Euclides Scalco, da farmácia no interior para o Planalto | Jornal Plural
16 mar 2021 - 17h10

Euclides Scalco, da farmácia no interior para o Planalto

Deputado que combateu a ditadura e foi ministro de FHC morre de Covid aos 88 anos

Nos final dos anos 70, o jovem Euclides Scalco, que faleceu nesta terça-feira (16), tinha o costume de se reunir com seus correligionários no edifício Pedro Demeterco, no Centro de Curitiba. A pauta, claro, era a redemocratização do país. O regime militar estava em seus estertores, e Scalco, que tinha se transformado em um dos principais quadros do MDB, orientava seus colegas mais jovens sobre os próximos passos.

A essa altura, Scalco, nascido no interior do Rio Grande do Sul, já tinha se transformado num dos eixos mais importantes da política paranaense. Sua carreira, que começara tímida, crescia a olhos vistos. O farmacêutico formado pela UFRGS tinha deixado para trás suas primeiras farmácias – primeiro em Mussum, depois em Bento Gonçalves, e fez a vida no Sudoeste paranaense.

A primeira campanha política foi para vereador, ainda pelo PTB da era getulista (depois da ditadura, o partido ressurgiria, mas com outras características). Tendo fincado os pés na região de minifúndios mais importante do Paraná, Scalco fez jus à politização local. Participou das discussões sobre os direitos dos agricultores, fez-se representante dos pequenos proprietários e, depois de um mandato na Câmara, acabou prefeito de Francisco Beltrão.

A política logo se tornou mais importante do que as farmácias. Com o início da ditadura, em 64, Scalco voltou à Câmara, ainda pelo PTB, e começou sua jornada de combate aos arbítrios. Ao longo do tempo, sua militância o poria em contato com diversos nomes importantes que formariam o MDB, a “oposição tolerada” aos generais. Conheceu José Richa, Maurício Fruet, Roberto Requião. E logo participava das discussões na capital.

“O Scalco era uma referência para nós”, disse ao Plural o ex-governador Roberto Requião, que teve apoio dele para ser prefeito de Curitiba em 19865 e governador, em 1990. “Foi um sujeito sério, com princípios, que teve um papel bonito na luta contra a ditadura. Depois nos afastamos, mas isso nunca diminuiu o apreço que sinto por ele”, afirmou.

Em 1974, numa eleição épica para o MDB (a ditadura já não enganava muita gente), acabou se tornando suplente de senador. A cabeça de chapa era ocupada pelo desconhecido Leite Chaves. Em 1979, Scalco conquistaria seu primeiro mandato em Brasília como deputado federal, sendo reeleito em 1983.

Em 83, um de seus grandes amigos, José Richa, foi eleito governador e o chamou para a Casa Civil. O partido crescia, e indicou também Maurício Fruet para prefeito de Curitiba. “Ele foi contemporâneo do pai e tiveram papel importante juntos na formação do MDB”, disse ao Plural Gustavo Fruet, ex-prefeito de Curitiba. “Quando meu pai faleceu ele se tornou pra mim talvez a pessoa mais importante como conselheiro”, afirmou Fruet, que em 2010 teria Scalco como suplente em sua campanha ao Senado.

Com o país redemocratizado, o antigo PMDB rachou e Scalco, junto com Richa, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, partiu para a criação do PSDB. Constituinte, teve atuação importante em defesa de causas sociais ao lado de Covas.

Sua proximidade com Fernando Henrique o levaria a várias posições importantes com a eleição do tucano para presidente. No primeiro mandato, presidiu Itaipu. No segundo, depois de coordenar a campanha de reeleição, virou ministro.

Nos últimos anos, acabou participando menos da política partidária. Em 2006, coordenou a campanha de Osmar Dias para o governo do estado. Em 2010, a candidatura a suplente de Fruet acabou frustrada. Scalco cada vez mais era um conselheiro, um homem de bastidores, aparecendo menos em público. No entanto, sua fama continuou a mesma.

“Discorde politicamente dele, quem desejar, mas certamente todos haverão de reconhecer a sua grandeza de caráter, lealdade às suas convicções e dignidade”, disse nessa terça o senador Alvaro Dias.

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4 comentários sobre “Euclides Scalco, da farmácia no interior para o Planalto

  1. Não o conheci pessoalmente , mas sempre senti muito orgulho de ter uma pessoa , com certeza da mesma família italiana , com o mesmo sobrenome . Lamento sua ida , pois com certeza , sua sabedoria ainda podia colaborar com a situação preocupante que enfrenta o país .

  2. Há erros de datas nessa matéria. A eleição do José Richa para governador foi em 1982. Nessa eleição Álvaro Dias se elegeu senador e Roberto Requião deputado estadual.

  3. Foi da Brava Resistência à Ditadura que, com a Redemocratização e a fundação do P$DB resolveram seguir aTeoria da Dependência (subordinação) trazendo a triste Defesa da Privatizações no governo FHC para seu currículo.

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