Doenças emocionais: quando o tratamento causa medo | Jornal Plural
27 fev 2019 - 0h00

Doenças emocionais: quando o tratamento causa medo

Ter medo dos medicamentos psiquiátricos pode ser um problema a mais para o paciente

Daniele Schatz estava habituada ao comportamento agressivo de seu ex-companheiro, usuário de drogas. As ameaças eram constantes e, frequentemente, evoluíam para agressões físicas. Um dia, a violência ultrapassou os limites.

Daniele estava na casa da mãe quando, perturbado, o ex-companheiro invadiu a sala, apontou uma arma para a sua cabeça e começou a “brincar” de roleta-russa. Ela nunca esqueceu. “Fiquei quatro anos sem sair de casa”, conta. “Multidão, pessoas que não conheço, me causavam crise de pânico”.

Daniele passou a sentir medo sempre que via usuários de drogas nas ruas. Barulhos que lembravam tiros ou gritos também se tornaram assustadores. Os sentimentos negativos começaram a afetar sua vida e seu bem-estar. Aos poucos, ela percebeu a dificuldade para encarar os problemas sozinha.

Era hora de buscar ajuda.

Luta contra as emoções

Por causa do trauma, Daniele desenvolveu a Síndrome do Pânico, caracterizada, entre outros sintomas, por um nível elevado de ansiedade e crises angustiantes. “Procurei o pronto-socorro porque achei que estava tendo um ataque cardíaco. A crise de pânico tem mais ou menos os mesmos sintomas. O coração bate mais forte, você sua muito, tem aquele medo intenso, medo de morrer”, detalha.

No pronto-socorro, os exames não mostraram nenhuma alteração no organismo e Daniele foi encaminhada ao psiquiatra. Foi então que teve o primeiro contato com os medicamentos que a ajudariam a lidar com tudo que aconteceu.

Segundo o psiquiatra Ricardo Assmé, presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria, as doenças emocionais abrangem dois aspectos: o cognitivo, ou seja, a maneira de pensar, e o biológico, que envolve os componentes químicos do organismo.

No aspecto biológico, as pessoas nascem com diferentes predisposições para desenvolver doenças emocionais – algumas desenvolvem com mais e outras com menos facilidade. Porém, a predisposição, por si só, não é determinante.

“Mesmo aquele que é pouco predisposto, se for muito estressado, pode desenvolver um quadro depressivo. O contrário também é verdadeiro. Às vezes, a pessoa é predisposta, mas vive tranquilamente e acaba não desenvolvendo”, explica Ricardo.

De acordo com ele, o fator cognitivo e o ambiente têm um impacto mais significativo. “Geralmente, as pessoas que são submetidas ao estresse desenvolvem quadros depressivos e ansiosos, por exemplo. O ambiente e a maneira como você vive e interpreta esse ambiente fazem com que você tenha alterações bioquímicas cerebrais”.

E é por causa dessas alterações que a medicação se torna necessária. “Você vai começar a ter uma diminuição da neurotransmissão. Pode ser a diminuição de serotonina, adrenalina, dopamina ou de todas elas”, explica. Os diferentes sintomas, como ansiedade ou insônia, surgem a partir dessas alterações.

Começos diferentes

Exposta a uma situação extrema e após várias tentativas de suicídio, Daniele não teve escolha. Hoje, aos 36, faz o tratamento há seis anos, com consultas semestrais à psiquiatra.

Buscar ajuda, segundo ela, foi essencial. “É uma doença que está em sua cabeça e você tem que aprender a lidar com seus monstros internos. Quando você tenta e tem um resultado positivo, vai perdendo o medo”, explica.

Todo mundo pode desenvolver depressão, dependendo do ambiente.

Ao contrário de Daniele, Laryssa Alves, de 23 anos, não procurou ajuda após um evento traumático isolado. O tratamento começou por causa de um aumento gradual da ansiedade e da depressão.

