Promessas caras, demasiadamente caras | Jornal Plural
25 jan 2019 - 0h00

Promessas caras, demasiadamente caras

O atual shut down que afeta o governo dos Estados Unidos é um caso típico do governante refém de uma retórica contundente. Donald Trump entra…

O atual shut down que afeta o governo dos Estados Unidos é um caso típico do governante refém de uma retórica contundente. Donald Trump entra em seu terceiro ano de mandato repetindo que vai construir o muro entre a fronteira do Estados Unidos e México a qualquer custo.

E bota custo nisso: as estimativas para esta obra vão de US$ 8 bilhões (perto de R$ 30 bilhões) a US$ 67 bilhões (aproximadamente R$ 252 bilhões). Essa insistência criou um impasse no orçamento do governo federal, iniciando o chamado shut down, que seria em bruta tradução um “desligamento” nas contas do governo.

Não são todas as áreas afetadas, mas agências federais estão funcionando em período parcial, 800 mil funcionários públicos estão sem receber, várias contas não estão sendo pagas, o que gera atraso em projetos. Situação incomum para a maior potência mundial, apesar de não ser única na história do país – este é o 19º shut down nas últimas quatro décadas – porém já é o mais longo.

São 34 dias (em 24 de janeiro), sem expectativa de acordo. E nesta quarta-feira (23) os controladores de voo declararam que a situação pode ficar crítica para a segurança aérea, sem recebimento de salários. Ou seja, dias complicados virão.

Donald Trump insiste que aguentará o tempo necessário para conseguir ao menos US$ 5 bilhões no orçamento, em contrapartida aos US$ 1,6 bilhão oferecidos pelo Congresso. Não importa que especialistas digam que o muro não irá acabar com a imigração ilegal ou o tráfico de armas e drogas. Ou que reforçar a segurança com a guarda seria menos oneroso e mais efetivo. Trump foi eleito com esse discurso e grande parte do eleitorado que rejeita imigrantes apoia esta forma bruta e teatral de tratar os assuntos de governo.

E cada vez mais, fica difícil para o governante desistir da retórica. O que sairá mais caro: manter a luta pelos recursos da construção, mesmo sabendo que dificilmente terá apoio do Congresso, ou abrir mão, negociar, e perder o crédito de boa parte do eleitorado.

Desde o final do ano passado Trump vem mudando de alternativas sobre quem pagará essa conta. Uma hora seria o México – tanto o presidente anterior Enrique Pena Nieto quanto o novo, Andres Manuel López Obrador rejeitaram a proposta -, depois seria o governo do Texas; e no meio da discussão ainda disse que poderia interceptar parte do dinheiro que os imigrantes mexicanos nos Estados Unidos enviam anualmente para o pais de origem. A ideia original de muro de concreto também foi mudada para estacas de ferro, menos caras.

As maiores emissoras de TV, principalmente à cabo, passam o dia e noite discutindo o tema. Especialistas criticam, analisam as situações diárias. E a retórica contundente também reage de maneira típica: não discute, não debate, não negocia, apenas desqualifica os jornalistas e veículos que cobrem o assunto. Não há como discutir algo que não tem um fundamento racional. O governo Bolsonaro, que é admirador de Trump, parece estar indo pelo mesmo caminho.

Bem que a imprensa brasileira poderia, da mesma forma, copiar o que é feito pela CNN, por exemplo, colocando relógio para contar o tempo de duração de algum evento político. É o que fez com o shut down (até completar um mês contavam até os segundos e agora marcam os dias no monitor). Poderíamos sugerir temas: quanto tempo Sérgio Moro fará cara de paisagem com as denúncias contra a família Bolsonaro? Quanto tempo Bolsonaro está sem dar entrevista coletiva? Em quanto tempo ocorrerá a reforma da previdência para os militares?

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