Um projeto para descolonizar a Língua Portuguesa | Jornal Plural
6 fev 2021 - 15h10

Um projeto para descolonizar a Língua Portuguesa

‘Não Fale a Língua do Racismo’ foi desenvolvido por estudantes de Jornalismo de Curitiba

Cento e trinta e três anos é pouco tempo para desmantelar a cultura racista construída durante mais de três séculos no Brasil. Herança desse período, o pensamento colonial dita até hoje a maneira como a população se comporta, pensa e fala. Todos os dias, mesmo que inconscientemente, os brasileiros reproduzem expressões racistas que contribuem para a perpetuação da discriminação racial.

Na busca por reverter este cenário, um grupo de estudantes de Jornalismo da Universidade Positivo (UP), em Curitiba, criou o “Não Fale a Língua do Racismo”, uma série de vídeos que explicam expressões preconceituosas da Língua Portuguesa e indicam sinônimos para substituí-las. 

“O racismo está presente nas nossas vidas. Isso faz parte da nossa cultura porque está na nossa língua, e a gente nem percebe. São expressões que reafirmam estereótipos e trazem em si uma carga muito negativa. É necessário desconstruir isso. E esse é o objetivo do ‘Não Fale a Língua do Racismo’“, afirma o idealizador do projeto, Higor Paulino.

O estudante conta que a ideia surgiu a partir de uma série de reflexões que os alunos foram estimulados a ter ao longo da disciplina de Mídia, Gênero e Etnia. Inspirado pela leitura do Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro, Higor produziu um vídeo que logo se transformou em um projeto maior com a ajuda da professora e de outros alunos.

Na visão do estudante, a linguagem é influenciada por uma série de fatores, como por exemplo região, época e classe social de determinada pessoa. “Eu acredito que a forma como a gente se expressa tem relação com a nossa identidade. A linguagem é algo cultural e pode ser muito carregada de violência”, afirma. 

Para Higor, além de revisar e desconstruir esses termos, é preciso buscar outras formas de comunicação. “Além de estimular que o nosso público pense criticamente sobre o vocabulário que tem, a gente também passou a pensar mais criticamente sobre essas expressões.”

Sandra Nodari, professora que leciona a disciplina, ficou tão encantada com a proposta que buscou uma parceria com uma rede televisiva para exibir o trabalho. “Sempre que uma boa reportagem ou um bom vídeo é produzido em sala de aula, eu negocio com os interlocutores do Canal Futura a possibilidade de exibição. Este é um processo demorado, de negociação, que tem de respeitar as exigências técnicas da emissora e também o registro na Ancine (Agência Nacional do Cinema). Tudo isso leva tempo, mas é interessante quando estudantes podem participar deste processo”, afirma.

Para ela, debater temas como racismo, masculinidades e feminismos com os alunos em sala de aula foi algo transformador. “O processo todo foi encantador. Uma disciplina teórica produziu discussões excelentes e resultou em programas educativos que vão instigar as pessoas a pensar sobre como evitar palavras racistas”, conclui. 

“Não Fale a Língua do Racismo” será exibido semanalmente no Canal Futura. O primeiro dos oito episódios foi ao ar nesta sexta-feira (5), às 22h. A série está disponível, na íntegra, no site do Futura Play.

Expressões que descendem do período escravocrata brasileiro:

Criado Mudo

O nome do móvel que é colocado na cabeceira da cama se refere ao escravizado que ficava em pé, ao lado da cama do senhor, geralmente segurando água e objetos durante toda a noite, em silêncio. 

Mulata

O termo se refere à mula, animal originado do cruzamento entre a égua e o burro. Assim eram chamadas as filhas bastardas dos senhores com as mulheres negras escravizadas.

Nhaca

Inhaca é uma ilha em Moçambique, onde vivem os Nhacas, do povo Bantu. No entanto, a palavra nhaca é usada para se referir a algo fétido.

Nega Maluca

A expressão nega maluca faz referência a um bolo de chocolate. No entanto, ela reflete um estereótipo pejorativo da mulher negra.

