Rodrigo Madeira tem uma araucária atravessada na garganta | Jornal Plural
Clube Kotter
1 mar 2019 - 0h00

Rodrigo Madeira tem uma araucária atravessada na garganta

Victor Hugo Turezo entrevista um poeta recluso que culpa a si mesmo por não ser mais lido

O poeta desconhecido, outsider de si mesmo caminha comigo da Praça Generoso Marques até um café próximo a Biblioteca Pública do Paraná. Sentamos. Ligo o gravador e me mordo. Rodrigo Madeira foi um dos poetas mais importantes num dado momento da minha vida. Levei pássaro ruim, seu segundo livro, para a clínica psiquiátrica em que fiquei internado.

Madeira, quieto, óculos ajeitado na face, barba por fazer, camisa de manga curta verde, pede um macchiato – eu, um doppio. Começo a falar sobre como Curitiba é uma cidade estranha. “Calor, né? Depois vem aquela chuva.” Com os cafés na mesa, tiro da mochila os três livros publicados dele – Sol sem pálpebra (Imprensa Oficial, 2007), pássaro ruim (medusa, 2009) e baldio (Kotter Editorial, 2018). Também coloco meu caderno à frente.

Rodrigo Madeira nasceu em Foz do Iguaçu e veio para Curitiba com 12 anos de idade. Traço algumas perguntas sobre sua trajetória literária, seus livros; aversão ao meio literário; influências; sobre a Rua Cruz Machado; algo que cunho de sexualização da rua; internação; dentre outras perguntas [vocês podem ler a entrevista completa abaixo]. Mas o que pretendo neste texto é, talvez, incorporá-lo, agora – no texto. Existem dois ou três textos sobre a obra de Rodrigo Madeira. Tampouco existem mais de duas ou três fotos suas rodando por aí. E isso é assustador tratando-se da complexidade de seus escritos.

Difícil escrever sobre alguém que, talvez, não queira ser evidenciado. Só que mais difícil é escrever sobre pessoas que se evidenciam. É no primeiro ponto que ele se encaixa. Madeira não quer estar em evidência. E isso não é humildade relativizada, ou qualquer outra coisa. “Victor, eu nunca fui do meio, não me sinto confortável. Eu sou inercial. Misantropo, talvez.”

Formado em Relações Internacionais, Madeira nunca esteve no meio acadêmico – local em que a maioria dos escritores acaba se reformando. Dá aulas de inglês. E não é sobre o não concebimento de um poeta; não é sobre o não reconhecimento – muita gente que escreve coisa boa não é (re)conhecida. É sobre um sintoma que se descobrissem e me dissessem seria mais fácil. É quase que um pathos.

Conheci o trabalho do Rodrigo em 2014, numa série de vídeo-poemas chamada Pássaros Ruins, do diretor Adriano Esturilho, em que poetas da capital paranaense declamavam poesia. Depois fui atrás dos seus escritos em livro. O primeiro que comprei foi o Sol sem pálpebras, que o amigo João Lucas Dusi achou quando trabalhava no Sebo Líder. Depois encontrei pássaro ruim e, por fim, fui ao lançamento de baldio, no ano passado. A obra de Madeira é difícil de ser encontrada pela não divulgação. Um não espaço credenciado. E não pela falta.

Talvez seja porque Rodrigo Madeira tenha salvado a minha vida, em 2016. Levei-o com mais cinco ou seis escritores e escritoras ao hospital. Reli-o não sei quantas vezes. Talvez, também, seja porque a literatura – mais especificamente Ferreira Gullar – salvou a vida dele dentro das mais variadas clínicas pelas quais passou. Pode ser sobre isso. Necessidade em detrimento do estado. Mas também pode ser porque é bom pra caralho.

Aqui, relato a conversa.

Quando você começou sua trajetória como leitor e escritor? Qual a profundidade que isso tomou em sua vida?

