Em busca da batida perfeita | Plural
4 set 2019 - 0h33

Em busca da batida perfeita

Brasil ganha novo romance de Paul Beatty, que fala de jazz, raça e guerra fria

Paul Beatty gosta de tirar o chão do leitor. Ao contrário de outros autores, que querem reforçar as crenças de quem pega no livro, ele parece achar graça na ideia de bagunçar as expectativas alheias.

Pense nos nomes mais célebres da literatura negra, principalmente de língua inglesa. Alice Walker. Toni Morrison, Colson Whitehead, James Baldwin, Ta Nehisi Coates.

Cada um tem seu estilo, todos são muito diferentes entre si. Mas são negros que escrevem sobre a vida dos negros. E você pode ter uma certa segurança de que eles não vão inverter a narrativa racial que se esperaria de alguém vindo de uma etnia que sofreu tudo o que sofreu.

Paul Beatty não escreve libelos. Está longe de ser o típico militante. E, rapaz, ele faz você pensar.

O primeiro livro dele a chegar ao Brasil foi “O Vendido”, vencedor do Booker. A história é de um sujeito (negro) que decide recriar uma cidadezinha na Califórnia e (preste atenção) recriar a escravidão.

O mais bizarro é que ele encontra um sujeito que fica feliz da vida em ser escravo. Um negro, claro.

O livro é hilário, fascinante e – principalmente – é grande literatura. E a cada página você se vê encurralado por Beatty, que te faz pensar: e que tal se eu te propuser essa situação?

Agora, chega ao Brasil, também pela Todavia, o livro exatamente anterior dele. Um outro romance em que o personagem principal é um negro, e com uma história que não passa tão longe da premissa de “O Vendido”.

Em “Slumberland – A Batida Perfeita”, o personagem encontra seu ídolo, um jazzista que desapareceu em Berlim durante a guerra fria e é reencontrado no submundo das trilhas sonoras de cinema pornô.

Assim como o protagonista de “O Vendido” recria a escravidão, a segregação racial e a cidadezinha de Dickens, na Califórnia, o personagem principal de “Slumberland” e seu amigo decidem recriar o Muro de Berlim.

Tive a sorte de traduzir os dois livros para o português. São livros difíceis – bem mais difíceis do que o normal – porque uma palavra em falso pode colocar tudo a perder, e porque o ritmo da prosa é cheio de idas e vindas, e porque além de tudo há várias brincadeiras verbais.

Mas ao descer às minúcias do texto de Beatty você percebe como nunca o trabalho de bordado que existe por trás daquele tecido. Beatty não gosta que chamem seus livros de sátira. Eu diria que também não são humor. E, acredite, apesar de tudo, não são livros que querem incendiar, fazer polêmica.

O que Beatty é, na verdade, é um tremendo prosador – um sujeito capaz de construir situações insanamente inverossímeis, e que no entanto estão ligadas aos temas mais importantes da nossa vida hoje.

O que são os Estados Unidos. O que é o preconceito racial. O que é ser negro (ou branco) num mundo cheio de preconceitos. Qual o papel da arte nisso tudo. E o que você, leitor, deveria estar fazendo sobre tudo isso.

Todas as grandes questões que assumem a forma de libelo nos ensaios de James Baldwin e Ta Nehisi Coates, de amor materno em Toni Morrison, de conflito romanceado em Colson Whitehead.

Mas de um modo mirabolante, único e cheio de fascínio pelos personagens absurdos que nós somos.

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