“Sobre os canibais” acaba com o abismo entre a língua falada e a escrita | Plural
18 fev 2020 - 22h34

“Sobre os canibais” acaba com o abismo entre a língua falada e a escrita

Caetano W. Galindo dá voz a personagens autênticos e presta atenção nas pequenas coisas que fazem diferença

“Sobre os canibais”, a antologia de contos do curitibano Caetano Waldrigues Galindo, publicada há pouco pela Companhia das Letras, é um livro bem importante. Pelo que se propõe a fazer e pelo que consegue executar. Vou tentar explicar por quê.

Galindo é mais conhecido como tradutor. Ele ganhou prêmios com sua versão de “Ulysses”, de James Joyce, e encarou autores barra-pesada de traduzir como Thomas Pynchon e David Foster Wallace; além de, mais recentemente, chamar atenção por colocar em português “O apanhador no campo de centeio” e outros títulos de J. D. Salinger para editora Todavia.

Em 2018, Galindo deu uma entrevista para a escritora Carol Bensimon. A certa altura da conversa, os dois abordaram um grande problema da literatura brasileira: a dificuldade de se construir diálogos verossímeis. Um problema que vai das telenovelas da Globo a autores de respeito. Uma frase de Galindo resume bem o imbróglio: “A gente escreve coisas que quase ninguém fala. E a gente fala coisas que quase nunca se escrevem”.

É o que ele define como um “abismo virtualmente sem par (no panorama das grandes línguas de cultura) entre a norma escolar e a norma efetivamente empregada mesmo pela população bem educada, mesmo em situação de formalidade”.

No papel de tradutor, ele enfrentou esse problema com coragem e criatividade. Agora, como escritor, sem ter de respeitar os limites impostos por um texto original, ele consegue (na minha opinião) acabar com o tal “abismo sem par”. É uma façanha.

O homem tem um ouvido impressionante – talvez por ser também músico? – e o talento de recriar na forma de texto a maneira que algumas pessoas têm de falar. Algumas pessoas bem curitibanas.

“Sobre os canibais” é uma antologia com 42 contos. Alguns fazem pensar, naturalmente, em autores queridos e traduzidos por Galindo. Afinal, quando traduz um livro de Wallace, por exemplo, trata-se de um livro de David Foster Wallace escrito por Caetano Waldrigues Galindo (mais ou menos como um pianista interpretando uma obra de Beethoven – o texto original funciona como uma partitura e dois tradutores podem entregar versões muito diferentes de um mesmo original – uma ideia defendida por Galindo, inclusive  como professor de Letras na Universidade Federal do Paraná).

Os cinco contos intitulados “Bienal (S. Med. pat. req.)” descrevem obras de arte e parecem um aceno para Foster Wallace. O mesmo vale para os sete fragmentos publicados sob o título “Juvenal (in memoriam)”. São textos que descrevem cenas breves ou pequenos momentos, como se fossem a função stories do Instagram.

Na verdade, a capacidade de Galindo de criar vozes e os efeitos de determinadas prosódias, das maneiras de falar, é genial. (Ele foi meu professor e é meu amigo, mas quase nunca tenho chance de dizer elogios desse tipo.) Fazer os personagens falarem parece ser a ferramenta que ele mais gosta de usar como escritor. Como no conto que abre o livro, “Ela”:

Não, aí a gente lá na loja e eu, Mô, e esse aqui? Porque já tava difícil, e eu sozinha e nego ali necas, sabe. Pô. Desinteressado mesmo. Total. E eu cansada de carregar o sujeito nas costas, sabe? Aí eu, Mô, e esse aqui? E ele, Meio demais, né…? Cê me acredita numa coisa dessa? “Me-io-de-mais”…! Aí eu pum: Como assim “meio demais”?

Quando você, a depender de sua experiência como leitora ou leitor, supera o estranhamento inicial – porque esse efeito de oralidade praticamente não existe na literatura nacional –, é surpreendente notar como as personagens falam. E saltam das páginas. No conto “Ele”, o narrador diz como foi ver uma menina linda no shopping (devem ser curitibanos, porque curtem um shopping):

Mas mesmo assim, meu. Uns puta peitão assim de babar mesmo. Numa daquelas blusinha justinha que elas usam sabe? Dava pra ver uns pedacinho da alça do sutiã e tudo. Uma blusinha bem degotadinha que mostrava di-rei-ti-nho aqueles peitão que parecia que queriam pedir pra sair dali direto.

Note o plural peculiar em “aqueles peitão” (bem como se fala, ao menos em Curitiba) ou o pronome pessoal usado de um jeito peculiar em “cê me acredita numa coisa dessa?”.

Em outros contos, a força é da história e do desfecho que chega numa velocidade atordoante. É o caso de “Livre-arbítrio”, sobre uma menina que pensa em se matar saltando de uma ponte. (Uma lição sobre como não temos controle sobre as coisas da vida, nem quando a gente acha que tem.)

Vou citar só mais três.

“Pentimenti” trata do ritual de lavar a louça de um jeito absolutamente genial (e obsessivo).

“Sozinho” descreve o que ocorre com um corpo que morre. “Os olhos tendem a afundar nas órbitas. É parte do mesmo processo de ressecamento do cadáver, ou desidratação, que explica a retração percebida nas pontas dos dedos e o couro cabeludo, responsável pela (ilusória) noção de que cabelos e unhas continuam a crescer”, diz o narrador.

“Tudo ou nada” mostra os aniversários que um filho passou com a mãe. Começa quando ele tem 11 anos e ela, 35. E termina quando ele completa 39 anos. Essa história é sobre ser mãe (ou pai) e ter filhos. Sobre sacrifícios que não são bem sacrifícios. E sobre pequenas coisas que não são nada demais e também são tudo (o que funciona como uma boa síntese do livro inteiro).

Serviço

“Sobre os canibais”, de Caetano W. Galindo. Companhia da Letras, 200 páginas, R$ 69,90.

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