Ayahuasca: a experiência | Jornal Plural
26 jan 2021 - 11h22

Ayahuasca: a experiência

Cheguei ao que considerei como meu subconsciente. Fui recebido por mim mesmo. Como quem marca um encontro no café da esquina, tínhamos tempo para conversar sobre o que fosse…

Esta publicação faz parte do Festival de Jornalismo Literário, organizado em parceria pelo Plural e faculdades de jornalismo de Curitiba e Ponta Grossa

Estava completamente absorto. Abri os olhos, turvos pelo impacto do momento, e percebi meu corpo abandonado. Senti  como que um veneno oprimindo as veias, um fogo abrasador  que não me deixava dúvidas. Depois de muita espera, tinha começado. Fechei os olhos e deslizei. 

Ouvia os cantos, rezas que invocavam os espíritos da floresta, e me entreguei. Primeiro, vi a cobra. “Venha”, disse, enquanto me acompanhava para o outro lado. “Fique tranquilo”.  Lembro que tentei respirar mais fundo, talvez um mecanismo  automático para controlar a ansiedade.  

Tinha a certeza de que aquilo que me acontecia não era um  pensamento. Também estava longe de ser simples imaginação.  Eu não arquitetava, não criava. Apenas era confrontado por  uma verdade sagrada e inviolável cujo acesso só era permitido  na outra dimensão. Imagens despencavam como se existissem  por conta própria. Eu era insignificante. Um observador dentro de mim mesmo. 

Agradeci pela oportunidade de estar ali. O caminho começou quando inculquei na cabeça que faria um trabalho sobre  a ayahuasca, misteriosa bebida indígena que me despertava interesse há tempos. A decisão foi pouco mais de um ano  antes, em 2018, com a necessidade de escolher um tema para o Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo. Depois de  meses de enrolação e leitura sobre o assunto, me preparava  para tomar a substância pela primeira vez na vida. Seria na terceira semana de maio, a mais fria do ano.  

Conheci o evento por meio do Eduardo, um talentoso baterista que fazia tratamento com ayahuasca na tentativa de  se livrar do vício em álcool e cocaína. Contou que um pajé do  povo Huni Kuin (kaxinawá), nativo da Amazônia acreana, esta va em Curitiba para conduzir um ritual xamânico baseado na  consagração de três medicinas: ayahuasca — que eles chamam  de nixi pae —, rapé e sananga. Cobrava-se um valor de R$ 150. Como custearia a estadia do pajé e de três indígenas que  vinham com ele, achei justo. Eu teria contato com a fonte da  ancestralidade brasileira sem cruzar o país inteiro. Uma oportunidade irrecusável. 

Procurei seguir as orientações básicas propostas pelo pessoal da Samaúma Saberes Ancestrais e do Projeto Kumã Isku,  grupos que faziam toda a organização. Diminuí a quase zero  o consumo de carne, açúcar e alimentos gordurosos nos três  dias anteriores à cerimônia, que seria realizada na noite de sábado. Não ingeri álcool e nem utilizei outras substâncias psicoativas. Passei o sábado todo bebendo água. Estava tranquilo.  

Coloquei blusa e calça de moletom, as roupas mais confortáveis que encontrei, e fui atrás de cobertor, almofada e colchonete. Saí por volta das 21 horas. Minha mãe, evidentemente  mais nervosa que eu, tinha oferecido carona até onde aconteceria o ritual — uma chácara localizada no município de Piraquara, a 22 km da Capital. Éramos quatro: eu, ela, o Eduardo e o Vitor, amigo próximo e estudante de Publicidade e Propaganda  que também nunca tinha participado do ritual. 

