“Caminhando para extermínio dos profissionais da saúde”, diz Sindicato dos Médicos | Jornal Plural
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26 mar 2020 - 21h09

“Caminhando para extermínio dos profissionais da saúde”, diz Sindicato dos Médicos

Em entrevista, a secretária geral do Simepar relata denúncias recebidas pelo órgão: contaminação de funcionários, falta de EPIs e mais

Em meio à crise do coronavírus no estado, o Sindicato dos Médicos no Estado do Paraná (Simepar) denuncia a desproteção que os profissionais da saúde vêm enfrentando diariamente no exercício de suas funções. “Funcionários estão sendo dispensados sem testagem após terem contato com doentes e apresentarem sintomas respiratórios”, afirma Claudia Paola Carrasco Aguilar, secretária geral do Simepar.

O órgão diz ter recebido diversas denúncias de escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs) e falta de organização no isolamento de pacientes suspeitos. “Tivemos a informação de que o CRM andou vistoriando algumas unidades de saúde, mas os profissionais não puderam falar o que estava faltando, porque a chefia estava junto e eles se sentiram intimidados”, revela.

No início da semana, o Simepar se reuniu com a Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba (SMS), que garantiu que os testes e EPIs estavam a caminho. “Nada disso tem acontecido. O que a gente vê é que não tem teste, nem para os profissionais da saúde, nem para a população em geral”. De acordo com Claudia, o reflexo está nos dados: “Temos certeza de que o número de pessoas contaminadas aqui no Paraná está totalmente subestimado”.

Para se proteger e continuar atendendo, a saída de vários médicos e enfermeiros tem sido tirar dinheiro do próprio bolso. “Muitos estão comprando seus EPIs e mandando fazer pijamas cirúrgicos. Após um dia inteiro na unidade de saúde, andar por aí com a mesma roupa significa disseminar o vírus”, alerta a profissional, adicionando que já solicitou pijamas à SMS e recebeu como resposta: “Eles disseram que vão pensar”.

O Simepar registrou uma denúncia no Ministério Público e lista o que está exigindo das autoridades: “Exigimos testes – e que os profissionais com sintomas respiratórios sejam afastados e testados imediatamente. Exigimos que os pacientes sintomáticos sejam isolados dos demais para evitar a contaminação. Exigimos EPIs adequados e na quantidade necessária – e com treinamento, porque muitos profissionais se contaminaram colocando ou tirando os equipamentos”. 

Análise

A secretária geral do Simepar faz duras críticas à gestão pública federal: “Essa postura do presidente de dizer que é só uma gripezinha e que temos que isolar apenas quem está no grupo de risco até poderia dar certo num lugar onde houvesse testagem em massa e que a gente soubesse quem está contaminado para poder afastar das outras pessoas. Sem testes e sem EPIs, estamos caminhando para o extermínio dos profissionais da saúde e da população em geral”.

Claudia finaliza analisando o cenário internacional: “Já vimos em vários países que o índice de contaminação e mortalidade de profissionais da saúde é elevado – e infelizmente isso está se repetindo aqui. A gente não aprendeu”, diz e reforça: “Mandar profissionais para o atendimento sem EPIs, na urgência e na emergência, é mandá-los para a morte. Temos visto pouco caso”. 

Denúncias

O Simepar compartilhou com a reportagem do Plural duas das denúncias que recebeu – sem identificar os autores. Leia na íntegra:

“Muitos colegas estão adoecendo, no distrito do Boa Vista tem 3 postos de saúde fechados pois os funcionários estão de atestado. Eu trabalhei à noite, no setor não tem álcool gel, pacientes querendo para passar nas mãos, e não tem no setor. Isso é absurdo, um lugar onde tem pacientes internados. Está no almoxarifado, não podemos entregar porque chefias dizem que não é para entregar pra ninguém”.

“CRM está agora fazendo vistoria na UPA. Que pena que a chefia está junto. Queria dizer que não tínhamos papel para secar a mão ontem e que tem colegas trabalhando que tiveram contato com um caso positivo assintomático e estavam sem proteção e que a coordenação não liberou. Estão aguardando o resultado do teste há 9 dias e continuam na linha de frente. Infelizmente não pude dizer isso a eles. (…) Um absurdo! Quando chegar o exame, o período de quarenta já passou”.

O que as secretarias dizem?

A Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba diz que os profissionais da saúde do município estão bem assistidos: “Não existe falta de EPIs para profissionais da saúde aqui na cidade de Curitiba. Inclusive, hoje começamos a distribuição de um lote de 15 mil máscaras escuro. Desde janeiro a secretaria vem reforçando o estoque, já prevendo a chegada do novo coronavírus”. 

Também não há falta de testes, segundo a SMS: “Os testes seguem o protocolo do Ministério da Saúde. Só são testados os internados”.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde (SESA) garante que há EPIs para todas as equipes das unidades próprias do estado: “Os estoques dos equipamentos estão garantidos e os fornecedores já foram contatados para novas aquisições”. 

Sobre os testes, o texto assinala uma dificuldade:  “O Ministério da Saúde informou que há possibilidade de viabilização de uma compra em grande escala e que a quantidade seria dividida aos estados. O governo estadual busca também de forma individual a aquisição deste insumo, porém, não encontrou fornecedor até o momento”.

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