Morei até os 12 anos em Foz do Iguaçu, mas lá não tinha faculdade. Então quando meu irmão saiu todos nós viemos pra Curitiba – eu, minha mãe e minha irmã. Comecei a escrever de mim pra mim. A única pessoa que via algumas coisas era minha mãe, que não entendia nada de poesia. Era mais um exercício narcísico, de ouvir a minha própria voz. E até os 21, 22 anos eu mostrei pra pouquíssimas pessoas. Aí um dia teve uma oficina na praça da Espanha. Participei e encontrei algumas pessoas do meio literário e aí comecei a participar de saraus. Mas a minha trajetória foi totalmente diferente. Eu cursei Relações Internacionais. Dou aula de inglês. Hoje a maior parte das pessoas que são do meio literário está na academia. Ou são estudantes ou professores, que estudaram Letras. Foi um caminho particular.

Eu lia muito na adolescência, comecei lendo prosa e gostava muito de MPB e a partir dali entendi algumas referências e fui atrás dos autores. Como todo adolescente eu me identifiquei com os poetas malditos do século 19 e a partir dali comecei a formar um painel próprio. Li muito Rimbaud, Baudelaire – e no Sol sem pálpebras isso fica muito claro – e depois li muito Ferreira Gullar. Ele ajudou a me reinventar e a salvar a minha vida de fato; a poesia dele esteve muito ligada ao fato de eu me conduzir como poeta e como ser humano mesmo; teve um impacto no jeito de eu ver o mundo. Antes li Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, que são as minhas grandes paixões.

A Rua Cruz Machado está em um de seus poemas mais conhecidos – que até virou um curta-metragem dirigido por Terence Keller. O que mais te atrai nela?

Eu gosto muito do nome (é um oxímoro). É uma rua que sempre me atraiu porque primeiro eu sempre frequentava, era usuário de drogas. E eu gostava desse jogo de palavras entre cruz e machado. Eu morava na Saldanha Marinho, que é uma rua que se degrada. Ela começa num bairro de classe média alta e vem morrer aos pés da Catedral, na Tiradentes. E isso capturou a minha imaginação. E fiz esse poema [balada da cruz machado]. É o poema que as pessoas mais conhecem. Era uma das ruas que eu mais frequentava também porque ficava próxima da minha casa. Geralmente eu ia mais pro Capanema [comprar droga], muitas vezes a pé, meio rimbaudiano. Esse poema deixou as pessoas assustadas, porque abordo evidentemente o usuário de crack. Preocupa-me um pouco em isso estigmatizar as coisas que escrevo. Eu acho que tem coisas que escrevi antes e depois que são melhores.

Curitiba te arrebenta, quase te arrebenta? Qual a relação que você tem com a cidade?

O que tira o curitibano do sério é alguém abrir a boca [risos]. Eu amo essa cidade. Eu me sinto completamente curitibano. Foz do Iguaçu foi quase um sonho. Eu me formei como ser humano aqui. Lá eu era quase um analfabeto, não tinha nenhum contato com literatura, poesia, foi só em Curitiba que comecei a ler e a escrever. Em relação ao escritor é como se Foz tivesse sido um grande útero muito quente, de calor africano. Nasci mesmo aqui e a minha personalidade é muito parecida com a da cidade. Eu sou mais retraído e prefiro ficar na minha.

Seu primeiro livro – Sol sem pálpebras – é como uma chegada e uma partida ao mesmo tempo, já que você escreve para ir embora. Nele você começa algo que chamo de sexualização da rua, que é a desmistificação de um prazer corrompido…

Eu acho que isso teve muito a ver com as leituras que eu tive. Tanto essas duas influências que eu tive da “raça que canta no suplício”, que o Rimbaud dizia. Isso tem muito na minha poesia, e de lidar com uma coisa física do mundo: sangue, suor, esperma. Então existe essa sexualização. É muita influência do Rimbaud e do Gullar. Eles são da minha família poética. E eu acho que eu faço isso mesmo. Acho que eu tenho uma relação física com a cidade. É uma relação ambígua [com Curitiba] de amor e ódio, mas eu sinto que as ruas de Curitiba fazem parte de minhas entranhas. E acho que essa expressão é generalizada; a minha poesia é hiper-sexualizada. E acho que nesse terceiro livro [baldio] pra mim foi mais difícil e não aparece muito isso. Mas creio que quando trato com o erotismo, isso tem a ver com o livro que eu estava escrevendo ao mesmo tempo, que é o faunopeia [ainda inédito]. E como eu estava enfronhado nisso eu fiz isso de uma maneira mais erudita, trabalhada e rarefeita.

