“Quem for para o segundo turno ganha do Greca”, diz Fruet | Jornal Plural
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23 set 2020 - 17h22

“Quem for para o segundo turno ganha do Greca”, diz Fruet

Em entrevista exclusiva ao Plural, ex-prefeito de Curitiba falou sobre o cenário para as eleições municipais, candidatura de Goura e até se voltaria a comandar o Executivo na Capital

O deputado federal e ex-prefeito de Curitiba Gustavo Fruet (PDT) afirmou em entrevista ao Plural que o apoio do governador Ratinho Jr (PSD) ao prefeito Rafael Greca (DEM) veio para “movimentar as peças do tabuleiro” no processo eleitoral, inviabilizando candidaturas que poderiam levar a um segundo turno. No entanto, Fruet acredita que há chances de as eleições ganharem contornos diferentes. “Eu acho que quem for para o segundo turno ganha do Greca”, diz o ex-prefeito.

Fruet retirou sua pré-candidatura à Prefeitura de Curitba há pouco mais de uma semana e decidiu se concentrar nas atividades legislativas. Com a desistência, o PDT abriu espaço para uma “novidade” nas eleições para o Executivo. O deputado estadual Goura será o representante do partido.

Na conversa, o ex-prefeito falou sobre os motivos que o levaram a deixar a disputa, sobre a candidatura de Goura e em relação a possibilidade da criação de uma frente de esquerda no segundo turno das eleições.

Além disso, Fruet abordou sua relação com o MDB – depois de uma discussão com o ex-governador Roberto Requião, que criticou sua gestão à frente da Prefeitura no Twitter – e ainda respondeu sobre se gostaria de voltar a ser prefeito de Curitiba.

Leia as principais partes da entrevista:

Como foi a decisão de não sair candidato?

A gente não tem no Brasil o debate interno partidário, tudo se resume à convenção partidária. Pessoalmente, sempre tive a disposição de disputar a Prefeitura pensando no futuro. São vários fatores que motivam uma disputa eleitoral.

Hoje, há uma distância entre o que o prefeito atual fala e o que vai deixar. Eu já fui prefeito, sei o que vem, essa aceleração de investimento aconteceu na gestão anterior à minha, a Prefeitura terá uma margem muito pequena de investimento. Vai ser preciso buscar novas fontes de financiamento e o ano que vem será o quinto ano seguido de aumento no IPTU, aumento da tarifa técnica dos ônibus, é uma novela que vai se repetir.

O Ratinho não joga do mesmo modo que o Beto Richa. mas ele entrou para movimentar as peças do tabuleiro. Me lembrou as eleições de 88, quando entrou um poder de convencimento do governo contra meu pai e gerou a desistência de vários candidatos. Com o apoio de Ratinho, candidaturas da situação que poderiam resultar em segundo turno foram mobilizadas. Se fosse candidato, eu teria que enfrentar a máquina sozinho novamente.

Eu já sei o que vem. Eles contrataram 300 profissionais da saúde em um mês e provavelmente não vão renovar, várias unidades de saúde estão fechadas e isso vai gerar um passivo bem forte a partir de 2022. O déficit no sistema de transporte vai chegar em quase 200 milhões no ano que vem, a Prefeitura não vai ter como pagar, vai ter que aumentar a tarifa.

Ficamos reféns de um modelo de financeiro que gera o seguinte: ou o sujeito é muito rico ou esbarra na máquina. Quem está na máquina tem um poder de convencimento e não tem quem consiga uma estrutura mínima para o enfrentamento. Não queria entrar em uma eleição só para comparar com o Greca. Tem valores que defendo que não são defendidos pela maior parte da sociedade. Sempre defendi ampliar o atendimento da saúde e melhorar a educação básica.

Como avalia a candidatura de Goura e o cenário atual para a Prefeitura?

A eleição muda a estratégia pelo perfil dos candidatos de oposição. Goura passou esse período (últimos quatro anos) sem ser criticado e avaliado. O Goura representa a novidade, isso gera um problema que pode estabelecer uma onda. Mas isso é da natureza do nosso modelo, é dinâmica de nossa campanha, se estabelecer uma onda com 10% da pesquisa eleitoral já pode dar em segundo turno. Se eles estavam preparados para focar a situação só comigo, a gente pode discutir o passado.

Em nota divulgada pelo PDT, Goura afirmou que não há tempo para estruturar e unir os partidos de esquerda nesse primeiro turno das eleições, porém, não descartou isso para o segundo turno. Como vê essa questão?

Duas questões práticas aí, eleição em dois turnos é para isso. Acaba se criando um debate dentro dos partidos que é distante da sociedade, o mundo político fala muito para dentro e a gente sempre tem que ter a capacidade de dialogar. Com o fim das coligações, haverá uma pulverização para a eleição de vereadores e haverá pulverização nas eleições de 2022. Não tem sentido os partidos perderem a oportunidade de lançar candidatos, é o que sempre fiz no PDT.

O Goura chega sem desgaste nessa eleição, quem for para o segundo turno eu acho que ganha do Greca. Quando ganhei a eleição em 2012, ninguém novo me apoiou no segundo turno. O segundo turno tem uma outra dinâmica, não há se precisa falar mais em frente ampla de esquerda. Em Curitiba, temos que dialogar com o eleitor conservador e, se não tiver isso, não ganha a eleição.

Nos bastidores, falou-se muito sobre a possibilidade de o MDB apoiar o PDT, mas isso não aconteceu. O senhor até teve uma discussão ácida com o ex-governador Requião no Twitter. O que houve?

São duas coisas diferentes. Com o João Arruda fiquei feliz, ele assumiu uma candidatura corajosa, não é o projeto dele. Espero que ele cresça na disputa. O Requião falou e eu respondi, esse tipo de postura atrapalhou muitas alianças do Paraná na história. Meu foco não é ele. Com essa nova geração do MDB a tendência é que esse diálogo seja cada vez melhor

Ainda pensa em ser prefeito de Curitiba novamente?

Estou no quarto mandato de Federal, gosto do que faço. Tem muita gente que diz que basta gestão eficiente e vontade política para as coisas acontecerem. Não é assim. A gente está discutindo política e deixando de discutir cidades.

A política está cada vez mais profissional e cada vez mais desigual no Brasil. Não vai mudar a lógica de formação de maioria nas Câmaras, nas Assembleias e no Congresso Nacional. Terá êxito mais provável uma vinculação a projetos de poder.

Curitiba tem 40 anos em que se consolidaram alguns projetos e contratos, e quem tentar dar transparência a isso vai apanhar. Os maiores contratos é que demandam serviço da Prefeitura.

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