Cientistas respondem dúvidas sobre aulas presenciais | Jornal Plural
5 abr 2021 - 22h57

Cientistas respondem dúvidas sobre aulas presenciais

Perguntas a respeito dos riscos da Covid-19 vieram de todo país para UFPR

Com a retomada das aulas presenciais nas escolas particulares, autorizadas pelo governo estadual a partir desta segunda-feira (5), o Plural destaca as orientações de cientistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre principais cuidados necessários entre professores, estudantes e pais. Os pesquisadores dos setores de Educação e Ciências Biológicas expõem os impactos da pandemia nos processos pedagógicos e esclarecem dúvidas sobre a Covid-19 e a pandemia.

As perguntas vieram de todo país e integram o Pergunte aos Cientistas, da Agência Escola de Comunicação Pública UFPR. As respostas envolvem práticas pedagógicas, meios de conversar com alunos e famílias, além da prevenção. Acompanhe:

Cuidados em sala de aula

“É correto só usar o protetor facial ou o certo seria usá-lo junto com a máscara?” 

O procedimento correto é o uso da máscara e do protetor facial (face shield). Como ele não fica completamente aderido ao rosto, é importante que a máscara também seja usada, pois ao proteger nariz e boca, diminui bastante o número de partículas que são expelidas no momento da fala e da respiração.

“É muito difícil controlar o uso de máscaras por adolescentes. Em diversos momentos abaixam a máscara e cada uma delas é de um material e modelo diferente. Não raras vezes, são grandes, ficam soltas, frouxas. Qual é o prejuízo?” 

A máscara pode ser cirúrgica ou de tecido, sendo que, neste caso, deve-se evitar tecidos muito finos ou que tenham tramas mais abertas, como aquelas máscaras de crochê. A máscara deve ficar bem ajustada ao rosto, cobrindo nariz e boca. Também deve-se evitar manusear a máscara, pois ao tocá-la podemos contaminar as mãos e acabar entrando em contato com o vírus. Além disso, a máscara deve ser usada em todos os momentos e deve ser trocada a cada três horas ou antes deste período, se estiver úmida.

“Preciso higienizar os materiais que levei para a escola?” 

 Sim, você deve higienizar os materiais que leva para a escola e também os materiais que você leva para casa após a aula. Dependendo do material, você pode lavá-lo com água e sabão ou higienizá-lo com álcool 70%.

“No retorno às aulas presenciais, como assegurar o distanciamento físico com crianças pequenas, inclusive bebês?” 

É necessário, antes de tudo, adaptar a escola para essa nova realidade. As carteiras devem ser posicionadas a uma distância segura umas das outras, as janelas devem ficar abertas, mantendo o ambiente arejado e este ambiente deve ser higienizado antes e depois da aula. O número de alunos por turma deve ser reduzido e, se possível, deve-se utilizar outros espaços abertos da escola. Demarcar os locais no chão ajuda a manter o distanciamento. Jogos, histórias, vídeos e brincadeiras podem ser aliados para conscientização. Dê preferência para brincadeiras que possam ser feitas respeitando o distanciamento. O Grupo Escoteiros do Brasil desenvolveu uma cartilha com algumas atividades educativas que respeitam o distanciamento, que você pode acessar aqui.

“O que deve ser feito se uma criança tossir?” 

Segundo o MEC “ao identificar um estudante com sintomas de síndrome gripal em sala de aula, a escola deve acionar os pais ou responsáveis, orientando que esse estudante seja imediatamente encaminhado à Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. Nesse caso, o estudante deverá aguardar em local seguro e isolado, até que pais ou responsáveis possam buscá-lo”. Lembre-se de que o período de incubação nas crianças é igual ao dos adultos, assim o tempo entre a exposição ao vírus SARS-CoV-2 e o início dos sintomas da Covid-19 é geralmente de cinco a seis dias, mas pode variar de um a 14 dias.

“É possível garantir a segurança das crianças pequenas dentro da escola/CMEI?” 

Há uma série de regras como interditar parquinhos, casinhas de bonecas e estruturas de uso coletivo no espaço externo, bem como não disponibilizar brinquedos que não possam ser lavados. Fundamental é manter o distanciamento de pelo menos um metro, tanto dentro das salas de aula quanto fora. Em todos os ambientes o uso da máscara também é necessário, embora se saiba que o cumprimento desta exigência por crianças menores de dois anos pode ser prejudicado. Outras práticas, como readequação de espaços da escola e turnos alternados de crianças na turma, poderão ser ajustadas conforme a realidade de cada escola.

“Existirá algum ‘manual’ com orientações detalhadas da área da saúde que contemple todo procedimento que devemos adotar nas salas e na nossa rotina diária?” 

Há alguns guias, como o da Secretaria de Educação de Curitiba, intitulado “Protocolo de retorno das atividades presenciais”, abordando aspectos como cuidados e limpeza com áreas comuns e salas de aulas, cuidados no transporte escolar e orientações aos pedagogos, gestores e professores.

A Sociedade Brasileira de Pediatria elaborou o guia “Retorno Seguro nas Escolas”, contemplando informações como o planejamento de espaços seguros, cuidados de higiene pessoal e o cuidado com pessoas sintomáticas.

O MEC também preparou o “Guia de Implementação de Protocolos de Retorno das Atividades Presenciais nas Escolas de Educação Básica”, que aborda, além de aspectos gerais, capítulo de atenção aos alunos com necessidades especiais.

