Ver “O poço” dói no estômago | Jornal Plural
12 abr 2020 - 18h30

Ver “O poço” dói no estômago

Filme da Netflix cria metáfora para falar da vida em sociedade

Goreng (Iván Massagué) abre os olhos e se depara com sua nova realidade: um cubículo de concreto, uma cama de cada lado, um companheiro de cela e um poço. Uma espécie de prisão vertical – todos os dias, uma plataforma cheia de comida faz paradas em cada nível. “Os de baixo” comem os restos dos “de cima”. Cada dupla passa um mês no nível, ao fim dos trinta dias, acordam em outro – pode ser acima, pode ser baixo. Ninguém sabe.

Abaixo do nível 50 – um número intermediário – a comida já é escassa. Não só por ser insuficiente, mas porque “os de cima” pisam nos alimentos, cospem, comem mais do que necessitam para viver, destroem as sobras que poderiam alimentar outros. Tudo, é claro, faz uma perfeita metáfora para o funcionamento da sociedade em que vivemos.

Há apenas duas regras no “Poço”: você come enquanto a plataforma estiver no seu nível, e só; cada pessoas tem direito a levar um único objeto consigo – que pode ser qualquer coisa. Aos poucos, Goreng vai aprendendo os acordos não escritos desse sistema, e o preço que a fome a loucura cobram.

Lembra um pouco a plataforma da peça “Aquele que cai” (“Celui qui tombe”): a constante inconstância das circunstâncias. Momentos altos, baixos, medianos. Companhias distintas. Mesmo ilustrando uma situação inicialmente distópica, as similaridades simbólicas com a realidade estão ali: o passar do tempo; o tédio; a convivência; o acordar, dormir, comer; a forma como as pessoas tendem a se ajustar em uma sociedade – não importa qual seja.

É desconfortável. O filme trata de uma ficção – não é real. Claro. Mas não é sequer a violência física e gráfica que dói no estômago ao fim dos 94 minutos do filme espanhol. Também não é a tensão e o alívio que tomam conta de Goreng a cada despertar em um novo nível. A angústia e o peso de assistir “O Poço” vem de uma percepção simples: de que, se cada um fizesse sua parte, ninguém estaria na pior das situações.

“É meu direito”, bradam alguns dos prisioneiros enquanto pisam e destroem alimentos. “Eu estava lá embaixo, aqui em cima, vou aproveitar.” Ou ainda: “os outros 340 indivíduos de cima são responsáveis, não eu”. O que mais dói é a incapacidade dos seres humanos de, em meio a uma situação extrema, olharem além de si mesmos. Seria coincidência qualquer semelhança com a realidade?

Serviço

“O Poço” está em cartaz na Netflix. Falado em espanhol, o filme tem 94 minutos, classificação de 16 anos e cumpre bem o papel de suspense psicológico.

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