Imaginei um ambiente completamente rural, intocado pelas luzes da civilização, mas a chácara não era muito afastada  da cidade. Não vi o coração verde desenhado na entrada, de talhe ressaltado nas instruções de como chegar, mas não tive  dúvidas de que era ali. Quando chegamos, às 22 horas e alguns  minutos, o pátio frontal que servia de estacionamento já estava meio cheio. Tentando disfarçar a apreensão, minha mãe se  despediu de cada um com um beijo e um desejo de boa experiência. Ela tinha me apoiado desde o início porque sabia que era  parte fundamental do trabalho acadêmico, mas presumo que  não teria recebido a novidade de bom grado se meus motivos  fossem outros. 

A casa, toda pintada de azul, era típica de chácara. Grande,  espaçosa e um tanto rústica, com algumas lamparinas e um  jardim diverso. Fomos à porta com cuidado. Duas pessoas, que  conversavam à luz da lareira, nos apontaram o terreno dos  fundos.  

Depois de um pequeno caminho trilhado, avistamos a in confundível estrutura de alvenaria. Era circular, imponente.  Para proteger os participantes do frio, ainda mais naquela que  seria a noite mais gelada de 2019, foram colocadas várias cor tinas azuis entre as colunas laterais que sustentavam a enorme  abóbada de madeira. Entramos. 

Ainda faltava muito tempo para o início, previsto para as 23  horas, mas a extremidade do círculo já estava quase toda ocupada. O melhor lugar, já que era o único em que era possível encostar as costas para ter o mínimo de conforto. A maioria  das pessoas estava acomodada. Alguns deitados e cobertos, a  verdadeira expressão do sentir-se em casa, outros encostados  na borda da estrutura. Na hora, me senti despreparado. Meu  colchonete não era grande o suficiente para que pudesse ficar  deitado sem contato com o chão. Tinha pensado que poderia  precisar de um maior, mas não achei outro para comprar de  última hora e tive de me contentar. “Eu sabia”, lamentei.  

Achei um lugarzinho, provavelmente o último com encosto, do lado direito do irmão do pajé. Os quatro indígenas  ocupavam um espaço de destaque, na reta de quem entra no  círculo. Sentavam nas únicas quatro cadeiras disponíveis e suportavam o clima sulista enrolados em mantas coloridas, delicadamente esculpidas com toda sorte de desenhos geométricos — a arte do kene, que eles acreditam ter sido ensinado às  mulheres pelo espírito da ayahuasca. O pajé Tadeu Siã Txana  Hui Bei levava na cabeça um cocar matizado de vermelhos, la ranjas e amarelos. No peito, carregava a imagem de um tigre. 

Havia uma meia-lua marcada em relevo no chão, ao centro  do espaço. Na cultura de alguns povos indígenas, é utilizada  para representar a influência do fogo nos diferentes estágios  da vida: origem e fim. Uma fogueira, que perduraria pelo restante da noite, foi acesa na frente do símbolo. Já de madrugada,  percebi que um dos guardiões do fogo desenhava uma ave com  as cinzas que se acumulavam debaixo da lenha. Provavelmente uma fênix. O último respiro do Eu, que deixaria de existir  para depois surgir novamente, revestido de novos conceitos e  intenções. 

“Se sentir que vai morrer”, disse um dos organizadores,  Carlos Caruso, que explicava o funcionamento do ritual, “deixa  morrer!”. De fato, o contexto e o ambiente davam à cerimônia  uma conotação de rito de passagem. Passei a acreditar fielmente que jamais sairia dali como entrei. Estava preparado.  As três medicinas foram apresentadas, uma a uma, acompanhadas de curtas instruções de como utilizá-las. A ayahuasca  era a mais conhecida. A bebida resultante da mistura do cipó  com as folhas.