O primeiro passo foram as consultas com a psicóloga. “A terapia é bom para a gente se conhecer e saber o que faz mal e a gente não percebe. Você entende como seu corpo funciona, ajuda a acalmar”, afirma.

A medicação foi prescrita depois, pela psiquiatra que, hoje, quatro anos depois, ela visita a cada três meses.

Com os medicamentos, as crises de ansiedade e pânico diminuíram e a evolução foi compensadora, apesar dos efeitos colaterais. “Eu era muito solitária e agora sou professora. Eu nem conseguia falar com as pessoas na rua e agora dou aula. Acho isso uma transformação imensa”.

O momento certo de buscar ajuda pode variar, de pessoa para pessoa. Alguns sinais de alerta são emocionais. “Se a pessoa ficou mais de 15 dias triste, isso já é chamativo de um quadro onde existe uma patologia, a não ser em situação de luto, que daí a pessoa pode ficar até três meses ou mais triste”, afirma Ricardo. “Se a pessoa estiver triste há um mês, com pensamentos ruins e dificuldade para trabalhar, deve procurar ajuda”.

Segundo Ricardo, em casos como o de Daniele, em que a pessoa é acometida por sintomas físicos, o ideal é buscar primeiro o clínico geral. “Se estiver tudo bem, vai ao psiquiatra”, explica.

Medicação não é tudo

“Medicamento ameniza? Ameniza. Mas, se você ficar fechada em casa, sem contato com as pessoas, se fechar na sua dor, você não melhora nunca”, conta Daniele, ao relembrar os dias em que mal podia sair.

Depois do trauma e do início do tratamento, ela percebeu que precisava fazer algo além de tomar a medicação para voltar a viver normalmente. Ela então passou a se dedicar a diferentes hobbies.

Hoje, Daniele faz parte da ONG Vigilantes da Gestão, onde foi uma das responsáveis pela descoberta do caso do deputado Alexandre Guimarães (PSD), que gastou mais de R$ 80 mil da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) em restaurantes, bares e casas noturnas entre 2015 e 2017.

“Entrei com as ações contra deputados, começou um monte de entrevista e tive que encarar meu medo, a crise de pânico, por mim mesma”, conta.

“A gente tem que tomar atitude. Você fazer as mesmas coisas e esperar que o resultado mude não dá certo”, diz.

Ansiedade: suor, palpitação e a impressão de que vai morrer.

A alimentação mais indicada é a chamada “dieta mediterrânea”, rica em peixes, carnes e saladas. Também é aconselhável evitar ao máximo o ‘fast food’, explica Ricardo.

Outro aspecto que pode ajudar é a espiritualidade, conforme o médico, especialmente a meditação. “É um tipo de meditação que é simples de ser feita, chamamos de ‘atenção plena’”, diz. Basta relaxar e manter o foco no ambiente ao redor, sem se deixar levar pelos pensamentos.

Para Marcelo Daut Von Der Heyde, vice-presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria, o exercício físico regular – quatro sessões de 50 minutos por semana – funciona, comprovadamente. “Alguns tipos de yoga, atividades lúdicas, como música, cultura e artesanato, também ajudam”, complementa.

Mas o mais importante, segundo ele, é a melhora do paciente. “Vamos supor algo bem alternativo, que não tenha evidência, como plantar bananeira. Se com isso ele ficar melhor, é o que importa”, brinca.

Laryssa compartilha a opinião. Para ajudar no tratamento, ela recorreu a atividades como bordado, crochê e pintura. “Isso ajuda a focar e tirar a mente do que faz mal”, conta.

Segundo Marcelo, há ainda outras atitudes simples que podem ajudar, como exercícios de respiração. “A respiração, quando é feita de forma correta, é indicada para crises de ansiedade”, aconselha o médico.