Em pássaro ruim você não escreve mais para ir embora; você escreve pra morrer. Isso é pretensão literária ou genuína?

Acho que é pretensão literária e genuína. O suicídio é uma coisa simbólica ali. Acho que igual à coisa freudiana de você matar simbolicamente seu pai, existe o pretexto simbólico de você se matar também, se reinventar seria outro caminho. Escrevi sobre isso em meus aforismos. Digo que os meus aforismos são muito melhores do que eu; na verdade eles morrem de vergonha de mim. Eu acho que é o que acontece um pouco com a minha poesia. Eu diante da minha poesia fico pequeno; acho que as intenções que consigo condensar nela, minha energia vital, a potência, a vontade de transformação é maior do que existe na minha vida particular. Existe muito a intenção de usar a arte como veículo de reinvenção pessoal. O que eu sempre fiz foi jogar meu corpo na rua, por isso essa sexualização da rua, do outro. Porque sempre foi uma relação muito orgânica, atritiva e irritada com a rua. A ambição que tenho quando escrevo nem sempre se cumpre. Eu não consegui simbolicamente me matar e me reinventar, já te digo isso de antemão, mas a tentativa está ali.

Nele você também explora muito a questão dos insetos. Seus capítulos são separados pelas fases que o gafanhoto passa ao longo da vida…

Acho que a inserção do inseto no livro tem mais a ver com a polissemia da palavra, o significante é bonito, parece um golpe de lâmina e um poder semântico, apesar de ser tão fugaz e tão breve.

Enquanto conversávamos antes você disse que não gosta de falar muito sobre o assunto. Mas é inevitável perguntar como o internamento influenciou a sua vida e a construção da sua literatura.

“O que não vira palavra vira sintoma”, diria Nietzsche. Meu primeiro internamento foi logo no fim da faculdade, em 2005 ou 2006, e aí é o caminho acidentado da negação do problema. Porque eu não bebo mais nem álcool. Sou adicto. E esse é um grande drama das doenças psiquiátricas incuráveis. Ou você trata delas, é permanentemente vigilante, faz o tratamento necessário, ou você tem recaídas. Eu tive tantas recaídas que amadureci o fracasso. Você tenta de todos os jeitos. Já tentei só fumar um baseado de vez em quando, tomar uma cerveja, mas não dava. Sempre voltava pras drogas mais pesadas. Depois foi o meu último internamento no interior de São Paulo. Tem até um poema do pássaro ruim que escrevi como se eu estivesse lá. E foi isso. A literatura me ajudou a amadurecer o meu próprio fracasso, porque era muito difícil aceitar que eu tinha esse problema. Ao mesmo tempo foi uma experiência rica – alguns dos meus melhores poemas foram escritos sob influência dessa experiência meio traumática de ser internado. É uma coisa muito intensa. No Sol sem pálpebras tem um poema sobre uma menina que era soropositivo e eu fiquei internado no interior de São Paulo, numa clínica chamada Itapira, eles até brincavam que eu era o poeta de Itapira. Tinha um jornalista lá que me chamava ou de vampiro de Curitiba por causa do Dalton Trevisan e porque eu ficava trancado no quarto. Também me chamava de poeta de Itabira, por causa do Drummond. E tinha essa menina que era soropositivo e fiz um verso pra ela “tentou a morte/ pra sentir mais forte/ o gosto da vida”. Esse tipo de experiência dramática e rica você encontra muito em clínica. É ruim e doloroso, mas ao mesmo tempo se você tiver coragem de abordar esses assuntos você consegue fazer essa alquimia.

