“Serotonina” é a lengalenga de um homem branco de meia-idade | Jornal Plural
22 set 2019 - 21h57

“Serotonina” é a lengalenga de um homem branco de meia-idade

Livro de Michel Houellebecq, figura famosa da literatura francesa atual, é narrado por um agrônomo que se arrasta pela vida sem propósito algum

Ler ”Serotonina”, de Michel Houellebecq, é um pouco como assistir a “Tubarão 3”, “Rambo 4” ou “Rocky 5”: tudo ali soa familiar, mas de um jeito meio cansado, sem o vigor das histórias anteriores.

Houellebecq é tido como o escritor mais famoso da França, talvez pelas polêmicas em que se meteu. Digamos que ele não é conhecido por sua compaixão e, num exemplo que seus detratores gostam de usar, o homem foi processado pela própria mãe (porque, em resumo, ela queria grana e ele não estava nem aí para ela).

Pense num assunto espinhoso e você vai encontrá-lo num livro de Houellebecq. O islamismo na Europa? “Submissão”. Turismo sexual? “Plataforma”. Sexo como um sentido para a vida? “Partículas elementares”. “Sexo como declínio da civilização ocidental? “A possibilidade de uma ilha”. Sexo, como se vê, é uma constante.

Ou era uma constante. Em “Serotonina”, falta sexo e, quando ele acontece, é um sexo ruim. Tão ruim quanto todo o resto na vida modorrenta do protagonista narrador, de nome Florent-Claude Labrouste. Mas vamos chamá-lo de Chuchu. Por ser assim, terrivelmente insosso.

O fiapo de enredo fala desse Chuchu, um homem de meia-idade sozinho

no mundo – sem família, sem filhos, sem passado – às voltas com uma amante japonesa muito mais jovem e indiferente.

Chuchu se arrasta pelos dias sem ter muito o que fazer no emprego (ele é agrônomo e trabalho para o governo), está decidido a terminar com a japonesa e consome cada vez mais remédios para lidar com uma ansiedade de origem difusa (um dos efeitos colaterais da medicação destrói, justamente, sua vida sexual).

Nós o acompanhamos numa viagem de férias (turismo é um tema que interessa a Houellebecq). A certa altura, remoendo o passado – e o passado será determinante na história –, ele decide rever um amigo que, como ele, também estudou agronomia. Mas que, diferente dele, optou por trabalhar como agricultor nas terras de sua família. Uma decisão que transformou esse amigo, duas décadas depois, em um homem amargo e desesperado.

Chuchu tem algum dinheiro e tem tempo. Como é um sujeito sem ambições e sem interesses na vida, ele muito rápido se perde em devaneios sobre o que poderia ter sido e não foi, sobre as poucas (duas) mulheres que chegou a amar e pelas quais foi amado.

Numa reviravolta estranha, o último terço do livro se concentra nos percalços dos agricultores franceses, endividados e encurralados pelos acordos comerciais do bloco europeu (daí a amargura do amigo).

O maior problema de “Serotonina” não é o fato de retomar temas familiares na obra de Houellebecq. O problema é fazer isso sem os insights que ele costumava ter sobre o ser humano, a vida e o mundo.

Tire os insights de Houellebecq e sobra só a ladainha de um homem branco de meia-idade chato pacas.

Para não ser injusto, o livro tem uma ou outra ideia memorável. Como quando ele fala sobre as diferenças na forma com que homens e mulheres encaram o amor. O trecho é muito bom e vale uma citação mais longa (ela começa na página 50, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht):

“O amor para a mulher é uma potência, uma potência geradora, tectônica, quando se manifesta na mulher o amor é um dos fenômenos naturais mais imponentes que a natureza pode nos oferecer, e tem que ser visto com receio, é uma potência criativa do mesmo tipo que um terremoto ou um desastre climático, a origem de outro ecossistema, outro entorno, outro universo, a mulher com seu amor cria um mundo novo, dois pequenos seres isolados estão chapinhando numa existência incerta e de repente a mulher cria as condições de existência de um casal, uma entidade social, sentimental e genética nova cuja vocação é efetivamente eliminar qualquer traço dos dois indivíduos preexistentes, (…) a mulher sempre se entrega por completo a essa missão, mergulha nela, se dedica de corpo e alma, como se diz, e aliás não estabelece mesmo diferença entre as duas coisas, para ela essa diferença entre corpo e alma não passa de uma chicana masculina irrelevante. Ela sacrificaria sua vida sem pestanejar por essa missão que na verdade não é uma missão, é a pura manifestação de um instinto vital.

“O homem, a princípio, é mais reservado, ele admira e respeita esse descontrole emocional sem compreendê-lo totalmente, acha um pouco estranho complicar tanto as coisas. (…) Pouco a pouco, o imenso prazer dado pela mulher modifica o homem, este lhe dá reconhecimento e admiração, sua visão de mundo é transformada, e de forma imprevista para si mesmo ele tem acesso à dimensão kantiana do respeito, pouco a pouco o homem passa a ver o mundo de outra maneira, a vida sem uma mulher (no caso, justo sem esta mulher que lhe dá tanto prazer) se torna verdadeiramente impossível, vira uma caricatura de vida; é nesse momento que ele começa a amar de verdade. O amor no homem, então, é um fim, uma realização, e não, como na mulher, um início, um nascimento; é isso que devemos considerar”.

Esse trecho é bom e representa uma exceção. Em geral, “Serotonina” é deprimente de um jeito ruim. Enquanto os outros livros de Houellebecq, na falta de uma palavra melhor, eram deprimentes-bons.

Serviço

“Serotonina”, de Michel Houellebecq. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Alfaguara, 240 páginas, R$ 59,90.

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