“Os professores serão submetidos ao teste da Covid-19? Com que frequência?” 

No retorno às aulas presenciais, seria importante a periodicidade de abordagens diagnósticas, inclusive porque na reabertura de escolas em vários estados brasileiros, em 2021, houve relatos de casos de Covid-19 em alunos e professores da mesma escola. Em caso de haver algum infectado em uma turma, seria indicado isolar todos, inclusive o professor, para evitar possível propagação do vírus, bem como identificar e rastrear os contatos desses casos positivos, pois o que acontece na escola terá ramificações para todos dentro e fora dela. Porém, infelizmente não há previsão de testes diagnósticos periódicos nas escolas de Curitiba ou do Estado do Paraná.

Nem mesmo os testes rápidos estão sendo aplicados nas escolas. Foto: Gilson Abreu/AEN

Processos pedagógicos e comportamento

O ensino presencial tem vantagem sobre o remoto? Essas vantagens são suficientes para justificar o retorno às aulas presenciais em um momento em que a pandemia está fora de controle?

Diante do quadro de agravamento da pandemia, professores e estudantes estão voltando às atividades presenciais sob extrema tensão, com medo de adoecerem no exercício do seu ofício na escola, interferindo nas condições do trabalho. Além disso, a observância dos protocolos sanitários prejudica o planejamento das atividades na escola, já que a realização de atividades em grupo e o próprio contato físico encontram-se proibidos. Quanto mais novo o estudante, maior o prejuízo, porque a aprendizagem passa não apenas pelo intelectual, mas também pelo sensorial. Crianças, em geral, aprendem melhor quando tocam, cheiram, veem e vivenciam o que estão aprendendo.

O que fazer?

O debate deveria ser aquele que apontasse para ações que visassem conter a pandemia, para colocar sob controle as taxas de transmissão da doença, como a vacinação em massa da população, permitindo a reabertura integral de todas as escolas com segurança sanitária. Além disso, deveríamos estar discutindo a construção de um protocolo de retomada das atividades que levasse em consideração aspectos bio-psico-sociais da aprendizagem, no sentido de promover a acolhida de crianças e adolescentes e a valorização do trabalho de professores, garantindo a efetiva condição para a realização do trabalho escolar, o que inclui a formação continuada desses profissionais e um planejamento que vise a redução de danos.

“Quanto a questões psicológicas, como proceder com as crianças? Falar sobre a pandemia ou ignorá-la? E se as crianças perguntarem sobre a pandemia?” 

Primeiro é preciso reconhecer a escola como um espaço de acolhida, de cuidado. A primeira atitude é a de receber bem todas e todos na escola. Para as crianças muito pequenas, isso já é muitas vezes o suficiente. Para crianças maiores, pode-se fazer um trabalho de resgate das memórias sobre o tempo de confinamento. Pedir para que desenhem algo que tenha sido bom nos meses fora da escola e algo que tenha sido ruim pode ser um exercício interessante para entender como foi a experiência delas, permitindo inclusive identificar possíveis casos de violência doméstica.

Não é possível ignorar a pandemia, mas é aconselhável deixar que as crianças ditem o ritmo de como o assunto deve ser abordado. Pode ser que algumas não queiram falar sobre o tema num primeiro momento, e isso precisa ser respeitado. O mesmo deve se considerar quando a criança fizer alguma pergunta. Responder com honestidade as perguntas feitas é um exercício importante, mesmo quando não se tem uma resposta. No caso de crianças maiores e adolescentes, uma pergunta sem resposta pode ser um bom ponto de partida para a realização de uma pesquisa a respeito.

“Como lidar com o impacto emocional dos professores e crianças?” 

O espaço de convivência real, no interior da escola, é fundamental no mundo moderno. E a suspensão repentina deste espaço, causado pela pandemia, é potencialmente prejudicial à saúde emocional de nossos professores e crianças. Contudo, reconhecer isso não implica em defender o retorno a atividades presenciais sem a devida segurança sanitária. O direito à educação e o direito à socialização emocionalmente saudável não podem ser interpretados à revelia do direito à saúde. Assim, neste momento, o isolamento social é necessário, mesmo com potenciais impactos emocionais. Contudo, lidar com essa questão exige o desenvolvimento – ou a aceleração – de novas práticas de socialização, em que, as tecnologias de informação (internet, plataformas online, redes sociais) não farão milagres, mas terão maior centralidade. Estar em isolamento social não pode significar estar sozinho.

“O que falar para as famílias neste momento tão difícil?” 

É preciso explicar que este não é um tempo perdido, mas necessário para todos estarmos seguros. O tempo para aprender e para viver juntos nas escolas, nos centros de educação infantil e nas universidades deverá respeitar o fato de que existe uma pandemia. Não podemos agir na volta como se fosse apenas continuar de onde paramos, esta geração merece que a volta ao modo presencial seja um tempo de reencontro e de garantia de acolhimento. Esta garantia exige políticas públicas que garantam condições de trabalho aos profissionais e condições de tempo para os/a estudantes. Mas esta garantia exige também diálogo sobre o sentido da educação e a compreensão de que há dimensões da aprendizagem que só acontecem na escola, mas não precisam acontecer sempre da mesma maneira. As crianças não estão paralisadas, estão vivendo outras aprendizagens que se encontrarão com o seu direito a aprender a cultura, a ciência e a arte de forma segura em escolas seguras.

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