Crítico de vinhos recomenda: “beba com alegria” | Plural
19 ago 2019 - 22h09

Crítico de vinhos recomenda: “beba com alegria”

Sem muitas firulas, Jon Bonné explica os códigos ao redor da bebida no livro “As novas regras do vinho”

“As novas regras do vinho”, de Jon Bonné, é pouco maior que um livro de bolso. Tem capa dura, uma diagramação elegante e dezenas de ilustrações. É um livrinho muito simpático.

Ele se divide em oito capítulos que somam 89 regras – o que parece um número aleatório, não? Mas, num mundo em que se fala muito das 10 coisas para fazer isso, ou nas 100 ou 1001 sei-lá-o-quê, encontrar alguém que lista 89 regras (não 100, não 1000) já é um alento.

A organização dos capítulos é simples e funciona bem, falando sobre “como escolher”, “como servir e desfrutar”, “jantando fora”, “bebendo em casa “etc.

Na verdade, o autor Jon Bonné, jornalista americano que escreve sobre vinhos para o “San Francisco Chronicle”, conseguiu criar um guia curto e direto, sem muitas firulas. (Como o tema é vinho, parece que alguma firula sempre acaba escapando.)

“Este livro nasceu da ideia de que a coisa mais valiosa que tenho a compartilhar é um resumo prático de princípios que aprendi para incorporar o vinho ao dia a dia: como descobrir do que você gosta, como escolher uma garrafa para o churrasco do fim de semana, quando fazer alarde e quando ser discreto”, escreve Bonné, na introdução.

A melhor dica que ele dá, dois parágrafos depois, é: “beba com alegria”. Ele se refere ao medo de errar que costuma afligir os “amantes do vinho”. E essa é uma parte importante da lição ensinada no livro: se você se interessa em beber vinhos, não tema, não se preocupe demais com harmonizações e preste atenção em alguns detalhes importantes (a temperatura da garrafa é um deles).

Bonné escreve de um lugar bem específico: além de ser americano e de ter sido editor num dos principais jornais dos Estados Unidos, é casado com a dona de uma importadora que vende “alguns dos melhores [vinhos] do mundo”. Arrá!

Na página 58, ele decide falar sobre dinheiro. Ainda bem que a edição brasileira teve o cuidado de converter os valores. Basicamente, Bonné diz que é muito difícil comprar um vinho bom por menos de R$ 50. Por menos de R$ 40 então, nem pensar. O valor que ele estabelece como razoável gira em torno dos R$ 80 para um vinho “que tenha personalidade e seja bem-feito”. (É um pouco acima do meu valor razoável, preciso admitir.) Garrafas que custam menos de R$ 40 são descritas pelo autor como “feitas em larga escala por grandes corporações”.

O fato é que o livro tem muitas dicas legais. Entre as que mais me chamaram atenção, ele fala que comprar garrafas grandes, como aquelas de 1,5 litro, é uma boa pedida porque a bebida tende a sofrer menos a influência da embalagem. Ele também diz que é bom decantar quase todo tipo de vinho (não só os que têm sedimentos), defende as tampas de rosca e diz que champanhe pode ser consumido a qualquer momento e não só em datas especiais (“Comemore a sexta-feira. Comemore a pizza. Comemore a nova temporada de Stranger Things”, escreve ele).

Bonné diz que hábitos antigos relacionados ao vinho estão começando a desaparecer – daí as “novas regras” do título. “Grandes influenciadores estão perdendo poder”, diz. “Quem bebe vinho hoje é muito mais seguro e menos propenso a se basear em pontuações definidas pela sabedoria dos conhecedores.” É mesmo?

Para alguém que defende mudanças, Bonné é estranhamente apegado a algumas ideias obsoletas. Ele não vê problema em cheirar a rolha de um vinho, por exemplo (nesse quesito, prefiro o que diz Jonathan Nossiter, diretor do documentário “Mondovino”: que cheirar a rolha para saber a qualidade do vinho é como cheirar a meia para saber a qualidade do sapato).

Na verdade, é bom que eu não concorde com tudo que ele escreveu. Você não precisa concordar comigo nem com ele. E se a gente discordar enquanto toma um vinho, melhor ainda.

Serviço

“As novas regras do vinho – Um guia útil de verdade com tudo que você precisa saber”, de Jon Bonné. Tradução de Lígia Azevedo e Reginaldo Azevedo. Companhia de Mesa, 152 páginas, R$ 64,90 (é o preço de uma boa garrafa de vinho).

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