A coisa tá preta

Esta expressão reflete a associação entre o “preto” e uma situação ruim, complicada, difícil, perigosa. 

Meia tigela

Quando os negros escravizados não conseguiam atingir a “meta” em seus trabalhos recebiam como punição apenas metade da tigela de comida. Eles eram apelidados de “meia tigela”, que hoje significa algo de pouco valor e/ou medíocre. 

Doméstica 

A palavra era utilizada por patrões brancos para classificar as mulheres negras escravizadas que trabalhavam para eles e eram domesticadas por meio da tortura.

Não sou tuas negas

Esta expressão remete à mulher negra como alguém com quem se pode fazer tudo. Na escravidão, elas eram consideradas “propriedades” dos seus senhores, homens que as agrediam, assediavam e estupravam sem que nada acontecesse contra eles.

Colaborou: Maria Cecília Zarpelon

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79 comentários sobre “Um projeto para descolonizar a Língua Portuguesa

  1. Pra concordar com tudo isso que está escrito é preciso ser um verdadeiro fanático.

    Reportagem feita por extremistas e divulgando extremistas positivamente. Triste no que o nosso país se transformou.

    1. Realmente, Christopher, é muito triste no que o país se transformou: um lugar em que as pessoas não têm mais vergonha de se mostrar ignorantes e intolerantes. O mundo mudou, amigo. Acostume-se com a diferença. Dói menos.

      1. Eu nunca relacionei a frase a coisa tá preta. com um humano. e sim com a escuridão, em não poder ver. Não da para acabar com a escuridão ela existe. Os seres humanos são tão estranhos.

    2. Sabe o que os malvados tomavam naquela época? ÁGUA. Isso mesmo. Então vamos todos parar de beber água, pois isso lembra toda a maldade que se cometia na época da escravidão. ( Pelo amor de Deus, parem de querer inventar a roda, visitem asilos, façam doações, adotem um órfão, trabalhem pela sua comunidade)

      1. Pessoal, menos! Vamos focar nossa energia, tempo e determinação em algo que realmente faça a diferença. Infelizmente, algumas palavras e expressões, da nossa língua, foram inseridas de forma discriminatória em um outro tempo, mas, no tempo presente, há urgências bem maiores que demandam a nossa atenção! Como falaram acima, a roda já foi inventa!

    3. Engano seu, pois nossa língua é riquíssima de significado e na reportagem acima mostra apenas uma pequena amostra das palavras e os significados atribuídos pela época, função associada e etc.
      Ainda há uma parte que foi esquecida ou deve ter caído em desuso. Precisamos é estimular nossos estudantes para um melhor desenvolvimento da educação e do educando. Parabéns pela iniciativa!

    4. A reportagem fala abertamente sobre as marcas sociais do linguagem desenvolvida dirante os tempos de escravidão.
      Talvez você não se sinta afetado, mas outras pessoas podem. O mínimo que se pode ser feito é ter empatia para compreender o sofrimento alheio e tentar evitar o uso de expressões pejorativas. Isso não mudaria em nada sua vida, enquanto melhoraria a vida de outros.

    5. Meu amigo, calma lá com esse papinho de “extremista”. Ninguém está dizendo que você é um racista malvado pelos simples fato de chamar a cabeceira de criado-mudo. O texto se trata apenas de mostrar a origem racista dessa expressões. Se vc fala um termo de origem racista por desconhecimento não significa que vc é racista. A proposta aqui é informar e refletir sobre a herança colonial na nossa cultura.

      1. Eduardo, não estão? Querem disseminar uma única significação para esses termos e execrar, rebaixar, banir da vida pública todos aqueles que se recusarem a aceitá-la. Leia um pouquinho mais os comentários abaixo e verás que, para muita gente adepta dessa novilíngua, quem não aceitar essa empulhação toda de cabeça baixa é tachado imediatamente de racista…

        Exemplos aqui nesta mesma seção de comentários:

        Jones disse:
        7 de fevereiro de 2021 às 05:25
        O rascista sempre vai se posicionar ao contrário… Parabéns pelo estudo.