Depois o rapé, um pó muito fino que nada mais  é que tabaco moído e cinzas de madeira ou casca de árvore —  aplicado também pelo pajé, que o assopra nas narinas de outra  pessoa com um longo canudo em V. E, por último, a sananga,  um colírio composto por água e pelo sumo de um arbusto natural da Amazônia. As duas últimas eram opcionais.  Cada um recebeu um saquinho plástico e um rolo de papel  higiênico. O vômito é um dos efeitos mais comuns da bebida.  Uma limpeza indispensável: jogar para fora tudo de ruim que  existe dentro do corpo e purificar a alma. Não queria ter que  passar por aquilo, mas sabia que podia acontecer. Se fosse o  caso, estava disposto a encarar como parte necessária do processo. 

Uma moça levantou a mão. Pense você que espécie de reação teria se ouvisse a seguinte frase, ou algo muito próximo,  pouco antes de tomar a primeira das duas doses: “Vai ter algum tipo de ajuda para quem passar mal? Porque eu tive convulsão na primeira vez, e o meu companheiro aqui nunca veio  antes.” A resposta foi que sim, que haveria pessoas disponíveis  prontas para ajudar sempre que preciso. 

Não me abalei, ou pensei que não. Sabia que esse tipo de  ocorrência era raro e que geralmente só acontecia com quem  tinha algum problema de saúde que pudesse entrar em conflito com os efeitos da ayahuasca. Repeti para mim que era tudo  psicológico. Quando pediram para que levantássemos, num  ato inicial já com a direção do pajé, me apoiei sobre os joelhos  e percebi que tremia. 

O círculo estava quase todo tomado. Conforme mais pessoas foram chegando, mais as áreas concêntricas foram sendo  ocupadas. Havia espaço apenas ao redor da fogueira e na frente  do pequeno altar montado para auxiliar o pajé, em que se encontravam diversos utensílios para o serviço das medicinas e  as três garrafas de refrigerante cheias, sem rótulo, que com portavam a ayahuasca.  

Mirações e empatia

O trabalho começou. O primeiro a tomar a bebida foi o  Carlos, seguido de algumas pessoas que rapidamente formaram uma fila. Muitos agradeciam o pajé com o haux, palavra  bastante utilizada na língua hunikuin que corresponde a uma  saudação. O nosso “obrigado”. Fui um dos últimos. Avisei o  pajé de que era minha primeira vez e ele encheu o copinho  de vidro só até a metade. Um gole bastou. Tinha cor de terra e  gosto forte, um pouquinho amargo, mas achei absolutamente  suportável. Não era ruim.  

Voltei e tentei me acomodar, o que não era tão fácil porque  o vento passava por uma fresta logo atrás da minha cabeça e eu  já ameaçava uma dor de garganta que só ficaria pior por conta  da fumaça. O nariz não parava de escorrer, justo na noite mais  importante e menos previsível do ano. Procurei me concentrar. 

Depois de servida a primeira dose, talvez por volta da meia  noite, os indígenas puseram-se a cantar – o pajé Tadeu Siã,  seu irmão Inu Bese, a artesã Bunke e a parteira Maspã. Conjuravam os espíritos do outro plano para guiar o caminho e  a jornada de todos. Os dois homens ficavam de pé, dançando  e conduzindo a cerimônia à luz do fogo. As mulheres permaneceram sentadas, acompanhando a música com vozes altas e  claras que saíam sem esforço das bocas quase fechadas. Tive  a sensação de estar nos primórdios do mundo, ouvindo vozes  que me concederam o paradoxo de lembrar o que nunca tinha  escutado. O ar esfumaçado tinha tomado conta do ambiente  por completo. 

Passados poucos minutos, ouvi a primeira pessoa vomitando. Fiquei confuso. Não tinha sentido o menor efeito sequer.  Olhei para o Vitor, que a essa altura tinha arrumado um lugar  do meu lado. Estava deitado direto no chão frio. “Alguma coisa?”, perguntei. Ele acenou que não, que estava tudo normal. 

Eu deitava, sentava, abraçava os joelhos. Fechava os olhos  procurando ver algo. Nada. O Vitor, meio sem paciência, foi pedir um pouco de rapé. Começou a passar mal em cinco minutos. Decidi que não usaria, principalmente pelo risco de mandar o pó para a garganta e me complicar ainda mais. Tinham  dito que era bom para gripe, mas na hora fui cético. Também  receava não poder distinguir os efeitos de cada medicina para  relatar com mais lucidez.  

