"Vou fazer essa peça até ficar torta de verdade", diz Nena Inoue após Prêmio Shell | Jornal Plural
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20 mar 2019 - 11h07

“Vou fazer essa peça até ficar torta de verdade”, diz Nena Inoue após Prêmio Shell

Atriz curitibana venceu mais importante prêmio nacional de teatro por peça que estará no Fringe

É tremendamente significativo que Nena Inoue tenha vencido o Prêmio Shell de melhor atriz da maneiras como venceu: numa peça que fala sobre a luta das mulheres e justamente no momento em que ela completa 40 anos de carreira no teatro.

Respeitada em Curitiba há décadas por um trabalho não só nos palcos como também na criação de grupos e espaços cênicos, Nena começou no ano passado a carreira de “Para Não Morrer”, baseada em Eduardo Galeano, que ganhou substância com as viagens pelo país e agora parece não ter prazo para acabar tão cedo.

No palco, sozinha, Nena interpreta uma personagem arquetípica (uma bruxa? xamã? matriarca?) que mexe apenas um braço e a cabeça durante toda a duração da peça. O restante do seu corpo está inteiro imobilizado: sobra-lhe a voz, para falar “daqueles que vieram antes de nós”.

“Acho que esse é um ponto importante do espetáculo”, diz Nena. “É basicamente um texto que eu tenho que fazer as pessoas ouvirem. Não tem nada para distrair. Não tem cenas, eu não levanto, não tem nada, só as palavras”, diz ela.

Segundo ela, o texto segura a plateia pela importância de “valorizar as pessoas e suas lutas”. “Inclusive as lutas das pessoas que estão na plateia. “Pra onde vão as coisas minúsculas que suportamos, quem fala delas?”, pergunta a atriz.

O texto fala basicamente sobre mulheres que lutaram pela justiça, pela liberdade, e que em alguns casos deram sua vida por isso. Não à toa, depois do assassinato de Marielle Franco, Nena achou por bem incluir uma menção à vereadora morta. “Mas falo pouco dela, não preciso contar essa história, que todo mundo conhece.”

Segundo Nena, o prêmio, sem dúvida o mais importante do país, valida a opção dela pela carreira teatral. “É uma legitimação. Eu só fiz teatro na vida, e isso mostra que é possível fazer essa escolha de vida, que é possível resistir. Criei meus dois filhos assim, mesmo em Curitiba, que é um lugar onde não se vive de bilheteria”, diz.

A peça também vem num momento importante do país, quando assume um governo que tem muito da repressão questionada pelo texto. “Estou um pouco cansada de ficar falando desse governinho. Tudo que a gente conquistou está perdendo rapidamente”, diz.

“Mas vou continuar fazendo o meu trabalho, que é contra esse tipo de mentalidade, de instrumentos, de ação, de violências. Vou fazer essa peça em Curitiba, correr a América Latina. Vou fazer essa peça até ficar torta de verdade”, brinca.

Na sequência, ainda no ímpeto de resgate da memória, Nena pretende fazer uma peça sobre o delegado Fleury, um dos grandes nomes da repressão e da tortura na ditadura de 64.

Serviço:

Para Não Morrer
Dias 5, 6 e 7 de abril às 19:00 em Teatro Lala Schneider – Sala Edson D’Ávila (Rua Treze de Maio, 629 Centro)
Ingressos: R$ 50

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