        Manoela disse:
        7 de fevereiro de 2021 às 07:33
        Infelizmente existe até hoje e só tem um nome para quem discorda de um trabalho de pesquisa científica Universitária tão bom quanto esse: Racista!

        Hilda Maria Alves Marcelino disse:
        7 de fevereiro de 2021 às 11:57
        Os racistas sempre são do contra. Parabéns aos envolvidos na pesquisa. Saber nunca ocupa lugar e ainda ajuda a compreender o momento atual. Material bacana para a sala de aula! 😉

        Elenice Maria da Conceição Nascimento disse:
        7 de fevereiro de 2021 às 13:49
        Parabéns aos envolvidos neste projeto!
        A desconstrução do racismo realmente se inicia no discurso, na linguagem racista que está incrustada e assim, negada!
        ***Negar a existência do conteúdo apresentado por vcs é não querer se enxergar enquanto indivíduo racista*** que utilizam termos como estes apontados e outros tantos, pra demarcar o lugar do negro na sociedade.👏🏾👏🏾👏🏾

        Só não vê quem não quer.

  2. Sou branco e sou casado com uma negra. Nossos filhos são mulatos e não tô nem aí se a origem vem de mula, quando as pessoas da nossa época dizem mulato não associam às mulas. Acho tudo isso desnecessário.
    A própria bíblia se refere à escuridão como algo ruim, em sentido figurativo, mas jamais em relação à cor de pele. Do mesma forma, quando algo está difícil não é racismo algum dizer que a coisa tá preta.
    Enfim, é um tal de dia da mulher negra, sendo que já existe o dia das mulheres, independente de cor, chamar uma negra que se relaciona com um branco de palmiteira, e agora até as expressões comuns do cotidiano querem incriminar. Acho que tudo isso só faz haver mais separação ao invés de união.

    1. Eu nem sei o que dizer com tal insanidade. Parece que a humanidade tem uma dívida impagável para com a pessoa negra. O problema é que esse tipo de posicionamento, isto é , querer tomar as dores deles, os fazem ainda mais vítimas, como se eles não fossem independentes de andarem com as próprias pernas.
      Certos indivíduos transformaram a causa negra quase que numa religião fundamentalista e dogmática. Querem a todo custo catequizar as pessoas.
      Ridículo!

  3. Comecem por parar de usar a palavra escravo para se referir a negros. Pois escravo vem de ESLAVO, que eram brancos. Isso vocês não pesquisam, né? Ah, e mulato não tem nada a ver com mula, mas com mescla.

    1. Com essas idéias mega inteligentes dessas pessoas ..daqui a pouco vao proibir a cor preta..não vai poder ter roupa preta , carro preto.. Eu sugiro aos estandes, que devem ter na faixa de 18 a 24 anos , assitir as novelas , Sinhá moça, Escrava Isaura, para intender quem é que colocou no subconsciente da sociedade como se deve tratar o negro . Nas novelas da Globo , vcs já viram , médico Negro, grandes empresarios negros , a globo durante décadas sempre protagonizou o lugar do Negro ,

  4. Quanta besteira .Atitudes como esta, só incentivam e acirram ânimos. O famoso “nós ” contra “eles”. Está na hora de parar com isso.

  5. Enfim, acho que não fez muito sentido não. Há outras coisas bem mais interessantes que essas pessoas poderiam se preocupar para fazer com que a sociedade brasileira seja melhor para viver.
    Daqui algum tempo, não poderemos mais nos comunicar, pois tudo será entendido como “ataque”, “ofensa”, “racismo” e “preconceito”.

  6. Não sou negra, mas posso imaginar o sofrimento que passam no dia-a-dia. É interessante saber a origem das expressões que usamos. E mais interessante ainda é parar de usar esse tipo de vocabulário, o qual vem de um passado tão perverso. É claro que a adaptação demora, afinal, são anos de uso. Mas acho bem bacana a gente ter consciência do que está sendo dito. E tomar uma atitude diferente dessas de hoje.

