Roseane Santos se desnuda em “Fronteiriça” | Jornal Plural
5 dez 2019 - 2h32

Roseane Santos se desnuda em “Fronteiriça”

Primeiro álbum solo da cantora também marca sua estreia como compositora. Pré-lançamento acontece sexta (6) e sábado (7), na Alfaiataria

Por trás da fiação elétrica meio capenga na altura do 274 da rua Riachuelo, as portas acinzentadas da Alfaiataria abrigam um espaço cultural. No segundo andar do prédio, entre paredes de tijolos e cimento queimado, o palco de fundo e chão pretos recebe, nesta sexta-feira (6) e sábado (7) o show do disco “Fronteiriça”, da cantora e compositora Roseane Santos. 

Aos poucos a montagem toma forma – tapetes, pedestais, bateria, percussão, amplificador, cabos. Cada um que chega ao local colabora com alguma coisa, e – claro – deixa um beijo e um abraço com Rose. A equipe de trabalho é quase inteiramente composta por jovens – um detalhe que a cantora carioca, no auge dos seus 53 anos, gosta. “Eu influencio jovens (risos)”, brinca ao falar que, na verdade, a questão não é sobre “juventude”, mas sim sobre uma energia parecida com a do fogo – de manter algo vivo, de sempre procurar novidade. 

Não à toa: nascida e criada em Botafogo, há 17 anos radicada em Curitiba, a trajetória de Rose com a música é cheia de mudanças. Constante, talvez, apenas o amor – que começou dentro de casa. Caçula de seis irmãos, filha de mãe costureira e pai funcionário público, a convivência com discos veio desde cedo. Com boa parte dos irmãos na área artística (entre eles, uma irmã na música erudita, outra na MPB com o violão), o encanto de Rose logo se fez entre acordes e arranjos.

Show marca o pré-lançamento do primeiro disco solo, e a estreia como compositora. Foto: Wagner Roger

“Como é que se chama quem é viciado em música?”, pergunta ao tentar definir sua relação com a arte, ainda em Botafogo. Era uma ouvinte voraz, curiosa. “Gastava toda a grana que eu ganhava comprando discos, LPs”, relembra. O primeiro disco, comprado com o próprio dinheiro, inclusive, tem uma história curiosa. Foi de um musical americano dos anos 1980, chamado Fama, que contava a história de adolescentes talentosos em busca de sucesso. “Lembro que vi o filme muitas, muitas vezes no cinema”, diz. Quando encontrou o disco em uma loja de música em um shopping, não teve dúvidas. “Acho que ouvi aquilo até furar!”, conta.

Por fim, as cantorias no banheiro – que rendiam dedos enrugados – se converteram em formação na Escola de Música Villa-Lobos e até mesmo em trabalho como arte-educadora, ainda no Rio. “Minha história profissional começa quando cheguei em Curitiba”, conta. As vindas à capital paranaense começaram em 2002, mas foi só no ano seguinte que a mudança, de fato, veio. Junto com ela, o casamento, a graduação em Música Popular na Faculdade de Artes do Paraná (FAP), e o convite para cantar em um quarteto de vozes. “Vim em um combo de coisas que eram interessantes, e a partir daí outros convites surgiram”, diz. 

Em Curitiba o mergulho foi intenso, foi na vivência com artistas de várias áreas que Rose aprofundou os estudos, e entendeu que seu caminho era o da música. “Eu estava respirando um ar que até então, para mim, no Rio, não era desse universo o tempo todo”, conta. Já em terras paranaenses, teve o gostinho de viver um vislumbre de infância, quando em 2014, o disco do grupo Serenô tocou na rádio Roquette Pinto. Pelas ondas da estatal carioca, uma Rose de 12 anos ficava maravilhada com vozes como a de Dalva Oliveira. Aos 47, se maravilhou com a própria voz ressoando na transmissão radiofônica. “A rádio me educou musicalmente”, diz.

De convite em convite, e projeto em projeto, lá se foram 17 anos de carreira: grupos de percussão e voz, trabalhos com samba, canto, aulas, editais, parcerias. Até que, aos 50, o fogo vivo trouxe outra mudança e permitiu que Rose se descobrisse compositora. A escrita também a acompanhava desde pequena, mas nunca antes havia mostrado “os cadernos”. No marco de aniversário, resolveu que faria isso. “Eu estava me conhecendo em outros lugares, me abri mais para um outro universo”, comenta. 

O resultado dessa abertura foi “Fronteiriça”, um trabalho que Rose define como algo inteiramente seu, ao ponto de mostrar-se, figurativamente, nua. “O que eu digo é sobre mim, sobre meu universo, sobre as coisas que eu vivo, que já vi. Algumas pessoas vão acessar, outra não”, ressalta ao falar dos encontros de si mesma, e com o público. 

Taurina, com ascendente também em touro, e lua em virgem, Rose se diz muito conectada com a própria espiritualmente, mesmo sem religião específica. Como boa taurina, é atraída por tudo aquilo que seus sentidos lhe permitem ver, tocar, ouvir, sentir. Hoje, já não dissocia a cantora da compositora que tomou as rédeas da própria criação poética. “Talvez esse seja o momento mais de mim que eu estou vivenciando”, declara. 

A familiaridade com a própria pele, no entanto, não significa – necessariamente – conforto no palco, pelo contrário. “Estar nua em uma cena é completamente diferente de entrar aqui e cantar. Cantar me expõe muito mais”, tenta explicar. Cantar e compor parecem se relacionar com uma ideia de ser verdadeiramente vista. Talvez por isso “Fronteiriça” se relacione tão diretamente com esse sentido de si própria, de se ver por inteiro.

O disco físico só chega em 2020, mas os planos – bem como o trabalho e as ideias – não param. Enquanto o plano de levar “Fronteiriça” para o Rio não se concretiza, os curitibanos poderão assistir, ali no palco da Alfaiataria, uma Roseane Santos nunca antes vista.

Serviço
Pré-lançamento do disco “Fronteiriça”, de Roseane Santos
Quando:6 e 7 de dezembro (sexta e sábado), às 20h
Onde: Alfaiataria, na rua Riachuelo, 274 (Centro)
Ingressos a R$ 30 e R$ 15 no local

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