“Revelação” analisa como Hollywood e a mídia retratam a comunidade transgênero | Jornal Plural
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28 jul 2020 - 8h57

“Revelação” analisa como Hollywood e a mídia retratam a comunidade transgênero

Com depoimentos de profissionais do setor, documentário na Netflix consegue narrar parte da história trans

“Há muitas coisas feias na nossa história, que parece um ataque, eu acho. Mas acho que temos que conhecer e aprender com elas”, diz o cineasta americano Yance Ford, em meio à sua entrevista para o documentário “Revelação”, da Netflix. 

A proposta parece simplória: uma série de atuantes da indústria audiovisual analisam como a mídia, e Hollywood, construíram (ou não) a imagem da comunidade transgênero ao longo dos anos. A realidade do documentário, claro, vai muito além.

Já te ocorreu, por acaso, que o vilão de “O silêncio dos inocentes”, Buffalo Bill, é uma péssima representação de uma pessoa transgênero? O problema fica mais do que evidente quando a atriz e escritora Jen Richards contou às amigas como se sentia quanto ao seu gênero: “Como Buffalo Bill?”, lhe perguntaram – já que o personagem, um assassino doente, era a única referência que tinham sobre o assunto. “Dói, apenas dói”, afirma a escritora. 

Entre entrevistas com nomes mais ou menos conhecidos (você provavelmente vai se lembrar de Lilly Wachowski – cineasta responsável por “Matrix” e “Sense8”), e trechos de grandes produções cinematográficas, “Revelação” consegue narrar parte da história trans. Costurando vivências reais e problematizações importantes, o filme resgata, também, a história individual de seus entrevistados. 

Em frente às câmeras, atores, atrizes, cineastas, escritores, historiadores, produtores e educadores trans falam sobre racismo; machismo; questões de gênero, de humor; feminismo radical; transfobia; homofobia; e a importância de perceber uma multiplicidade de vivências na tela do cinema. Pode parecer extremamente complexo para alguns, mas a forma como o documentário mostra tudo isso é tão real que fica fácil de entender a importância, e o peso, de cada um desses problemas. 

Certidão de nascimento

A primeira vez que eu, uma mulher cis, tive contato com o universo transgênero fora da minha bolha de privilégios cisgêneros, foi durante um trabalho para a faculdade de jornalismo, em 2015. Na época, carregava comigo o entendimento de que as pessoas podem ser quem elas quiserem ser, e fim. 

Nesse dia, conheci a história de uma promoter que se apresentou me dizendo seu nome “artístico”, bem como o nome de nascença. Na época, a mulher passava por um processo de se reconhecer. Ela havia perdido o trabalho que amava, como professora, porque os pais da escola em que ensinava não aceitavam sua aparência física. Ela mantinha cabelo e unhas longas. Lembro de pensar que, por mais que minha aparência física seja sempre alvo de observações, eu nunca fui impedida de atuar profissionalmente por conta do comprimento do meu cabelo, ou das minhas unhas. 

Outra entrevista que me marcou foi com Bárbara, uma das coordenadoras do Transgrupo Marcela Prado. O grupo era composto quase que exclusivamente de mulheres, e lembro de ter notado que elas variavam entre os termos “transexual” e “travesti”. Perguntei a diferença. A conversa seguiu até o ponto em que o soco no meu estômago veio certeiro: “Você não precisa andar com a sua saia levantada por aí para provar que é mulher, não? Eu também não”. 

Não era uma resposta agressiva, nem raivosa. Era, mais uma vez, a constatação pura e simples do meu privilégio cis: não ter minha existência resumida à minha genitália. Também foi o momento em que eu passei a olhar para a ideia de “gênero” de outra forma, que não tinha nada a ver com o “sexo” assinalado na minha certidão de nascimento. 

Seres transitórios

“A maioria das narrativas criadas por pessoas cis sobre pessoas trans são totalmente focadas na questão da transição. Isso é uma questão importante, essa obsessão pelo momento da transição, porque no imaginário cisgênero é justamente o momento que expressa melhor a questão do ‘exótico’, do ‘estranho’, esse olhar dessa ‘coisa diferente’”, diz a artista Diana Salu, que é escritora, designer, travesti e sapatão (o uso do termo vem como forma de questionar o tom pejorativo socialmente imposto).