  7. Achei interessante esses significado das palavras, mas está tão enraizadas na cultura que fica difícil desconstruir essa forma de falar que muitos não sabem a origem delas. até negros também falam.

    1. O legal é que esse discurso nao se sustenta. Apenas um modo de gente sem o menor valor tentar ganhar seus likes pela gritaria e pela imposicao a força .
      Porem, os proprios caga regras estao sendo engolidos por suas proprias regras.
      E nos, gente normal, só apreciando tudo de camarote.

  8. Você talvez possa estar enganado no que diz, já eu posso ter certeza (sem te conhecer) que você não é uma pessoa negra. A princípio não se é possível fazer todos concordarem com a ideia de desconstruir o preconceito na sociedade, pois está enraizada na cultura. Para cortar esse mal pela raiz vai precisar de muita leitura, muito incentivo, e muitos projetos como esse; o qual está aqui apresentado. Parabéns a todos que levantaram esse projeto! Observação: eu não sou negra, pois não precisa ser para enxergar e lutar pelo respeito entre pessoas.
    Abraços!

  9. Quem conhece e trabalha com línguas sabe que as palavras ganham vida e não permanecem com o mesmo sentido no decorrer da história. Acho extremamente forçado atribuir a cada expressão unicamente o sentido inicial sem considerar sua evolução e o contexto em que as palavras são utilizados. Palavras “isentas” podem ser utilizados pejorativamente, se inseridas em contextos pejorativos.
    Esses estudantes e professores deveriam preocupar-se mais em estimular o uso correto e humano da língua e não em querer desconstruir nosso Português, já tão machucada pela ignorância e má formação cultural do nosso povo.

    1. Perfeito!! Assino embaixo!!! A língua é viva, o significado muda! O que era antes, agora ninguém mais atribui o mesmo valor!
      Chega de incrementar o racismo!!!

  10. A meu ver, a matéria é, atualmente, bastante complexa e exige análise ampla e multidisciplinar. Analisando os exemplos apresentados , pergunto -me: será que o significado atual do uso das palavras têm o mesmo sentido do de século/ séculos passado/s…!?

  11. Infelizmente existe até hoje e só tem um nome para quem discorda de um trabalho de pesquisa científica Universitária tão bom quanto esse: Racista!

  12. Christopher, discuta as ideias e não as pessoas. Explique para m8, outro leitor porque discorda das ideas da reportagem.
    Estou interessado em ouvir.
    Abçs

  13. Matemática, física, biologia e outras matérias realmente libertadoras da mediocridade do ensino brasileiro também receberão uma atenção especial?

  14. Prezado, parece-me que o verdadeiro fanático ou simplesmente estúpido é você por dizer tal injúria. Somos um país racista, fomos forjados nele, o último a pôr fim, contra a vontade, com o sistema escravagista, embora perdure até nossos dias. Leia, pesquise e se informe antes de falar merda. Quem fez esse projeto foi gente séria, pesquisadora, estudiosa, empática. Faço um exame de consciência. Tá precisando.

    1. Oi Francisca, tudo bem? Sou coordenadora do Plural e queria manter esse espaço como um local de debate construtivo. Eu sei que muita coisa nos tira do sério ultimamente. Mas vamos manter o nível do debate alto? Sem palavrões, sem ataques pessoais?

      Muito obrigada

      1. As pessoas tem que mudar é o seu interior porque lá dentro a cor é a mesma.
        Temos que aprender o que é respeito e educação.
        Não podemos mudar a história mas podemos construir uma forma nova de comportamento entre as pessoas através da educação.

  15. De vez procurar acabar com o racismo real, querem matar o português, o racismo é estrutural, façam algum projeto para que as crianças aprendam des de criança, não é assim que se acaba com o racismo

  16. Comece então retirando todas as palavras latinas do português já que ele se deu pela dominação Romana.
    Depois tire também as palavras árabes, tipo alface, alicate, etc, que se colocaram durante a dominação Moura (africanos do norte) por mais de 700 anos.
    Aí a gente vai sobrar com a língua quase pura, lusitana. Quase por que ainda teria que tirar várias palavras francesas e inglesas, e cavacar algumas remanescentes da assimilação celta de milhares de anos atrás.
    Boa sorte.

