Se você pudesse dormir por um ano… | Plural
21 out 2019 - 21h40

Se você pudesse dormir por um ano…

No livro “Meu ano de descanso e relaxamento”, uma garota decide passar um ano dormindo, com pouquíssimos intervalos, para não ter de lidar com a vida

Uma parte do burburinho em torno do “Meu ano de descanso e relaxamento” tem a ver com uma decisão tomada pela protagonista do livro. Ela resolve dormir, dormir muito, dormir por um ano com a ajuda de todos os remédios que conseguir comprar. (Ela acorda de vez em quando, come, vai ao banheiro, toma mais pílulas e volta a dormir. E conseguiu os remédios todos com a ajuda de uma psiquiatra de quinta categoria.)

Parece que a história pegou uma parte do público de jeito porque existe muita gente por aí que, se pudesse, passaria um, dois ou até três anos dormindo (não posso dizer que a ideia não me agrada também).

A protagonista criada por Ottessa Moshfegh perdeu o pai e mãe numa idade relativamente jovem e está triste com o fim de um relacionamento. Ela é sozinha no mundo (a não se por uma amiga, chamada Reva, que ela tolera quando não está sob efeito de comprimidos). Sem disposição para lidar com o que quer que seja, a garota usa o dinheiro que herdou, que não foi pouco, para colocar seu plano soporífero em andamento.

A ação se passa no ano 2000. Nada de celulares. DVDs são novidade, fitas de vídeo ainda existem e a personagem adora comprar montes delas em postos de gasolina. Ela tem um fraco por comédias dos anos 1980 e é fã da atriz Whoopi Goldberg, famosa pelo papel da trambiqueira que finge ser uma freira para escapar da polícia e se vê cantando no coral do convento no filme “Mudança de hábito” (dependendo da sua idade, talvez você não saiba, mas a Whoopi foi grande nos anos 1990).

Como a protagonista do livro passa uma parte considerável do tempo dormindo, ou querendo dormir, são detalhes como esse da Whoopi que embalam a narrativa. E a proeza de Ottesa Moshfegh não é pequena. Com uma trama mínima, o livro tem um texto ligeiro e é muito envolvente, do tipo difícil de largar.

A certa altura, ele ganha traços de um suspense porque a garota descobre que, mesmo dopada, ela acorda e faz todo tipo de coisa, de sair às compras até ir para a balada e ficar com homens, mas não consegue se lembrar de nada. O terror que ela sente ao perceber que não tem controle sobre suas atitudes é um negócio semelhante à ressaca moral dos piores porres que alguém pode tomar.

O erro que alguém pode cometer como leitor é o de ler o livro em busca de alguma sacada. Dormir é uma espécie de suicídio? Uma recusa de viver lutos e rejeições? É tédio? Uma afronta contra o mundo? Não, nada disso. Não é esse tipo de livro. Da metade em diante, fica claro que o motor da história é seu desfecho. O negócio é ler motivado pela pergunta: “Como é que termina?”. E o livro termina bem. O fim é espantoso.

Serviço

“Meu ano de descanso e relaxamento”, de Ottessa Moshfegh. Tradução de Juliana Cunha. Todavia, 240 páginas, R$ 54,90.

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