10 jan 2022 - 19h57

Com casos de Covid e gripe em disparada, Curitiba faz compra emergencial de testes duplos

Testagem em massa, defendem os especialistas, continua sendo uma medida essencial para o planejamento de ações na saúde

Um novo pico de casos de Covid-19 associado a um surto de gripe aumentou a demanda por testes nas redes pública e privada de saúde. Ao contrário de outras capitais do país, Curitiba ainda não enfrenta falta de exames de antígeno, mas a prefeitura deu início na última sexta-feira (7) a um processo de compra emergencial de testes rápidos com detecção dupla de Covid-19 e Influenza A e B.

Apesar da aquisição – a prefeitura não informou qual será o volume da compra, e o processo ainda não detalha –, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) não respondeu se pretende ampliar a política de testes hoje praticada pela pasta. A testagem em massa, defendem os especialistas, continua sendo uma medida essencial para o planejamento de ações na saúde, principalmente em cenários de maior circulação viral.

Curitiba, assim como o Paraná e o restante do país, voltou a ter crescimento na curva de infecções provocadas pelo coronavírus – agora impulsionada pela nova variante, a Ômicron.

Autoridades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, sigla em inglês) já sugerem risco de maior contágio pela nova cepa em relação à que deu origem à pandemia d Sars-CoV-2, embora estudos ainda venham sendo conduzidos por cientistas ao redor do mundo.   

O Paraná teve um acúmulo significativo de casos desde a última semana de 2021. Entre os dias 20 e 27 de dezembro, foram 2.145 novos registros de Covid-19. Entre 27 de dezembro e 3 de janeiro, 4.584; e nos últimos sete dias, de 3 a 10 de janeiro, 33.247 – aumento de 1.449% de novos positivos na comparação entre a primeira e a última semana analisadas. Os dados foram extraídos dos informes epidemiológicos divulgados diariamente pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

Coincidentemente, a porcentagem é a mesma da média móvel mais recente de Curitiba. Nesta segunda-feira, a capital paranaense somou 1.098 novos casos, chegando a uma média de 857 casos nos últimos sete dias – 1.449% em relação há 14 dias. Nesse mesmo dia, eram 5.673 pacientes com infecção ativa na cidade, número 524% maior do que duas semanas atrás.

O alastramento de mais uma variante da Covid-19 ocorre em paralelo a um surto de gripe fora de época, também impulsionado por uma nova variante do vírus da influenza, o H3N2. Dados da Sesa divulgados na quinta-feira passada (6) contabilizavam 375 confirmações e quatro mortes pela doença em todo o Paraná.

O cenário levou a pasta a emitir um alerta sobre a circulação do vírus no estado. Enquanto isso, os dados compilados tanto de novos casos de gripe quanto de Covid-19 corroboram a preocupação de especialistas e sintetizam a corrida das pessoas a farmácias, hospitais e unidades de atendimento em busca de testes.

No último sábado (8), o Hospital São Vicente, em Curitiba, restabeleceu o drive-thru para a realização de exames de diagnóstico da Covid-19 e acrescentou à disponibilidade testes de outros vírus de doenças respiratórias, como o Influenza. A oferta, das 10h às 16h, de segunda-feira a sábado, foi retomada por causa da demanda em alta.

Nas farmácias do Paraná, ocorre o mesmo. Segundo o Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Estado do Paraná (Sindifarma Paraná), os estabelecimentos viram crescer a busca pelos exames rápidos, mas não há nada que indique, até o momento, um vazio nos estoques dos testes.

“Existe um estoque relativamente bom, e a informação junto aos distribuidores é que eles estão bem abastecidos”, afirma Edenir Zandoná Junior, presidente da entidade. “Realmente está havendo uma contaminação maior, a gente vê que muitas pessoas estão positivando e isso é preocupante. Mas normalmente o que se tem é que essas pessoas que estiveram juntas de quem testou positivo também logo quer fazer o teste para ficar mais tranquila”.

Sem teste, saúde fica no escuro

Desde o início da pandemia, a política da testagem em massa é uma das mais defendidas por especialistas da área da saúde depois da vacinação.

Em setembro do ano passado, o Ministério da Saúde anunciou um plano de expansão para testar os brasileiros. O comunicado foi feito após o país ter superado os momentos mais drásticos da pandemia, até então, e veio como resposta à cobrança do Tribunal de Contas da União (TCU), que determinou ao governo Federal a elaboração e implementação da política de testagem, estabelecendo, por exemplo, uma frequência para os testes  e formas de divulgação dos resultados para a população.

Como parte do programa, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou no último fim de semana a distribuição de 28,2 milhões de testes rápidos de antígeno para detecção da doença para o mês de janeiro. Do total, 13 milhões serão enviados diretamente a estados e municípios para reforço dos estoques locais.

Segundo a prefeitura de Curitiba, o município tem em estoque hoje 97 mil unidades de testes rápido de antígeno para Covid-19, volume formado por compras próprias e de cargas recebidas semanalmente do estado. A SMS também não respondeu à reportagem quantos testes específicos para gripe há disponíveis na rede municipal de saúde nem qual a média aplicada à população nas últimas semanas.

O governo do Paraná também não retornou aos questionamentos feitos, entre eles, se a quantidade é suficiente diante da demanda em curva crescente.

“A testagem é essencial para a gente saber quais os vírus estão circulando, ter dados sobre as doenças, saber se é influenza, Covid ou algum vírus novo. Então, epidemiologicamente, a testagem é essencial, inclusive para o planejamento da saúde pública”, observa a infectologista Vanessa Levien Strelow, do Hospital São Vicente. “E também ajuda o médico que está acompanhando o paciente a orientar melhor, entender os riscos, quais os sinais de alarme que devem fazer ela voltar ao hospital, se for o caso, para saber tempo de isolamento, e para proteger essa pessoa e as pessoas ao redor dela. Se a gente não testa, a gente fica no escuro e deixa de agir da maneira mais adequada”.

Nesta semana, o Ministério da Saúde voltou a colocar em pauta um possível pedido de liberação dos autotestes de gripe e Covid à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Pelas regras atuais, a detecção de doenças infectocontagiosas não pode ser feita hoje em casa, o que poderia mudar, segundo a agência, caso haja uma política de saúde pública e estratégia de ação estabelecida pelo Ministério.

Para a infectologista do Hospital São Vicente, as próximas semanas ainda deverão ser de mais crescimento nos registros de casos positivos, embora não existam fatores tão preocupantes quanto os das ondas anteriores.

“Eu acho que não teremos mais momentos tão difíceis como no ano passado. Porque naquela época, a gente chegou a ter muitos casos graves, não tinha leito suficiente, nem enfermaria e nem UTI para as pessoas, e a maior parte não estava vacinada. Hoje a gente vê, pelo menos até o momento, que não se tem aumento expressivo de casos graves. É um balde de água fria, mas enquanto houver circulação viral em algum lugar do mundo, não precisa nem ser no Brasil, podem surgir variantes”, observa a médica.

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