    1. É importante perceber que as palavras em sua origem tem influência psicológica no nosso subconsciente . Além de seu péssimo significado, elas soam muito mal esteticamente. Devemos escolher palavras mais bonitas com uma estética fonética mais agradável de preferência as palavras com paroxítonas e proparoxítonas.

    2. Ahh e lembrando os Lusitanos eram CELTAS antes da conquista da Hispania pelo Império Romano.

      A lingua pura não existe mais, foi engolida.

      E essa discussão desse povo é pura bobagem. A linguagem muda pelo uso corrente, não pela força de material acadêmico, já viram quantos % dos Brasileiros nem ensino superior têm… vão brigar por coisas mais sérias como ensino de qualidade pra todos. Isso sim acaba com desigualdade.

      Revisionismo histórico linguístico inutil. O nosso Sermo Vulgar não quer saber de Sermo Nobilis acadêmico. Quer trabalho e comida na mesa. Aliás outro nome pra expressões idiomáticas é IDIOTISMO.

  17. Compreender de onde vem as expressões nos ajuda a entender mais sobre nós mesmos.
    Parabéns para a professora Sandra e todos os estudantes envolvidos.

  18. Os racistas sempre são do contra. Parabéns aos envolvidos na pesquisa. Saber nunca ocupa lugar e ainda ajuda a compreender o momento atual. Material bacana para a sala de aula! 😉

  19. Brasileiro como sempre crítico, reclama de tudo, a maioria aqui por exemplo eu, não temos um grão de conhecimento profundo sobre racismo, por que a maioria aqui não sofre, São brancos, mais negar que não adianta mudar por que está enraizado é coisa tipica conservadorismo atual implantado nesse país, que é negacionismo total do conhecimento, preconceitos, tipico de racista, tenho vários familiares chamam gente e animais sentido agressivo, declados racistas expressões neguinha, pretinha, isso é serviço de branco, lembrando Indio, tribo, também são, se deve usar indígenas e etnias.

  20. Parabéns aos envolvidos neste projeto!
    A desconstrução do racismo realmente se inicia no discurso, na linguagem racista que está incrustada e assim, negada!
    Negar a existência do conteúdo apresentado por vcs é não querer se enxergar enquanto indivíduo racista que utilizam termos como estes apontados e outros tantos, pra demarcar o lugar do negro na sociedade.👏🏾👏🏾👏🏾

  21. Interessante. Há um link com mais informações?
    Sempre fui curioso sobre as conotações negativas de “humor negro” e a “situação tá preta” e a positiva de “ganhar uma nota preta”.

  22. Como trabalho acadêmico, é válido, como qualquer outro.
    Mas concordo com quem disse ser um tema desnecessário e só servir para acirrar os ânimos.
    De uns tempos pra cá parece que tudo passou a ser visto por alguns, como preconceito, racismo, discriminação.
    Tenho 63 anos, hoje sou aposentado, mas já fui professor de História e já lecionei a disciplina Cultura Brasileira. Fazia parte do programa a Formação do Povo Brasileiro, onde mulato aparece como o resultado da miscigenação racial entre brancos e negros. Não me consta que tenha sido criado outro termo para definir essa miscigenação racial. E quando esse tema era lecionado, não se estava discriminando quem quer que seja.
    A meu ver, o Movimento de Consciência Negra no Brasil, tem criado um melindre excessivo a tudo o quê se refere à questão racial. Isso não contribui em nada.

    1. A geraçåo Paulo Freire não existia nessa época, todos os professores que nos ensinaram eram “ignorantes” e formaram “idiotas” que não sabem pensar. Infelizmente isso vai longe ainda pois não será o suficiente para acalmar o furor reformista dessa galera trocar o significado das palavras o verdadeiro objetivo é amordaçar as pessoas torná-las servos de ideologias. Alguns já estão prontos.