Notei que algumas pessoas já tinham transposto a realidade. Uma mulher não parava de balançar os braços acima da  cabeça, como numa estranha dança ou numa espécie de exorcismo. Mais tarde, começou a chorar. Não me lembro de ter  ouvido um choro tão profundo, tão dolorido. Gastei o tempo  refletindo comigo mesmo e tentando imaginar que sombras  seriam aquelas.  

De repente o pajé parou. Fazia duas horas que estavam  cantando de forma ininterrupta. Anunciava a segunda dose.  Fui um dos primeiros. Com medo do tédio, tomei a dose inteira e retornei. Levou menos de dez minutos. Quando fechei os  olhos, reparei em elementos invasivos que ocupavam o espaço  do negro anterior. Senti um princípio de opressão pelo corpo  todo, como se a bebida pudesse incendiar o sangue.  

Carlos tinha iniciado algumas canções de reza. Os indígenas, enfim, tinham ido descansar. Comecei a ter mirações.  Imagens aparentemente aleatórias que povoam a mente sem  trégua, sem descanso. A jiboia saiu da música e apareceu do  meu lado. Como um guia, me conduziu para o outro lado do  portal. Estava entrando num universo completamente novo.  Na imensurável vastidão da consciência. 

O absurdo que acabo de descrever não era mera invenção. Passei a ser confrontado por um conjunto interminável  de cenas. A sensação era de estar num trem e olhar pela janela.  As coisas já estavam ali, vivas e inegavelmente verdadeiras. O  contrário da imaginação, que requer um esforço criador mínimo. Eu estava à deriva, sem remédio além de aceitar o controle  total daquele agente desconhecido. Queria ver o que ele tinha  para mostrar. 

Completamente entregue, observei meu corpo evaporar  aos poucos. Como se a camada superficial, de sentimentos ruins, estivesse sendo arrancada. Sentir algo assim é intraduzível. Era também uma dor física. Notei o coração descompassado e tentei controlar a respiração enquanto as imagens  seguiam jorrando. Representações primitivas, passíveis de  compreensão em qualquer época da história humana. Luzes,  cores, formas. Não havia intervalo.  

O espaço e o tempo haviam perdido importância. Não era  necessário percebê-los. Não sei exatamente como nem quando, mas a partir de determinado momento passei por um processo profundo de reflexão. As imagens foram em outra direção, talvez porque eu esperasse aquilo desde o início. Com  as defesas baixas, encarei algumas questões que, no fundo, já  estavam pré-trabalhadas. Problemas do cotidiano, pequenas  inquietações. A lição sobre empatia talvez tenha sido a mais  forte. 

Recordei diversas pessoas pelas quais tinha alguma inimizade e repensei as minhas relações pessoais. Entendi que cada  alma viva sobre a terra tem seus obstáculos, seus demônios. Eu  habitava um plano sem discórdias, onde a raiva era impossível.  Havia uma conexão especial com cada ser vivo, com cada fragmento que compõe a nossa existência. A seguir vieram outras  figuras, sempre com determinados ensinamentos. Mais tarde,  quando tentei lembrar para anotar, não apareceram. A quantidade de experiências momentâneas atropelava a minha capacidade de memória. 

Abri os olhos. Além de uma pequena intensificação das  cores, nada estranho. Conseguia me movimentar e raciocinar  com normalidade. Eduardo tinha levantado e estava dançando as músicas de reza com entusiasmo. Pegou um tamborzinho que tinha levado de casa e começou a batucar junto. Tive a  impressão de ver os átomos em ebulição, queimando de baixo  para cima e enchendo o ambiente de energia. Eu ria, olhava para os outros e me sentia absolutamente feliz.  Estar de olhos abertos funcionava como um escape. A única  certeza de que não tinha enlouquecido. Sabia que deslizaria para  o outro lado da porta no exato momento em que os fechasse novamente. E era justamente o acontecia.

