67% dos leitores ouvidos pelo Plural sentem impactos da quarentena na saúde mental | Jornal Plural
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12 abr 2020 - 19h22

67% dos leitores ouvidos pelo Plural sentem impactos da quarentena na saúde mental

Psicólogo defende que o isolamento social tem efeito similar ao do luto

No fim de março, o Plural lançou um questionário para acompanhar os efeitos da crise do coronavírus na vida dos curitibanos. Ao analisar os primeiros dados, um item chamou a atenção da redação: a saúde mental. 42% dos respondentes dizem ter sentido impacto na saúde mental durante a quarentena. Outros 25% relatam muito impacto. Também pedimos para que classificassem, numa escala de 1 a 5, o quanto estão preocupados com a Covid-19 – 50% assinalaram o grau máximo: 5.

G.A., 40 anos, faz parte dessa estatística. A profissional de saúde pediu para não ser identificada, pois passa por um momento de fragilidade, mas dividiu um pouco do que tem vivido no último mês. Ela trabalha num grande hospital de Curitiba, mas estava afastada quando a quarentena começou no Paraná. O motivo? Perdeu o pai uma semana antes. “Uma perda é sempre difícil, mas a gente já tinha consciência de que precisava evitar aglomerações e isolar os idosos. Foi um luto diferente, sem família reunida. Com certeza me abalou”, desabafa. Junto dos sentimentos característicos do luto, veio o receio de retomar as atividades profissionais, se contaminar ou levar a doença para casa – o que resultou numa grande ansiedade. 

A jornalista Tayná Soares, 25 anos, também experienciou muita ansiedade no começo do isolamento. “Ler as notícias, acompanhar o aumento dos casos, das mortes, me deixou muito ansiosa. Eu sou mãe, então fiquei ainda mais preocupada. Não poder sair, não conversar com os amigos e não manter a rotina do trabalho colaboraram para esse quadro se agravar. Então, tive uma crise pânico pela primeira vez”, conta. 

O psicólogo Bruno Mello explica que os sintomas do transtorno de ansiedade têm aparecido com frequência em muitos de seus pacientes. “Antecipação negativa, catastrofização, dificuldade para dormir, cansaço, fadiga, agitação, tremores, dificuldade para organizar ideias ou executar tarefas, pensamentos negativos persistentes, dentre outros”, lista.

Alguns desses sintomas podem, inclusive, ser confundidos com os do coronavírus, por isso se torna ainda mais importante cuidar da saúde mental.

Para não agravar a ansiedade, as orientações começam por evitar o excesso de informação, especialmente as fake news. “Assista aos jornais, procure redes de notícias de credibilidade, ao receber uma notícia no grupo de WhatsApp, verifique a fonte, verifique se a notícia é verdadeira”, aconselha o profissional.

Mello também recomenda estreitar os laços familiares, evitar a catastrofização, priorizar dados científicos, manter uma rotina diária e exercer a empatia – especialmente evitando julgar a resposta emocional de outras pessoas frente à pandemia. Além de, claro, fazer terapia. “Converse com um profissional sobre como está se sentindo, isso poderá lhe ajudar muito a lidar com seus sentimentos”, pontua.

Luto?

O psicólogo compara os efeitos da quarentena com os 5 estágios do luto propostos pela autora Elizabeth Kübler-Ross. “Por tudo que hoje enfrentamos, devemos expandir nossas compreensões sobre o luto. Esse sentimento não é experienciado apenas quando perdemos um familiar, um amigo ou ente querido. Enfrentamos o luto quando perdemos, também, contato com quem amamos, com nosso estilo de vida, trabalho, amigos, afinidades, rotinas. Estamos lidando com o luto porque estamos lidando com perdas”, defende.

Ele esclarece que o primeiro estágio é a negação: “Não aceitamos que a doença é assim tão grave, dizemos que ela nunca virá ao Brasil, que é uma conspiração para complicar nossa economia e tantas outras falácias”. 

Depois vem a raiva. “Percebemos que algo está nos atingindo, ainda não lidamos racionalmente com o problema, ainda lidamos emocionalmente, de formas inverossímeis e que não geram solução. Brigamos com quem discorda e nos irritamos com as repercussões, seja por acreditar ou desacreditar”, descreve. 

O terceiro estágio é a barganha: “Vemos notícias de pessoas que se infectaram, amigos ou que estão em nossa cidade. Começamos a nos revoltar com o que ocorre e dialogar conosco sobre como seria se tivéssemos feito algo diferente”.

O quarto é a depressão: “O risco é real e podemos ser infectados, é normal ter medo, receio, querer estar perto das pessoas que amamos, sentir saudades, querer sair de casa a todo custo, sobretudo, é difícil lidar com a impossibilidade”. 

Por fim, aparece a aceitação: “Fortalecemos a convicção e a necessidade de fazermos quarentena, de mantermos contato virtual com quem sentimos falta, passamos a palavra à frente e indicamos quarentena a todos”.

Cada um tem seu próprio tempo para viver cada fase.

Atendimento psicológico gratuito

No fim de março, a Prefeitura de Curitiba passou a divulgar o Telepaz, um serviço de escuta e acolhimento destinado a quem sentir medo ou ansiedade durante a pandemia do Covid-19. Ao ligar, é possível falar com um dos 12 psicólogos experientes disponíveis. Nos casos mais graves, o paciente é orientado a buscar o serviço disponível na rede municipal, conforme cada situação. 

Os telefones para contato são: 3350-8500 (para toda a população) e 3350-8200 (para servidores da Prefeitura). O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. 

O TelePaz é uma parceria entre as secretarias municipais de Administração e de Gestão de Pessoal e da Saúde. A Prefeitura afirma que, se necessário, o número de profissionais será ampliado. 

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