Sete anos depois, música mais lenta do mundo troca de acorde | Jornal Plural
8 set 2020 - 14h16

Sete anos depois, música mais lenta do mundo troca de acorde

Execução de obra de John Cage para órgão está prevista parar durar 639 anos

Órgão John Cage

No dia 29 de agosto de 1952, em Nova York, a plateia do Maverick Concert Hall estava pronta para ouvir a primeira performance de uma peça nova de John Cage. O pianista, David Tudor, depois de abrir a partitura, executou examente o que ela determinava: ficou em silêncio durante o primeiro movimento. Ficou em silêncio durante o segundo movimento. Ficou em silêncio durante o terceiro movimento. Era a música mais lenta do mundo.

A execução teria durado quatro minutos e trinta e três segundos, e é daí que deriva o nome pelo qual a peça é conhecida até hoje: 4’33’’.

Cage viveu outros quarenta anos depois daquela noite, e declarou mais de uma vez que não passou um dia de sua vida sem pensar naquela peça, sem ouvi-la. Porque não se tratava de uma piada. Não era uma provocação. Ao menos não no sentido mais óbvio. O que ele queria era ensinar as pessoas a ouvir. Prestar atenção. Escutar os sons do mundo fora e dentro do teatro, registrar os ruídos feitos pelos outros membros da plateia.

Eu tive um professor de Introdução à Linguística que, na tentativa de demonstrar como produzir fonemas complexos, instruía os alunos a “preparar a boca” para dizer um som conhecido e, no último momento, tentar produzir outro som. Monte a tua boca pra dizer “u”. E no último milésimo acabe dizendo “i”. O que Cage fez ali foi preparar o ouvido de toda uma plateia para “ouvir música” e, no último segundo, forçar esse aparato, atilado, aguçado, a se voltar para toda a realidade que nos cerca. Isso tem seu poder. Tem um grande poder.

Ele passou a vida obcecado por silêncio, estudando filosofia zen, tentando apagar seu ego de artista ao entregar sua música a uma série de procedimentos aleatórios. Ele, como compositor, dizia querer fazer perguntas aos sons, mais do que dar respostas.

Quatro minutos e trinta e três segundos foi de fato um marco importante nesse seu caminho. Mas pouco depois de sua morte (e é muito adequado que isso tenha se dado num mundo sem a pessoa John Cage) um grupo de admiradores começou a planejar a execução definitiva de outra peça, composta originalmente por ele nos anos 80. A versão final da obra se chamou Organ2/ASLSP, com a sigla final representando, além de uma homenagem ao Finnegans Wake, de James Joyce, a expressão as slow as possible (o mais lento que for possível). Trata-se de uma peça curta (no papel) que no entanto deve de fato ser tocada com a maior lentidão concebível. A depender da execução, ela pode durar algo entre 70 minutos e catorze horas. E se você for hoje à cidadezinha alemã de Halberstadt e procurar pela igreja de Sankt Burchardi, vai ouvir a peça sendo executada. Seja este “hoje” quando for.

A execução de Halberstadt, organizada pelo Dr. Rainer O. Neugebauer, começou em 2001, num órgão especialmente construído para este fim. E seu último acorde deve parar de soar em 2640.

A peça começou com uma pausa que se estendeu por 17 meses, e desde então realizam-se pequenas cerimônias para se efetuar e se ouvir as mudanças de acordes. A penúltima delas ocorreu em 2013 (foi o mais longo intervalo entre modulações). E a última ocorreu neste sábado, 5 de setembro de 2020. E você pode, claro, acompanhar on-line.

Se 4’33’’ já fazia você se sentir imerso no mundo de um modo novo, o que dizer da sensação de se entrar durante a execução de uma obra que você não tem a menor chance de ouvir até o fim? Certa familiaridade com… o mundo?

A história da própria igreja (hoje dessacralizada) de Sankt Burchardi começa no século 12. E, do ponto de vista do edifício, a execução da peça de Cage é só mais um detalhe. A Catedral de Notre Dame, ela própria, encara afinal com muito menos importância o incêndio “catastrófico” que testemunhamos em 2019. Será só mais uma coisa numa longa história de adversidades e momentos de glória, todos eles também reduzidos pela proporção do tempo.

Mas a nós não é dado ver as coisas dessa perspectiva. Ter essa escala do tempo. Nós continuamos achando importante o que nos acontece durante as nossas décadas dentro desses milhões de anos de história. Nesses bilhões de anos de história.

Cage morreu. Detalhe.

Sua peça vai ficar soando por mais de meio milênio. Detalhe.

Você pode ouvir algumas mudanças de acordes em sua vida. Detalhe.

Mas cada detalhes desses ainda pode ser apreciado com a mesma dedicação de quem ouve uma sinfonia, como parte de uma orquestra inconcebivelmente maior e mais duradoura. E é talvez apenas ao nos darmos conta da insignificância de um século que podemos finalmente ouvir esse som real de cada momento. Que se estende por pouco mais de quatro minutos a cada vez, ou por 639 anos ininterruptos.

Quando então se pode voltar ao primeiro compasso.

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