Eu tenho uma dívida impagável com o poeta de meia tigela que eu fui um dia. Porque aprendemos muitas coisas com o que escrevemos antes, eu tenho essa dívida com o falido que eu fui e consegui, falindo, ser feliz, que foi fazer essa transformação de dor, de falência pessoal em arte. Embora minha poesia não tenha circulado e não tenha tomado as proporções que eu quisesse, eu consegui me reinventar nesse sentindo. E eu acredito no que o Octavio Paz escreve “os homens inventam o mundo todos os dias”, ou seja, “nós vivemos de dia a dia/ e não de metafísicas”. Essa fé eu tenho. É a única que eu tenho, aliás. A poesia tem esse caráter de ser um telegrama antitelegráfico porque ela tem a urgência de um telegrama e ao mesmo tempo a linguagem poética é instável, ela pode dizer o seu contrário, ela é fruída. E apesar de ser urgente, ela pode demorar 10, 20, 30, 100 anos pra chegar a seu destino. Se é que um dia chegará. Mas o papel que isso cumpriu na minha vida pra eu conseguir me reinventar e me conhecer por meio da linguagem já valeu a pena.

Você é um poeta pouco conhecido e com uma obra interessante e sólida. Noto que você não aparece em eventos literários e tampouco divulga seus livros. Você escreve pra quem?

Eu tenho aversão a mim no meio literário. Eu sei que é um terreno difícil. [corta para o entrevistador: você acha que é um bando de gente idiota falando sobre si mesmo?] Sim e não [risos]. Existe muita gente nesse meio, ou talvez, onde tiver duas ou mais pessoas você vai ter esse tipo de intriga palaciana. É uma espécie de Versalhes sem Luís XIV, em que ficam aquelas brigas e jogos de ego. A literatura mexe com algo muito íntimo, você criar alguma coisa, entregar ao público, você se expor mesmo que não fale da sua vida na sua obra; quando você cria e expõem as pessoas é tão íntimo e tão seu que isso desperta as mais diferentes suscetibilidades; as pessoas ficam com a pele fina, qualquer coisa que você diga tende a machucar muito; e as pessoas entram nesse tipo de funcionamento de elogiar o outro para serem elogiadas. É um ambiente muito frágil. Tá todo mundo buscando reconhecimento, repercussão. Não é que as pessoas querem ser famosas. Elas querem ser aceitas, todo mundo precisa de afeto e aplauso. E quem não tem isso precisa dissimular da melhor maneira possível que não se importa com essas coisas. Então quando você coloca muitas pessoas que escrevem e que têm dificuldade de circulação e de serem ouvidas…

Eu, Rodrigo, tenho problema como eu me relaciono com isso. Entendo isso como legítimo, faz parte, é humano. Onde existirem duas pessoas vai existir atuação política. Mesmo sozinho isso já existe. É normal que as pessoas façam panelinhas, formem grupelhos. Eu é que não sei lidar com isso. Eu não gosto, fico travado. E tem uma questão prática também: eu não bebo. Então é um puta lubrificante social; você sai, toma uma cerveja. Eu não tenho vida boêmia.

Eu sou meio inercial, misantropo. Então quem faz esse papel pra mim são meus amigos, como o Ricardo Pozzo. Mas até eles já ficaram de saco cheio. E também foi por circunstâncias da minha vida, não levar uma vida boêmia, não estar no meio acadêmico. E isso faz muita diferença. Quando você está no meio acadêmico você convive com essas pessoas o tempo todo. Isso virou meio como um círculo fechado. Mas sou o completo responsável por essa situação. Não sou lido porque não sou ativista do meu próprio trabalho. Eu sempre tive um pouco de vergonha de fazer isso e entendo como isso é importante por eu ser um outsider.


Leia dois poemas de Rodrigo Madeira

exercícios banais 1

há lugares onde a saudade, não fosse ela inopinada
e irrecusável, se exerce com método:
nos bancos de praça, pelas janelas
do quinto ao sétimo andar, diante do mar
nos alpendres dos sobrados, no interior do goiás
dentro dos ônibus interestaduais
e nas penitenciárias.

há lugares onde a saudade, não fosse ela inopinada
e irrecusável, não encontra passagem:
na rua XV do zênite, no pega-pra-capar do trânsito
na fila do banco, pelas escadas carregando compras
em frente aos muros pichados, nas lojas de sapatos
celulares e ares-condicionados
dentro de túneis, elevadores e mictórios. 

asa avulsa

e a morte tem quase o tamanho da vida:
malferidos, melífluos, na virilha
do nada, dois pássaros abatidos

sobre a réstia de sol
que atravessa
a cama

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