Universidade guarda relíquia de cinema curitibano | Jornal Plural
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18 mar 2020 - 19h34

Universidade guarda relíquia de cinema curitibano

Paradeiro da calçada da fama que ficava diante do Cine Vitória era desconhecido; alguns dias atrás, surgiu a informação de que ela ainda existe e está sob os cuidados da Unespar

Do subsolo de um prédio, no Centro de Curitiba, veio à tona dias atrás uma informação cinematográfica (e ao mesmo tempo um respiro do noticiário tenebroso sobre a pandemia): partes da calçada da fama do extinto Cine Vitória ainda existem e estão guardadas no lugar onde foi a sala de cinema até 1987 e hoje é uma sede da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

A informação, compartilhada pelo cineasta Fernando Severo no Facebook, partiu da historiadora Ana Paula Peters, durante a aula inaugural do mestrado em cinema e artes do vídeo, no último dia 10. Peters é diretora da Cultura da Unespar, universidade criada em 2013 a partir da união de sete faculdades paranaenses, incluindo a Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap) e a Faculdade de Artes do Paraná (FAP). “Fim de um mistério!”, disse Severo no post que teve muitas reações, comentários e compartilhamentos.

Quem ministrou a aula inaugural foi o professor João Luiz Vieira, da Universidade Federal Fluminense. Peters conta que ela e o pró-reitor de Extensão e Cultura da Unespar, Eloi Magalhães, depois da palestra, sabendo do interesse de Vieira sobre cinemas de rua, convidaram o professor para conhecer o antigo Cine Vitória, hoje um auditório da Unespar, mas com a mesma estrutura de antes, incluindo tela, palco e poltronas.

O passeio, realizado na manhã do dia seguinte, incluiu uma visita à casa das máquinas, embaixo do auditório do antigo cinema. Nesse espaço com tubulações aparentes e relógios medidores, paredes e chão de concreto nu, o grupo de visitantes pôde ver uma relíquia de Curitiba: fragmentos da calçada da fama do Cine Vitória, uma sala famosa pelas projeções de alta qualidade. “Era um dos poucos [cinemas] que fazia projeções em 70 mm, a melhor bitola existente, numa tela enorme e com som estereofônico perfeito”, explica Severo, numa conversa com o Plural. “Assistir ao ‘2001’ [de Stanley Kubrick] lá foi uma das experiências sensoriais mais deslumbrantes da minha vida de cinéfilo.”

Para ter uma ideia da diferença, tenha em mente que os filmes exibidos hoje pelos cinemas são em formato digital e 35 mm, metade da bitola do 70 mm, o que implica em qualidade inferior de imagem. Quando Quentin Tarantino fez questão de produzir “Os Oito Odiados” em 70 mm, em 2016, não havia mais nenhum cinema no Brasil que pudesse lidar com o formato. Nos Estados Unidos, apenas 96 salas (de um universo de quase 40 mil) conseguiram exibir o filme da forma que o diretor queria.

Severo fez parte do grupo foi até a Unespar na manhã do dia 11. Peters leu um post que o cineasta tinha feito, tempos atrás, perguntando sobre o paradeiro da calçada. Depois de sair do Cine Vitória, os blocos de concreto foram levados para a lateral do Teatro Guaíra e, mais tarde, removidos para a instalação de uma central de ar condicionado. Desde então, ninguém sabia dizer o que tinha acontecido com a calçada da fama.

O Cine Vitória fazia projeções com filmes de 70 mm, a melhor bitola existente, numa tela gigantesca e com som estereofônico de alta qualidade.

Tribunascope

Nos anos 1960, o jornal “Tribuna do Paraná” criou a premiação Tribunascope, uma espécie de Oscar curitibano (as ambições eram grandes naquela época) que teve edições realizadas primeiro no Cine Ópera e, depois, no Cine Vitória. A exemplo do primo rico, o Tribunascope premiava os melhores filmes, atores e atrizes do ano, usando como base as produções que passavam pelo circuito de Curitiba.

Um grupo de pessoas influentes que incluía João Feder, fundador da “Tribuna”, o jornalista Henrique Lemanski e seu contato, Harry Stone, espécie de embaixador da Motion Picture Association (MPA) no Brasil, conseguiu colocar em pé uma edição do Tribunascope que marcou a vida da cidade como as outras edições não conseguiram.

(A história foi contada por Aramis Millarch em um texto publicado pelo “Estado do Paraná” em 3 de março de 1991.)

(Quando Stone se aposentou, em 1995, o jornalista Sérgio Dávila publicou uma entrevista extensa com ele na “Folha de S.Paulo”. Foi quando o americano admitiu ser um lobista de Hollywood na América Latina. Stone morreu no ano 2000.)

