Uma poesia que se projeta nos animais | Jornal Plural
5 nov 2020 - 9h32

Uma poesia que se projeta nos animais

A argentina Alfonsina Storni viveu tentando garantir sua liberdade e sua poesia

“As mulheres solteiras sonham de vários modos./ Umas sonham com joias outras sonham com flores,/ outras sonham com vagos e tímidos amores./ São meus ardentes sonhos tão diversos de todos!// Porque é o meu desejo resistente a toda rédea […]”. Assim inicia o poema “Sonhar”, escrito em 1927 por Alfonsina Storni (1892-1938). Esses versos parecem resumir de certa forma o perfil da poeta, nascida na Suíça e radicada na Argentina, que rompeu com os padrões da sociedade e com o papel que cabia às mulheres de sua época.

“Sonhar” faz parte do livro Sou uma selva de raízes vivas, uma antologia inédita de poemas de Alfonsina Storni, organizada e traduzida do espanhol, língua escolhida por Storni, para o português, por WilsonAlves-Bezerra.

Storni foi poeta, dramaturga, ensaísta, atriz e professora, mas, antes de tudo, foi uma mulher independente, que trabalhou para pagar seus estudos e criar um filho, mas nunca se casou. Em razão de suas escolhas pessoais, nem sempre foi bem-vista pela sociedade argentina. Sua dedicação à carreira estava em primeiro lugar.

Quando Horacio Quiroga a convidou para morar com ele no interior do país, ela não aceitou, pois sabia que abandonar Buenos Aires era deixar para trás a vida cultural fundamental ao seu ofício: “Homenzinho miúdo, homenzinho miúdo,/ Solta o seu canarinho que ele quer voar…/ Eu sou o canarinho, homenzinho miúdo,/ Me deixa pular”. Esses versos não foram feitos para Quiroga, mas para qualquer um que lhe quisesse prender.

Horácio Quiroga

Apesar de sua obra ter alcançado popularidade, Storni não contou com a simpatia e o apoio de grandes intelectuais da época como, por exemplo, Jorge Luis Borges. Contudo, nada a impediu de continuar produzindo, pois sabia que, como se lê em “Lápide”, apesar de tudo estar acabado, ainda lhe restava a palavra.

Em alguns poemas que compõem esta antologia, Storni parece esquivar-se de falar diretamente da relação entre homem e mulher, e um deles é sempre representado por um animal ou um inseto. Talvez a poeta tenha se valido desse recurso para explorar mais livremente o erotismo e outros temas considerados tabus. “Vem, dor” inicia com os seguintes versos: “Tua asa de corvo/ acerta minha face”, e conclui com “[…] e tua asa será o gérmen caído no regaço da terra em que brota minha poesia”. 

Em “A Loba”, a voz poética se vê como uma loba que deixou o rebanho de ovelhas, pois teve “um filho fruto do amor, amor sem lei,/ que como as outras não pude ser, casta de grei”. Mas adverte as mansas ovelhinhas a não temerem a loba, pois “ela não lhes fará nenhum mal./ Mas também não riam, os dentes dela são finos”. Storni seria, a meu ver, essa loba de dentes finos, que não permitiu que nada nem ninguém a impedisse de viver segundo suas convicções.

A antologia apresenta, sobretudo, uma poeta que fala de amor, mas sua obra não se resume a esse tema específico. Talvez seja preciso que mais textos de sua autoria sejam publicados para que o leitor se dê conta da múltipla escritora que ela foi.

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