  23. O artigo inteiro é baseado em uma falácia argumentativa conhecida como falácia etimologica (tentar invalidar uma posição pois ela tinha um significado ruim quando foi concebida).
    Se essas palavras não tem mais o mesmo significado racial pejorativo que haviam antigamente (por exemplo, nega maluca), o agumento cai por terra.

    1. Por sinal nega maluca deveria ser considerado positivo.

      É um dos melhores bolos que tem.

      Outra até a palavra DOIDO tem conotação positiva hoje. E sabemos que doido é sinônimo de maluco.

      Muito Doido esse Bolo Preto hein!

  24. Eu escolho parar de usar expressões racistas e descolonizar meu dialeto.
    O projeto é lindo e se vc se sente incomodado e que esse projeto é “coisa de extremista” vc com certeza tem algo de errado.

  25. Utilizei algumas destas palavras ao longo da minha vida sem conotar rascismo. A palavra mulata, por exemplo, sempre estava associada a sua beleza, graça e charme. Sargentelli hoje seria apedrejado. A expressão “Casa do caralho”, atualmente é um palavrão, mas significava no passado ao lugar no alto dos mastros das embarcações, de onde os marujos poderiam avistar terras ao longe. A lingua é viva e creio que pode haver um extremismo nesses estudos, sem querer invalidar o mérito pelas pesquisa dos estudantes.

  26. Quase quatrocentos anos de invasão ao continente africano, sequestrando pessoas, deixando órfãos e uma herança maldita de guerras e fome.
    Quase quatrocentos anos da imposição de todo tipo maldade (assassinatos, torturas, estupros e escravização).
    Quase quatrocentos anos em que o povo negro foi impedido de desenvolvimento com igualdade.
    Tal projeto tem um valor imenso na luta por um país mais justo..
    Parabéns.

  27. O que entendi deste trabalho acadêmico é a intenção de discutir a reaildade (que é um dos maiores benefícios de se estar na vida acadêmica), neste caso, a partir do uso da língua. Partindo da empatia, algo que anda em falta e que, sinceramente, até quando a gente tenta praticar é difícil, no meio de tanta beiigerância.
    A proposta do trabalho é refletir e encarar a realidade da maior parte parte dos brasileiros que é tratada como minoria e prejudicada em todos os níveis possíveis pelo preconceito enraizado nas nossas mentes (ainda) colonizadas. Eu tive que encarar meu próprio racismo pra entender isso, pessoa branca que sou, criada em SC, onde o racismo é ainda maior que aqui em Curitiba. E começou com textos e ideias assim, então dou meu apoio a qualquer iniciativa desse tipo, ainda mais partindo de discussão acadêmica, outro espaço que me ajudou muito a construir minhas noções atuais a respeito de racismo e preconceito.

  28. Muito legal a atuação antiracismo. Sou um entusiasta, por exemplo, de ações afirmativas. Também sou um apaixonado pelas palavras, rsrs. Adoro etimologia e esse foi um dos motivos de eu ter iniciado o curso de letras, que tive que interromper em 2019.

    A ideia de evitar o uso de palavras supostamente racistas é de imensa boa fé, mas por vezes a iniciativa carece de fundo científico e isso pode abrir margem para críticas que atingem um movimento muito maior por um flanco que, para mim, é secundário. Entendo o uso político da linguagem, mas coloca ações como prioritárias, não discursos.