Segundo o psiquiatra Ricardo, o tratamento dos quadros depressivos e ansiosos tem diversos pilares. “O ideal para o tratamento de quadros de estresse, ou síndromes depressivas ansiosas, é uma combinação de tratamento psicológico, psiquiátrico e cuidados, como a prática de exercícios físicos e uma alimentação balanceada”, diz.

Entrando em equilíbrio

Toda a melhora proporcionada pelas atividades tem explicação. Segundo Marcelo, com o movimento, há o equilíbrio químico do organismo. As atividades físicas liberam substâncias como a beta endorfina e as lúdicas aumentam os níveis de ocitocina, ambos hormônios que aumentam o bem-estar.

E para quem quer uma ajuda extra, há a possibilidade de recorrer aos remédios naturais, ou fitoterápicos, como os feitos à base de passiflora, além dos chás, como a erva-de-são-joão. “Tem um efeito pequeno, mas tem. A ciência tem essa resposta”, garante Marcelo.

Porém, atenção: no caso dos medicamentos naturais, também é preciso buscar orientação médica. “Em alguns casos, eles podem ser mais tóxicos do que medicamentos alopáticos. Apesar de serem naturais, com base em uma planta simples, existem riscos”, alerta Marcelo.

Toda atitude positiva ajuda. Porém, fica um alerta. As doenças emocionais podem se desenvolver em diversos “níveis”, conforme explica Ricardo. Em quadros depressivos médios, por exemplo, é possível que apenas a psicoterapia e cuidados como estes levem à cura. Porém, em casos moderados ou mais graves, o tratamento com medicamentos é insubstituível.  

“O quadro moderado é aquele que faz um prejuízo do funcionamento da pessoa, tanto no ponto de vista elaborativo, quanto social, estudantil. A pessoa já tem uma certa dificuldade em fazer as coisas e socialização”, explica. O importante é buscar sempre orientação médica.

O medo de parar

A dificuldade em suspender a medicação existe, em alguns casos, mas ela nem sempre representa perigo. Para entender, é preciso saber diferenciar adição – que é o vício, que causa abstinência e problemas sociais – e dependência.

Segundo especialistas, a adição é rara. Para os anti-diazepínicos, popularmente conhecidos como calmantes, a taxa é de apenas 0,28%. Isso se deve, principalmente, ao fato de que os medicamentos têm efeito lento. “Os remédios que usamos para tratar depressão por exemplo levam dias, até semanas para começar a fazer efeito. É comum [o paciente] falar que está tomando remédio e não sente nada. É isso o que acontece. Só depois de um bom tempo que se vê melhora”, afirma Marcelo

Já a dependência se assemelha muito a casos, por exemplo, de pessoas que dependem de medicação para pressão alta. A pessoa precisa do medicamento para viver melhor, mas sua ausência não causa efeitos colaterais intensos, como a abstinência, e nem leva a atitudes irracionais para suprir a necessidade do remédio – como no caso de usuários de drogas que roubam para comprar entorpecentes.

Ela geralmente ocorre em casos de doenças crônicas, como a Síndrome do Pânico, que acometeu Daniele. Após seis anos de tratamento, ela ainda não consegue deixar os medicamentos. “Toda vez que tiro, eu caio de cama e não consigo levantar. Dá dor no corpo inteiro. O psicológico se transforma em físico e você não consegue fazer nada”.

Nos casos de dependência, se o paciente se sente incomodado, é possível tentar superá-la, segundo os especialistas. Pode-se, por exemplo, mudar a medicação ou trabalhar, emocionalmente, a suspensão dos remédios. “Nesses casos, nós indicamos uma terapia para que ele se prepare para deixar o remédio. E, caso precise voltar, o remédio mantenha o efeito”, afirma Marcelo.

Nem sempre é hora de parar

Ao contrário de Daniele, Laryssa não se considera dependente. Em seu caso, o que incomoda é o medo. “Eu tenho medo de parar agora e voltar tudo. Mas [parar] é uma coisa que gostaria muito. Não gosto de tomar remédio. É caro, tem efeitos colaterais”.