Subconsciente

Bastava perder contato  com as dimensões físicas da realidade para ir de encontro ao implacável turbilhão de ideias e sentimentos. Segui a jornada. Cheguei ao que considerei como meu subconsciente. Fui,  inclusive, recebido por mim mesmo. Como quem marca um  encontro no café da esquina, tínhamos tempo para conversar  sobre o que fosse. Ele basicamente explicou o funcionamento  das coisas ali no outro lado. Pela primeira vez na viagem, me  senti livre. Conseguia direcionar meus pensamentos. Depois,  saí dali e retornei ao plano material, onde o meu corpo estava.  Tinha noção de que pertencia a dois mundos distintos, e podia  alternar entre eles quando quisesse.  

“Demorou dessa vez, hein?”, brincou o meu Eu lá de baixo em  uma das vezes que demorei a voltar. Percebi que aquele é o lugar  inevitável para discutir, refletir, desnudar o espírito por completo. Um teatro dos espelhos. Entra um lobo da estepe sem nenhum  autoconhecimento, sai um imortal. Processo necessário na vida  de qualquer pessoa facilitado pela ferramenta da ayahuasca. 

Parei um pouco para pensar naquela loucura sensata. Tinha descoberto em mim uma parte sufocada há 23 anos; uma realidade que jamais pensei que existisse. Olhei ao redor. Dezenas de pessoas passavam pelo mesmo, concentradas na intenção de tirar a máscara e trabalhar aquilo que realmente importa. Sem compromissos, sem pressa, sem obrigações. Cada um numa viagem interior singular e absolutamente transformadora. Partilhávamos um conhecimento extraordinário que  em hipótese alguma poderia se perder.  

Encarei o ritual como um reduto de protetores da tradição  nativa da América, até porque não estávamos só entre brasileiros. Tinha um grupo de mexicanos e um rapaz da Finlândia  que, num português quase ininteligível, haveria de chamar o  Brasil de “coração do mundo”. É uma tragédia que por aqui  ainda não saibam. Fascinado, fechei os olhos novamente em  busca da próxima parada. 

Dessa vez, vi uma abundância de formas geométricas padronizadas e fantasticamente coloridas. A inspiração para a  arte kene do povo Huni Kuin vinha exatamente dali. Huxley,  quando tomou a mescalina do cacto peiote, viu a mesma coisa.  Ele chamou as luzes de antípodas, seres que habitam a parte  inexplorada da mente. Tinha razão. Era como se eu pudesse  acessar lembranças que não são minhas. Como se pudesse  compreender uma linguagem universal e atemporal. 

Brinquei com a mágica durante algum tempo. Quando me  cansava, abria os olhos. Filosofei comigo mesmo sobre a natureza, sobre o universo. Amadureci a ideia de que somos todos parte  da mesma existência. Resultados da transformação da matéria.  Éramos folha, gota d’água, grão de terra. Pensamentos assim me  ocuparam pela madrugada. Encarei a ayahuasca como uma chave para o infinito — de mim mesmo e de um inconsciente coletivo  repleto de imagens arquetípicas. Um plano compartilhado. Podia  ir a qualquer lugar com enorme sensação de realidade. Talvez o  mais próximo possível do Aleph de Borges: um único ponto que  concentra todos os outros. Sobrecarregado de tanta informação,  resolvi acompanhar a cerimônia. Sequer tinha vomitado. 