    Por exemplo, a o uso da palavra denegrir (que não está na matéria e por isso usei como exemplo inicial). Há discussões etimológicas importantes e complexas sobre ela. Denegrecer já existe no português medieval (anos 1200-1300), virou denigrir no século XVII e denegrir no século XVIII. Na época de 1200-1300, os escravizados em Portugal não eram negros, mas árabes prisioneiros de europeus ou europeus prisioneiros de árabes. Daí a discussão de a origem de denegrecer vir do negro no sentido do lúgubre, da escuridão, da noite, da ausência de luz, da ausência de brilho, da ausência de ver mesmo. Assim, denegrir a imagem é de fato tornar a imagem negra – negra como a noite, sem que outros a enxerguem, com menor brilho, menos visível, mais escura. Por outro lado, a palavra pode sim sofrer uma mutação semântica diacrônica, que é a suposta mudança de sentido atual em que denegrir seria algo relativo às pessoas de pele escura. Isso gera debates acalorados no curso de letras, mas linguisticamente eu concordo com quem entende que não faz sentido esse tipo de perseguição a palavras (você encontrará milhares de exemplos que usamos hoje que tiveram origem preconceituosa e hoje não têm mais e vice-versa). Mas politicamente a questão é mais complexa e aí um discurso ou outro pode servir para transmitir uma mensagem ou outra (embora, para mim, a validação do discurso está na ação, não nele próprio: é fácil dar bom dia a todos e todas e em seguida mandar a mulher negra ao seu lado buscar café para você).

    Outro exemplo ligado aos árabes e portugueses é a palavra mulato (essa sim tratada na matéria), também originária na língua portuguesa antes da escrivão transatlântica. A referência de mulato a “negros e brancos” tem seu registro somente no século XVI. Três séculos antes já havia o uso na península ibérica para filhos mestiços de árabes e portugueses, com as palavras em árabe e latim (em etimologia complementar) dando origem ao nosso vocábulo.

    Mas para ficar em outro exemplo onde não cabe nem sequer a discussão da mutação semântica: o judiar/judiação para se referir aos mal tratos que os cristão portugueses faziam quando entravam nos redutos judeus (as judiarias), como o bairro de Alfama em Lisboa. A origem é indiscutivelmente fruto de um preconceito religioso, mas autoridades judaicas, notadamente o Henry Sobel, defendia que a palavra deveria sim ser usada para que os cristão não se esquecessem do que fizeram aos judeus. Para não apagarem da memória seu passado vergonhoso e para, assim, não o repetir. A supressão da palavra, no entendimento dessa corrente, é a supressão da própria história, em mais um apagamento dos judeus. Há controvérsias na comunidade judaica sobre isso (como há também nos outros casos), mas é só para exemplificar como o debate no nível do discurso é complicado. É por isso que, como disse antes, eu sou muito mais favorável no debate no nível das ações do que no nível dos discursos. Do meu ponto de vista, falar ou não falar mulato não se relaciona com ser ou não ser racista. São os atos da pessoa que atestam ou não o racismo, não as palavras que usa. Mas esse é um ponto de vista pessoal, meu comentário é mais um alerta para que não se abram novas frentes de crítica quanto a movimentos absolutamente legítimos e necessários só porque falta à argumentação que esse movimento usa uma melhor base científica.

    Sendo mais radical, isso de discutir sem base científica a origem de palavras talvez tenha se dado porque serve pragmaticamente bem ao propósito político de alguns grupos de dentro do movimento social (seja ele qual for): funciona para o discurso, convence, desarma o interlocutor, vence o debate. Mas não é necessariamente sustentado pelo conhecimento da língua e se o interlocutor sabe disso, o efeito pode se voltar contra quem falou. De todo jeito, as armas do convencimento estão aí, cada um usa as que acha que deve usar, meu alerta é justamente porque acho o combate ao racismo fundamental e não gostaria de vê-lo atacado por um ponto acessório que pouco diz de respeito ao principal.

    PS. As fontes etimológicas que usei foram o Dicionário da origem e da evolução das palavras, do Luiz Victória; o Dicionário etimológico da língua portuguesa, do Antônio Geraldo da Cunha e A origem curiosa das palavras e/ou dos significados, do Marcio Bueno.