Laryssa já pediu à médica a suspensão dos medicamentos mas, por conta do último ano da faculdade, a decisão foi adiada.

“Ela disse que, para parar, tem que estar 100%. Se parar e eu ainda não estiver melhor, pode voltar pior do que era antes. Então, conversei com a médica no começo do ano, ela ficou sabendo que era meu último ano de faculdade, e disse que seria um ano muito estressante então não vou parar, vou continuar”, afirma.

A suspensão do medicamento, depois do ano turbulento, será feita gradualmente, sempre com acompanhamento.

Para Marcelo, o medo da dependência pode ser atribuído, em muitos casos, à falta de informação. “Com frequência, se ouvem histórias de que o paciente tem uma vizinha ou familiar que passou a tomar tal remédio e agora não consegue parar”, relata.

O psiquiatra conta que testemunha com frequência casos de pacientes que sentem esse receio, mas tranquiliza. “Entre 70% e 80% das vezes que retiramos o medicamento, não se tem novos sintomas”, afirma.

“Se [o remédio] é usado de forma correta e por um tempo curto, conforme a orientação do médico, o risco é baixo. O risco é mais alto quando se usa além do tempo e além da dose indicada”, alerta Marcelo.

Os especialistas afirmam que, se o paciente recorre ao tratamento com acompanhamento médico no início dos sintomas e toma a medicação de forma correta, as chances de desenvolver uma doença crônica diminuem para cerca de 50%.

Se o tratamento é feito de forma incorreta, elas voltam a crescer a cada crise. Por isso, para evitar casos crônicos e a dependência dos medicamentos, o ideal é tratar as doenças emocionais de maneira rápida, seguindo à risca as recomendações médicas.

Responsabilidade dos médicos

Com o risco de dependência ou efeitos colaterais, há uma série de cuidados envolvendo os remédios usados para tratar doenças psicológicas. E são justamente esses cuidados que proporcionam segurança jurídica para que os psiquiatras possam atuar. É o que explica a advogada Renata Farah, especializada em Direito Médico e da Saúde

“O médico não é responsável pela dependência química do paciente. Primeiro porque a bula desse medicamento é muito clara quanto aos efeitos colaterais. Segundo, essa medicação é de uso controlado, então o médico só vai prescrever se o paciente realmente precisar”, explica.

Segundo ela, as receitas, inclusive, têm validade de 30 dias e ficam retidas, para garantir o uso correto. “Mesmo a cópia, que o paciente tem, é válida por 30 dias. Então existe um controle, o objetivo do médico não é causar dependência”, ressalta. “Muitos medicamentos, inclusive, o paciente assina um termo de consentimento para utilizar a medicação. Ele está ciente de todos efeitos adversos”.

Há, ainda, as receitas azuis, que são os medicamentos mais ‘perigosos’. Não são todos os médicos que têm acesso a elas. “O médico tem que fazer um cadastro na Vigilância Sanitária, a receita vem numerada, é um controle muito rígido”, conta Renata.

De acordo com ela, a responsabilidade sobre o tratamento é compartilhada e os pacientes precisam fazer a sua parte. “Às vezes o paciente fica dependente desse medicamento emocionalmente, nem só quimicamente, e sai desse médico, vai em outro e não conta que já está tomando há bastante tempo”, afirma. “Muitas vezes, o paciente não quer fazer a terapia, por exemplo, ele quer só a muleta, que é o remédio. E todo remédio tem efeito colateral previsto em bula.”

Renata alerta que o paciente deve estar ciente dos efeitos adversos da medicação e manter o acompanhamento médico periódico. Em caso de problemas, segundo a advogada, nada impede o paciente de processar o médico, porém, estes casos não costumam ter resultado positivo para o paciente – por isso mesmo, são bastante raros.

“Qualquer um pode processar qualquer pessoa pelo que quiser. Porém, essa seria uma ação que a gente chama temerária. Não existe motivo ou responsabilidade do médico”, garante.

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