João Feder, da “Tribuna do Paraná”, ao lado de Janet Leigh.

Usando sua influência, Stone conseguiu encaixar Curitiba na agenda de dois astros emblemáticos dos anos 1960: Anthony Perkins (1932-1992) e Janet Leigh (1927-2004), que viajaram para o festival de Mar del Plata, na Argentina. O par havia acabado de trabalhar em “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock: ele, no papel de Norman Bates e ela, no de Marion Crane (assassinada na cena do chuveiro).

Logo depois do Hitchcock, Perkins fez “O processo” (1962), de Orson Welles, inspirado no livro de Kafka. E Janet Leigh foi trabalhar ao lado de Frank Sinatra no filme “Sob o domínio do mal” (1962), de John Frankenheimer.

Reprodução de jornal mostra Anthony Perkins sorrindo para a câmera, cercado de fãs.

Essas referências mostram que ambos eram do primeiro time de Hollywood. Então a vinda deles para Curitiba não era pouca coisa. Na conversa com Fernando Severo, pedi para ele fazer uma comparação: qual seria o equivalente de hoje a receber Leigh e Perkins na cidade? “Robert Pattinson e Kristen Stewart”, respondeu o cineasta, citando o ator e a atriz que fizeram fama com a cinessérie “Crepúsculo” (2008) para depois seguir carreira trabalhando em filmes alternativos dirigidos por David Cronenberg e Olivier Assayas. (Stewart trabalhou também com o brasileiro Walter Salles na adaptação de “On the road”, de Jack Kerouac, para o cinema.)

Episódio querido

Pois na noite do 13 de abril de 1964, o Cine Vitória, logo ali, perto da rua Pedro Ivo, a duas quadras do Terminal Guadalupe, recebeu Janet Leigh e Tony Perkins. E Karl Malden (1912-2009), um coadjuvante respeitadíssimo, com um nariz indefectível, que trabalhou ao lado de Marlon Brando em “Sindicato de Ladroes” (1954). E também Jece Valadão (1930-2006), um dos principais atores do cinema brasileiro de antanho. 

Para marcar a data, todos deixaram impressões de suas mãos e assinaturas no cimento do Cine Vitória. Assim Curitiba ganhou sua própria calçada da fama – não tão grande quanto a do Hollywood Boulevard, com mais de 2,6 mil estrelas, mas ainda assim um episódio notável da história local, e querido por um monte de gente.

Depois que o Cine Vitória fechou, em 28 de janeiro de 1987 – Severo conta que foi o último espectador a sair da derradeira sessão do cinema, e o filme era “Gandhi” –, o prédio foi vendido para a administração pública, deu origem a um Centro de  Convenções e a calçada foi parar na lateral do Teatro Guaíra, depois removida de lá em meados dos anos 1990 por causa de um ar-condicionado, e depois sumiu de vista, para ser redescoberta recentemente pelos professores da Unespar.

A laje de Tony Perkins, datada de 13 de abril de 1964.

Além de Ana Paula Peters, Eloi Magalhães, João Luiz Vieira e Fernando Severo, o grupo reunido para visitar o antigo Cine Vitória tinha também o professor Eduardo Baggio, coordenador do mestrado em cinema, e profissionais do Museu da Imagem e do Som, incluindo Cristiane Senn, diretora do MIS-PR. Além de visitar o antigo Cine Vitória, o grupo atravessou a rua para ir ao MIS e ver uma série de imagens sobre o Tribunascope.

Diante da calçada da fama, Vieira comparou a experiência a uma descoberta arqueológica. Foi como entrar “na tumba de um faraó”, brincou Severo, no relato que publicou no Facebook.

Pedra de Karl Malden é uma das mais bem conservadas.

Cimento fresco

Os fragmentos da calçada parecem estar em bom estado, sobre um suporte junto à parede da casa de máquinas, no antigo Cine Vitória. Alguns estão dispostos como se fossem um quebra-cabeça de pedra. As assinaturas não são bem assinaturas, mas o que os atores conseguiram fazer sobre o cimento fresco. As letras são toscas, quase infantis. Na laje quebrada de Janet Leigh, resta só um “NET LEIGH” – porque o “JA” se foi. A de Tony Perkins está quase inteira, com o “S” final rachado ao meio. A melhor assinatura – e também a que está em melhor estado – é a de Karl Malden, que deu um jeito de escapar das letras de forma.

Lembrança de Janet Leigh: “NET LEIGH”; o “JA” se foi.

Por hora, a calçada da fama permanece guardada na Unespar, mas uma exposição deve ser organizada ainda neste ano, para mostrar ao público as relíquias do Cine Vitória e as histórias em torno delas.

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