A natureza, o concreto e o imaterial de Luís Henrique Pellanda | Jornal Plural
20 jun 2021 - 11h26

A natureza, o concreto e o imaterial de Luís Henrique Pellanda

“Na barriga do lobo” e suas crônicas como escape da escuridão fechada, ou não, em casa

Às vezes, quando caminhamos pela rua, cruzamos com pessoas que parecem que não estão lá. Elas têm os olhos fixos em um ponto distante, o caminhar decidido rumo a lugar nenhum e não notam o mundo à sua volta. Estão, como costumamos dizer, no mundo da lua. E digo que acontece “às vezes” não por ser algo raro, mas porque nós mesmos costumamos estar entre essas pessoas e não reparamos uns nos outros.

O cronista não é uma dessas pessoas. O cronista é quem, através do seu texto, nos puxa pela mão, nos resgata da estratosfera e convida à realidade, ao menos em um primeiro momento, como uma espécie de alarme. É com um alarme que começa “Na barriga do lobo”, o novo livro de crônicas de Luís Henrique Pellanda.

Começa com um alarme desses, do Centro, que dispara sem motivo e parece programado para incomodar, diluindo a importância da emergência e do perigo. Pellanda começa por esse alarme sem causa certa, e nos leva por uma Curitiba sua, que faremos nossa, com esse som ao fundo, esse barulho que diz que algo está errado, o menino gritando lobo, mas são tantas coisas para se preocupar, por que ligar para mais essa?

Grande adepto do caminhar e da tradição flâneur da crônica, acompanhamos Pellanda não apenas pelas suas caminhadas pela cidade, mas em seu movimento de vida, trocando o apartamento da Ébano Pereira pelo da Amintas de Barros, uma rua descendente por uma ascendente, entrevendo alguma esperança. Assim, temos um Pellanda com um olhar ainda mais atento e sensível, curioso e receptivo com o novo mundo que o cerca.

Em nosso tempo, esse com tantos aplicativos de meditação e formas de se manter no agora, o conhecido mindfulness, as crônicas pela cidade nos trazem até o momento narrado e nos fazem presente. Por suas linhas, notamos cada personagem e suas ações, como se a vida começasse ali, naquele instante, e tudo fosse inédito e curioso.

O livro conta com algumas tradições do autor, como não definir as personagens através de estereótipos, sempre deixando ao leitor a sua construção. Por isso, vemos cidadãos usando cobertas ou blusas desgastadas, mas raramente pessoas em situação de rua. Passamos por cenas de intimidade e alguns objetos que remetem a sexo, mas descritos sem o medo de soar vulgar ou com um pudor forçado. Lemos a realidade descrita com carinho e respeito, sem julgamentos fáceis.

Alguns elementos de coletâneas passadas reaparecem, mas há contrastes entre o cronista, a cidade e a atmosfera de cada uma delas. Temos, sim, o pai de “Asa de Sereia” novamente na Pracinha do Amor, essa transformada com a chegada da ordem através de um posto policial e os motéis recém-pintados ao redor. Vemos a relação com a cidade e sua natureza, mas os urubus encantados dão lugar a outros personagens, como uma família de saguis em fuga, reflexo do próprio narrador e sua família, suas filhas tendo, inclusive, mais presença e participação. E a atmosfera de “Na barriga do lobo” se liga ao título de “Nós passaremos em branco”, essa sensação de despropósito quase libertador ao nos assumir como macacos ornamentais, mas com algo a mais: a escuridão que cobre o país e o alarme insistente ao fundo.

Dentre os elementos típicos de uma crônica luís-henrique-pellandiana, me dou o direito de sinalizar um dos meus preferidos, tão simples e caloroso, o “vocês sabem”. Como parte da tradição da crônica, Luís constantemente se dirige ao seu leitor, mas não como uma pessoa só, e sim como a um grupo. Quebra, assim, a solidão da leitura, e invoca a sensação de uma conversa, trazendo um vislumbre ancestral em sua narrativa escrita, como se estivéssemos reunidos em torno de uma fogueira, à noite, contando histórias sobre nossas caçadas e plantações.

Mas “Na barriga do lobo” vai além de repetir, atualizar e contrastar as antologias anteriores, o livro experimenta e propõem um jogo mais livre com o seu leitor. Em Os antigos, uma crônica fragmentada com ares de conto, temos a tradição da experiência humana lado a lado com a atualidade, com rápidas reflexões sobre assuntos como o céu, o fogo e a morte. Em Uma palmeira simples, o narrador troca de lugar com uma palmeira do Centro, de aparência fraca e quebradiça, com um vespeiro na ponta de um de seus galhos. O barulho das vespas é mais um alarme que ignoramos, tão acelerados, uma sirene natural para acompanhar a artificial.

Essa relação próxima e respeitosa com a natureza é recorrente nas crônicas de Luís, mostrando que a cidade não é apenas dos seres humanos, ou seja, nossa. Nunca foi, nem nunca será. É uma forma de pensar a relação com o natural que se assemelha ao pensamento dos povos indígenas das terras de cá, como os guarani e os kaingang, moradores da região desde muito antes do nome Brasil existir. Em suas tradições, inclusive, os indígenas exaltam o ato de caminhar que os leva até seus parentes e suas terras, como o Guata Porã, o belo caminhar, dos guaranis.

