,pq os testes são para os casos graves. Ridículo isso,moro em um condomínio onde só no meu bloco já tem dias unidades positivadas, e daí e se a gente for tbem !!!! No trabalho os patrões querem atestado comprovando o covid ,então temos que sair trabalhar. Greca não investe na saúde, postos lotados,ônibus lotado,tudo lotado. Não sou a favor de fechar ,mas nem álcool se encontra mais nos lugares onde anda desde da liberação de tudo. Ou seja Curitiba tá largado!!!

    1. Oi Renata, acho que você leu errado. Não há menção a lockdown, e sim controle de atividades (o que a própria prefeitura fez, reduzindo lotação para 70%). Obrigada pela audiência.

  4. Marc, lembre da regra de ouro: a sua liberdade acaba onde começa a do outro. Se você pudesse ficar sem se vacinar e sem usar máscara e isso fizesse mal a somente você, eu não poderia estar mais me lixando. O problema é que quem faz isso acaba prejudicando todo o resto da população. É difícil entender isso?

  5. Wagner,
    Escute um pouco mais quem entende e menos quem faz politicagem.
    O fato da maioria da população estar vacinada não significa que o perigo acabou. Pessoas, mesmo que em menor quantidade, ainda vão continuar ficando doente e até morrendo e causando mutações imprevisíveis nesse vírus.

  6. Fechar o comércio mais uma vez não vai adiantar nada , só vão fazer mais pessoas perderem o emprego , só abrirem mais leitos e a população se cuidar mais já basta , não estamos mais na ditadura pra o governo mandar e desmandar na gente

    1. Oi Alex, você está lendo algo que não está no texto. Fala-se ali em controle, o que significa restrição de lotação, limitação de atendimento. Não há menção a lockdown.
      Rosiane

  7. Estamos enclausurados na ignorância e na mesma ladainha dos últimos 2 anos… nossos políticos estão, como sempre, preocupados com a cota de $$$$ para sua (re)eleição e o povo fica a deriva nesse barquinho furado que se chama Beasil… Covid? Que nada! É só uma gripezinha…. Nem o garoto de 66 anos que é o dono do barco furado do momento, acha necessário se vacinar!!! Quem somos nós pra querer máscara gratuita e emprego decente? Bora pra Portugal, ter conversa séria com o Cabral!!!

  8. Antes da vacina o controle e a prevenção sempre é o carro chefe, distanciamento e mascara quando o vírus não encontra o hospedeiro ele morre e evita na raiz o contagio , solução é eliminar a aglomeração, ônibus lotado, shopping e lugares fechados , estádio de futebol , fechar comércio está errado, o comércio pode limitar a capacidade e com todos os protocolos vai funcionar, aí vem as vacinas para ajudar imunidade. Não tem nada haver com opiniao política, cada um faz seu papel o independente de lado a favor ou contra o presidente esquerdistas vão a praia e fazem tão errado mais que o presidente e depois vem aqui pagar de bom samaritano. Parece piada né?

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