Carlos continuava guiando o ritual com as rezas de violão,  depois apenas com canto. Algumas pessoas dançavam, outras  seguiam deitadas em êxtase. Vez ou outra aparecia alguém  pedindo ao pajé um sopro de rapé. Em certo momento vi os  quatro indígenas sentados, as cabeças levemente inclinadas,  imersos dentro de si mesmos. Dei um sorriso, talvez o mais  sincero que já esbocei. Os minutos foram passando e percebi  que ia perdendo contato com o outro plano. As imagens já não  vinham com tanta pertinência. Até que fechei os olhos e vi apenas a escuridão inconfundível da noite. 

Chamei o Vitor e fomos tomar um ar lá fora. Tinha passado  horas inalando fumaça sem a menor preocupação. Cinco horas  da manhã e eu, já sóbrio, queria compartilhar a experiência.  Mal acreditei quando contou que não tinha sentido nada. “Acho  que você devia ter tomado mais”, falei, alegando que algumas  pessoas são mais resistentes à bebida. Em outras, mesmo com  pouco, o efeito é ainda mais forte. No meu caso, penso que foi  na medida certa. De bom tamanho para a primeira vez.  

Seguimos lá fora até as primeiras luzes da manhã. Resolvemos experimentar a medicina da sananga. Dizia-se que limpava os olhos e aumentava a capacidade de concentração. O único problema era que ardia. Muito. Vi gente sofrendo ajoelhada, mas ainda assim não quis deixar a experiência passar. Sabe-se  lá quando ia aparecer oportunidade daquelas.  

Chamei o pajé para fazer a aplicação. Quando deixei a gota  escorrer pelo canto dos cílios, me arrependi. Fui incapaz de  continuar sentado e levei as mãos à cabeça. Por dez minutos  lutei de olhos fechados. Lágrimas irrompiam aos borbotões  enquanto tentava abrir uma pequena fresta. Não sabia que o  corpo era capaz de produzir tantas. Jurei que jamais voltaria a  colocar aquilo nos olhos, mas talvez estivesse dominado pelo  impulso do momento. Pensando agora, acho que deveria arriscar e pingar de novo dia desses. 

Aproveitei para ir ao banheiro enxugar o rosto e dar uma  volta pela chácara. Refleti brevemente sobre o que tinha acabado de acontecer, tentando entender o sentido daquilo por  um lado mais racional, e fui me aproximando de novo do círculo. Vitor esperava do lado de fora, sóbrio. Eduardo, que tinha  tomado três doses da bebida, estava lá dentro dormindo. Muita gente já tinha despertado. Nenhum sinal de sujeira.  

À medida que o ritual se encaminhava para o final, voltei ao  meu lugar e esperei. A combinação do azul claro do crepúsculo  com o laranja das brasas parecia divina. Fazia muito frio. Recebemos um caloroso bom dia do pajé e levantamos para uma  breve despedida. Numa linda demonstração de humildade, ele  e o irmão agradeceram. Sentiam-se imensamente felizes pela  presença de todos. Mesmo numa época tão nebulosa, estavam  ali, de pé, doando um tempo precioso para iluminar o mundo  com aquela cultura fantástica. A três mil quilômetros de casa.  Nós é que temos o dever de agradecer pela coragem. Haux haux

Enquanto íamos embora, logo depois das oito da manhã,  tentei estabelecer um roteiro de como escreveria este relato.  Precisava descrever a experiência da maneira mais objetiva  possível, mas tinha, e continuo tendo, perfeita noção da impossibilidade da tarefa. Palavra nenhuma fará justiça, tamanha  é a subjetividade. A ayahuasca é o início de um longo caminho  de autoconhecimento, do olhar para dentro. O que cada um vê  ou sente é invariavelmente diferente, assim como os motivos e  intenções que levam à procura da medicina — mas a mudança,  às vezes radical, é certa. Portanto, espero que meu livro possa  acender uma faísca de curiosidade. Que suas páginas  sirvam, ao menos, como uma porta.

*Introdução ao livro-reportagem ‘Os caminhos do cipó: perspectivas sobre o consumo contemporâneo de ayahuasca’ publicado aqui no Plural.

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