    1. Quem concorda com você – como eu – não tem mais nada a acrescentar pois a resposta foi consistente.

      Agora quem discorda vai ignorar e continuar com a bravata da agenda político-maniqueista da questão social. Apenas é mais fácil de discutir com alguém sem amparo acadêmico no assunto. Não raro, pessoas com boa fundamentação são jogada as margens do discurso pois não interessa que – usando como base o livro O que é Ideologia, Marilena Chauí – a lacuna da ideologia seja revelada. Pois toda ideologia tem um pressuposto e uma falha que, ao ser descoberta, quebra a ideologia.

  29. Que tal consultar um especialista _ ou, mais simploriamente, um dicionário? Pois aqui vai, conforme o Houaiss:

    1inhaca (1889 cf. DVB)
    etim.
    segundo Nasc, do tupi yakwa no sentido de ‘odoroso’

    2inhaca (a1922 cf. CF3)
    etim.
    substantivo masculino ANG
    aquele que exerce o poder supremo; soberano, rei, jaga

    Educação sem referências. Jornalismo sem apuração. Lamentável.

    1. Os dicionários comuns explicam o significado do vocabulário, e não a origem ou todas as origens da palavra. E nem todas as palavras contidas o dicionário e q usamos hj tem relação semântica com a sua origem (antes de vir parar nele.)

      1. A provável origem etimológica de inhaca, segundo nosso melhor dicionário “comum”, está no tupi – ironicamente, uma língua apropriada pelo mesmo colonizador “dono” da língua portuguesa que o pessoal aí pretende “descolonizar”. Não se trata de desconhecer as variações do uso, mas de atribuir a origem a alguma historinha de opressão – e qual a fonte? Uma pesquisa rápida mostra que tanto os dados dessa matéria quanto o material produzido para o Futura foram “pesquisados” em materiais das secretarias de igualdade racial de governos, ou no ativismo marqueteiro de empresas querendo surfar a onda antirracista. Ok, mas jornalismo – e ainda mais jornalismo “educativo” – pressupõe ouvir fontes diversas, não? Especialistas contestariam metade dessa lista de palavras e expressões, na sua etimologia já, que dirá na interpretação de seus usos ao longo do tempo. Parece, porém, que a “mensagem” militante é sempre mais importante. Só que mesmos as causas justas, ou principalmente elas, não dão passe livre para jornalismo sem apuração e educação sem referências. Lamentável.

        1. Apropriada da mesma forma que o Latim foi pelo Celtas Lusitanos; que o Grego foi pelos Romanos; Que o Grego foi pelo alfabeto Fenício…

          O nome disso não é apropriação é processo de aculturação, que sempre ocorreu em todos os momentos da história.

          Quanto tudo é distorcido apenas por agenda política é cansativo. Tô até quase mudando o nome do meu CRIADO MUDO pra SERVVS TACITUS.

  30. Em primeiro lugar: tudo é baseado em ideologias – que significa ideais- não precisam se assustar. Em segundo lugar a reportagem não está criminalizando quem usa essas expressões e sim sugerindo a quem tem uma visão mais inclusiva, generosa e/ ou para quem gosta de conhecer a origem de expressões e palavras, conhecer essas expressões que usamos.
    Quem quiser mudar seu vocabulário que mude. Se não mudar- não usando as com a origem descoberta – não vai ser punido, Rsrsrsrs. No mais descobrir causa incômodo mesmo, pior não saber ou se vir a saber, usar isso para discórdias e aumentar a sensação de estar sendo controlado por “Ditadura do Sei lá o que vão inventar”. Relaxa galera

  31. Parabéns pela iniciativa, é uma gota d’água no oceano, mas o que seria o oceano sem cada gota, fico feliz pelos jovens envolvidos na proposta, ela nos faz refletir sobre a necessidade de persuadir as pessoas a ver para além das fronteiras do míope mundo da vida cotidiana que todos habitamos necessariamente. E que os interesses, as práticas políticas e arquitetônicas, inseridas em um dado tempo e em um dado espaço, têm condições de moldar os outros a se adaptar a suas concepções e desejos pessoais e particulares, portanto, sejamos arquitetos rebeldes, para preservar e produzir um espaço não apenas para a reflexão crítica, mas, sobretudo, para o florescimento desta autotransformação.

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