Acusado de agressão, 'Magrão' pede 200 mil de indenização a vítima e defensores | Plural
31 jul 2020 - 11h33

Acusado de agressão, ‘Magrão’ pede 200 mil de indenização a vítima e defensores

Proprietário d’O Torto acusa cinco pessoas de calúnia e injúria

Os desdobramentos da agressão n’O Torto Bar parecem longe de acabar. Em fevereiro, o proprietário Arlindo Ventura, conhecido como Magrão, foi acusado de dar um soco no rosto de uma cliente negra. O caso deu origem a uma ação criminal que segue em andamento. A novidade é que, enquanto isso, o empresário resolveu processar cinco pessoas: a própria vítima, duas testemunhas oculares do fato, uma manifestante e Saul Dorval, que é presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Consepir). Ele alega calúnia e injúria e pede indenização de R$ 41.560 de cada, totalizando R$ 207.800.

“As medidas judiciais adotadas foram as cabíveis ao caso em deslinde, diante das condutas excessivas e ilícitas praticadas por determinadas pessoas. Importante esclarecer que se trata de regular direito de ação, sem qualquer natureza de represália, eis que o processo judicial é o instrumento próprio para apuração da responsabilidade civil e criminal”, diz a advogada de Arlindo, Luciana Vaz. “Por fim, necessário destacar os prejuízos materiais e à imagem do Bar O Torto, assim como do seu proprietário, em face aos xingamentos, pichações, ameaças, ofensas, depósito de lixo, campanha negativa e calúnias suportadas, de modo presencial e virtual.”

“A vítima não é ele, é a sociedade, somos nós”

Saul Dorval esteve em uma manifestação contra o estabelecimento, em fevereiro, e também falou do assunto nas redes sociais. “Eu fui pra lá como presidente do Consepir, que recebeu a denúncia de uma mulher negra que foi, em tese, agredida. E com testemunhas: não uma, mas cinco”, relembra.

Segundo Dorval, o Conselho aprovou a participação dele no ato. “O Consepir é deliberativo, consultivo e, mais do que isso, fiscalizador. Temos convênios com o Ministério Público (Federal e Estadual) e com as Polícias (Civil e Federal). (…) Não pertenço a nenhum movimento contra O Torto, pertenço ao movimento negro.”

“O que o cara está tentando fazer é reverter uma situação. Da minha parte, nós vamos provar o contrário. Temos um manifesto enviado ao Ministério Público pedindo todos os encaminhamentos de denúncia contra ele”, afirma. “A vítima não é ele, é a sociedade, somos nós. Toda manifestação sem violência atende ao artigo 5º da Constituição, que trata da liberdade de expressão.”

A mulher que foi agredida, as testemunhas e a manifestante preferiram não falar sobre o caso.

Os novos processos

O Plural teve acesso às cinco queixas-crime, que têm textos muito similares. Os advogados de Arlindo afirmam que O Torto está aberto há 17 anos, é frequentado por “políticos e personalidades públicas” e o proprietário já foi homenageado na Câmara Municipal de Curitiba. Em anexo, há fotos com o prefeito Rafael Greca e o deputado estadual Goura Nataraj. 

Em 2018, Arlindo foi homenageado na Câmara. Foto: Goura Nataraj/Instagram

Eles argumentam que a imagem do proprietário foi “gravemente maculada” desde que a mulher que o acusa de agressão esteve no bar “evidentemente descontrolada” e depois, “contrariada e desequilibrada”, gritou, xingou e jogou “cerveja no rosto do Sr. Arlindo”. 

Na versão da acusação, a noite acabou em “empurrões e discussão entre todos”, inclusive Arlindo, que estaria tentando “conter os ânimos”. A “lesão” ocorreu em meio ao tumulto. Eles negam o soco e pontuam, em caixa alta: “O QUERELANTE NUNCA MANIFESTOU QUALQUER CONDUTA PRECONCEITUOSA.”

As provas apresentadas são, em sua maioria, prints de redes sociais e/ou entrevistas concedidas pelos acusados, onde eles afirmam que Arlindo deu um soco na vítima e/ou apoiam o movimento de boicote ao bar. Por fim, ele pede indenização pelos danos sofridos.

Arlindo anexou uma foto com o prefeito aos processos. Foto: O Torto Bar/Instagram

Versões divergentes

Nos dias seguintes ao ocorrido, Arlindo deu entrevista a vários veículos, inclusive o Plural. A RPC exibiu imagens de uma das câmeras de segurança internas do bar e disse que o vídeo mostra a mulher jogando cerveja “na camisa” do proprietário, mas não há o registro do soco. 

Segundo a emissora, a polícia chegou ao local, constatou que a mulher estava sangrando e mandou os dois para a delegacia. A vítima enviou um áudio à reportagem contando sua versão. Ela falou que tentou usar o banheiro masculino, pois o feminino estava ocupado, e foi repreendida por um funcionário. “Quando eu tentei voltar, porque começou a chover, o dono do bar falou que eu tinha perdido o direito de entrar lá, que eu não podia mais usar o estabelecimento, e eu sabia muito bem o porquê. Isso me deixou bem irritada e por isso comecei a perguntar para ele o motivo. Nesse momento ele me deu um soco no nariz.”

As testemunhas dizem que o soco ocorreu fora do estabelecimento. Em entrevista à RPC, Arlindo afirmou que o bar tem duas câmeras: uma que “aponta de frente para os clientes” e outra “para dentro do balcão”, mas não há câmera externa. Para o Plural, André Feiges, advogado da vítima, falou que Arlindo cedeu apenas as imagens de uma das câmeras à Justiça.

A repórter da RPC perguntou a Arlindo por que a mulher estava sangrando. “No movimento entre a calçada e a entrada do bar, houve um reboliço ali entre três, quatro pessoas que estavam com ela, tá certo? E eu apenas me defendi. Eu fiz isso aqui”, ele respondeu, levantando a mão aberta para a câmera. “Fiz isso aqui como um sinal de pare. Pare porque é autodefesa, né?”.

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Damaris

Ótima matéria!

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