A fome que Bolsonaro não vê | Plural
21 jul 2019 - 23h30

A fome que Bolsonaro não vê

Pós-doutora fala dos tipos de carência alimentar e sua relação com a pobreza

Você sabe o que é fome? Sabe quantos brasileiros sofrem pela desnutrição ou subnutrição causada por ela? O presidente Jair Bolsonaro (PSL) não. Ele provou isso na última sexta-feira (19/7), em Brasília, durante um encontro com jornalistas. Ao ser questionado sobre o que tem realizado para reduzir a pobreza, Bolsonaro respondeu: “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não!”

Segundo o presidente, “você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em outros países pelo mundo”.

Associar fome a características físicas esqueléticas, no entanto, não é uma boa forma de avaliar uma das maiores e mais antigas mazelas da humanidade. Quem explica é Islandia Bezerra, coordenadora Grupo de Pesquisa em Agroecologia, Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional moNGARU. Professora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PGSOCIO), Islandia tem graduação em Nutrição, mestrado e doutorado em Ciências Sociais (UFRN) e pós-doutorado na Universidad Autónoma de Chapingo (UACh), no México.

Ao Plural, a pesquisadora explica que há critérios científicos para afirmar que uma determinada população convive com o flagelo da fome. “A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) (da FAO) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) possuem uma série de indicadores que nos auxiliam nesta definição”, destaca, lembrando que, desde 2014, o IBGE vem utilizando a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) em suplementos especiais da PNAD (Pesquisa por Amostra de Domicílios).

O mais recente indicador, utilizado pela FAO – cujos dados foram recém-publicados (17/7/2019) no documento “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional (SOFI)” – utiliza a “Escala de Experiência em Insegurança Alimentar”. “Essa escala evidencia que a pessoa que experimenta a situação cotidiana de fome enfrenta a incerteza sobre a sua capacidade de adquirir alimentos. Em geral, tais pessoas tendem a reduzir a qualidade ou a quantidade de comida para poder sobreviver.”

Ainda assim, diz ela, uma pessoa que passa fome não necessariamente é “esquelética”. “Isso demonstra, mais uma vez, a incapacidade de compreender fenômenos complexos, por parte do presidente. Por exemplo, o número de pessoas com o diagnóstico de obesidade triplicou. Ou seja, uma pessoa com sobrepeso ou obesidade também pode ser faminta”, aponta.

Os vários tipos de fome

Conceituar fome apenas em termos técnicos é leviano, acredita Islandia. “Isso porque sabemos que ela é um problema, antes de tudo, político.”

Em seu último artigo publicado, a pesquisadora e sua colega Katya Isaguirre (Direito/UFPR) apresentam duas formas paradoxais e distintas para fome, porém, ambas tendo-a como forma de má nutrição, resultante de desigualdades sociais e econômicas.

Existe a fome caracterizada pela carência alimentar, a falta de “comida de verdade” no cotidiano das pessoas. “A grande maioria da população tem acesso apenas a ‘produtos comestíveis’ que em geral são mais baratos e com nenhuma qualidade nutricional.”

E existe a fome manifestada pelo sobrepeso e pela obesidade, que leva às chamadas Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) como diabetes, câncer, complicações cardiovasculares, renais e neurológicas. “Para o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, extinto assim que Bolsonaro assumiu, pessoas passam fome quando não têm acesso a alimentos em quantidade e qualidade adequadas, mas também quando estão mal nutridas por deficiências de nutrientes”, justifica Islandia.

Da mesma forma, prossegue ela, também se enquadram nesta condição do acesso ao alimento e, portanto, de vivenciar a situação de fome, pessoas que consomem alimentos de má qualidade nutricional ou produzidos com a utilização de agrotóxicos e transgênicos.

Pobreza x Fome

A correlação entre pobreza e fome é estreita e necessária, avalia a professora. “Quanto mais pobre uma pessoa, ou uma família, maior é a probabilidade dela dispor de uma alimentação ruim. Isso porque, no ranking do que se deve ‘investir’ com a renda familiar (quando se dispõem de uma), as prioridades em geral são para aluguel, transporte, água, luz e, por último, a comida. Pois comer, se come ‘qualquer coisa’, o importante é diminuir a situação de desconforto que acomete o âmago do estômago”, conta.

“Então, catar restos de comida em depósitos de lixo ou em lixões, ou comer ‘produtos comestíveis’, os chamados ‘ultraprocessados’, que por sua vez são ricos em gorduras e açúcares, são estratégias bastante utilizadas pelas famílias em situação de vulnerabilidade”, percebe a pesquisadora.

No Brasil, o número de pobres aumentou de 52,8 milhões em 2017 para 54,8 milhões ao final de 2018. Os dados são da “Síntese de Indicadores Sociais do IBGE”. Segundo o relatório, pessoas em extrema pobreza passaram de 13,5 milhões, em 2017, para 15,2 milhões em 2018.

“Comemoramos muito cedo a saída do Brasil do Mapa da Fome, em 2014. De lá pra cá, só presenciamos retrocessos no campo das politicas públicas que viabilizavam, em alguma medida, o enfrentamento ao problema da fome e da insegurança alimentar e nutricional da população rural e urbana”, constata a pós-doutora.

As causas da fome estão associadas à má distribuição de renda, e de alimentos, aos conflitos armados e aos efeitos das mudanças climáticas. “Certamente o modelo hegemônico – que mata, expropria e expulsa – de produzir, comercializar e consumir os alimentos e os instrumentos de sua regulação tem uma relação direta com o estado de fome”, conclui a pesquisadora da UFPR.

A solução, acredita ela, está em processos de desenvolvimento fundamentais, como distribuição equitativa de renda, acesso a meios de produção, (terra, água, crédito) e o reconhecimento de que o Brasil é um país desigual e excludente.

https://www.plural.jor.br/63-mil-morreram-de-fome-no-brasil-em-dez-anos/

 

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