Luís se relaciona com a natureza, a observa, ouve e até responde. Incorpora seus personagens, tão corriqueiros e presentes em nosso dia a dia, mas que não notamos, para falar sobre um mundo que nem parece o nosso, com nomes específicos, e às vezes até íntimos, como quem fala de amigos de longa data. É assim com a piranha solitária e com Billy, o pelicano, ambos no Passeio Público.

As flores, frutas, animais e árvores são personagens tão importantes quanto os humanos das crônicas, se não mais. Sempre estão ali, quando não em primeiro plano, inspirando pensamentos e incentivando ações, como a fruta em Mimosinha. A relação dos curitibanos, ou dos banhistas do litoral, com essa natureza é realçada ao falar sobre as sombras que as árvores dão, as jabuticabas congeladas, a presença (ou ausência) das estrelas no céu e tantas outras passagens.

Fazem falta os urubus, é claro, tão presentes nas coletâneas anteriores. E quando Pellanda cita o pavão de Rubem Braga, que atinge um máximo de matizes com sol e água, como sendo a sua alma, penso sobre onde estaria a alma de Luís Henrique Pellanda. Com os urubus que sobrevoam a Rua XV, observando a tudo e a todos? Com o guapuruvu que tanto viu ao lado do Teatro Guaíra? Nas carpas, no calau abissínio ou no alfeneiro?

O cronista de “Na Barriga do Lobo” é um de muitas almas, fragmentado como todos nós em tempos como esses. Tem sua alma partida, múltipla, comunitária e coletiva, soprada pelo centro da cidade como um dente-de-leão.

Se Drummond anuncia que a flor nasceu na rua e pede silêncio, Pellanda está de passagem por perto. Encosta ao lado da flor e puxa papo, nos convida a fazer o mesmo. Cada um com a sua forma de demonstrar respeito e semear alguma esperança.

Não uma esperança egoísta, voltada para si, mas uma que envolva a todos nós. Caso contrário, ao encontrar o papel de um biscoito da sorte em branco em Minha grande chance, o narrador logo aproveitaria a ocasião para tomar a dianteira da fortuna, encabeçando o mantra de tantos personais trainers e coaches de Instagram, o de que você faz a própria sorte.

Nesse agora de sonhos acordados, ora nas redes sociais, ora caçando pokémons pelas ruas, essa forma de se relacionar com a cidade e seus habitantes chega a parecer irreal, coisa de sonho. Uma forma particular de escrever que o próprio narrador aponta em A exúvia e o sonho.

Enquanto tantos andam com a cabeça na Lua, Pellanda anda com os pés no chão, mas não o tempo todo. Assim, deixa a sua escrita acompanhar a imaginação para descrever o mundo à sua volta. Aproxima o Luís menino e o adulto nesse surreal que traz para o concreto, seja inspirado pela fartura do Mercado Municipal em Minha cornucópia ou por um universo paralelo, a rua sem nome, sem saída e sem asfalto da sua infância em A rua fundamental.

E se não é por sua imaginação que navega, o cronista iça a vela para desbravar as criações daqueles à sua volta, como em O tentáculo gigante, quando três viajantes do interior se deparam com os animais alienígenas do litoral, criaturas do mar expostas na peixaria do Mercado Municipal, como se as serpentes marinhas das grandes navegações voltassem à vida para assombrar aqueles acostumados à pesca de lambaris em rios de água doce.

Crônicas essas que aproximam dois lados de um mesmo autor, nos permitindo entrever em Na barriga do lobo as fábulas contemporâneas do livro de contos A fada sem cabeça. Pellanda especula sobre o concreto através do imaterial, como ao ter o espírito de uma saracura em seu ombros em Sempre haverá um gato.

Essa escrita de sonhos, dada à imaginação, pode ser o menino do beco tomando a caneta das mãos do cronista. Pode ser uma forma de escapar do dia a dia tão objetivo e positivista que vivemos. Ou um jeito de ressignificar a cidade, que de tão real e rotineira, passou a ser menos que paisagem para os seus habitantes. Também pode ser uma saída de emergência para a escuridão que cobre o país, esse anoitecer gradual, de dias, meses e até anos, presente em Noite no Brasil.

Uma noite densa, ignorada apesar dos alarmes e dos vespeiros, apesar dos animais em fuga e das árvores caindo, como o guapuruvu em queda sobre o asfalto. Uma noite que nos faz perder as ruas até sobrar apenas os cômodos da casa, com suas janelas e vizinhos. Uma noite que aquece alguns e traz frio para muitos, digerindo a todos. Uma noite que se revela o interior da barriga do lobo, nos envolvendo em uma escuridão tão consistente que podemos nos assustar ao ver a luz mais uma vez.

Nessa realidade em que seguimos isolados, com saudade das ruas lá de fora, Na barriga do lobo é uma forma de caminhar por essa Curitiba em segurança e atenção, com um guia íntimo da cidade e de seus habitantes. Assim, sem a cabeça na lua, pensamos melhor sobre o momento e o que ele pede, prontos para escapar da barriga do lobo sempre que possível. Afinal, vocês sabem, todo lobo uiva para a lua.

Serviço
Na barriga do lobo, de Luís Henrique Pellanda. Arquipélago, 240 páginas, R$ 49,90.

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