Salu escreveu sobre #escreverpersonagenstrans em uma história em quadrinhos, publicada em seu perfil no Instagram. Mais do que um manual cheio de regras, a autora provoca reflexões sobre as narrativas e seus significados. O trabalho, publicado em janeiro, usa de base a mesma pesquisa da GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation) que o documentário da Netflix apresenta. 

História em quadrinhos questiona processo de escrita de personagens trans. Imagem: Diana Salu/Instagram

O documentário mostra na prática o que a pesquisa apresenta em números. “Essas narrativas midiáticas ensinam como você deve reagir [aos nossos corpos]. Se você for pensar isso no Brasil, travesti quando aparece na televisão é sempre para ser piada, em quadros de humor, ou em notícias muito violentas”, afirma a artista ao retomar um dos pontos da discussão, levantados pela produção.

Salu ficou surpresa com a obra, já que sempre teve um pé atrás com grandes produções audiovisuais – não à toa, como demonstra “Revelação”. “Todos os entrevistados são pessoas trans, não há nenhuma outra pessoa autorizada a falar em nome delas – algum especialista que vai dizer o que elas são ou não, ou explicar para o público cis o que elas são. Acho que nunca tinha visto uma produção grande que fizesse esse recorte, que fosse feita dessa forma”, diz. 

Salu destaca, ainda, a percepção crítica dos entrevistados: “Nenhum deles acha que o mundo está resolvido só porque eles conseguiram uma carreira de atriz, ou de ator”, afirma. Conhecida por seu papel na série “Orange is the new black”, a atriz Laverne Cox relembra da dificuldade de se ver refletida nas obras midiáticas: “Eu ligava a TV e via essas imagens que não pareciam compatíveis com a pessoa que eu era”, diz. 

“Mudar a representação não é o objetivo. É só o meio para um fim”, afirma a historiadora Susan Stryker, ao lembrar que, mais do que representar positivamente, é preciso questionar estruturas para poder mudá-las.

De fato, por mais que a representação melhore, por si só, ela não muda a realidade social. Pelo contrário, pode apenas expor mais: “A gente vê isso acontecer às vezes: alguns artistas trans, que participam de um programa na Globo, e recebem ameaça de morte. A exposição dos nossos corpos pode ajudar a naturalizar a presença deles, com a boa exposição […] mas ao mesmo tempo, o nosso corpo, quando está em exposição, está sujeito à violência”, diz Salu. 

A “boa representação”, aqui, tem contornos para além da representatividade em si mesma, com “o trabalho de personagens complexas, de pessoas humanas, reais, que são diferentes entre si, que não são todas iguais, que querem coisas diferentes, que têm outros aspectos na vida para além de ser trans”, diz Salu. 

Para a artista, falta o reconhecimento das múltiplas facetas humanas, independente de reconhecimentos de gênero. “É uma questão de multiplicidade e pluralidade, de corpos, de narrativas, de personagens, de potências, acho que tem que ter essa pluralidade em tudo”, afirma. 

Para além da tela, é preciso reconhecer as estruturas sociais que perpetuam e normatizam esses preconceitos – daquilo que organiza uma sociedade baseada na ideia de que existem apenas dois gêneros, e os aparelhos legais e médicos que amparam essas ideias. “E políticas públicas direcionadas tanto a curto prazo, emergenciais, quanto a longo prazo. Não adianta ter boas representações de pessoas trans na mídia, algumas aqui e ali, enquanto pessoas trans não conseguem trabalho só porque elas são trans”, acrescenta Salu. 

“Você acaba mergulhando numa jornada de autoconhecimento quando você se depara com uma questão como essa, dentro de sociedade, que é extremamente marcada, organizada, definida por um sistema de gênero que pressupõe uma definição biológica que na verdade é arbitrária”, reflete a artista que entende que, enquanto humanos, somos todos seres em transição – transitórios. 

“A gente não existe enquanto uma identidade essencial demarcada, a vida é um grande processo de transições. Sei lá qual a relação que existe entre eu e o bebê que eu fui, são seres radicalmente diferentes, que percebem o mundo de uma forma diferente, que têm um aparelho cognitivo diferente, pensam diferente, existem diferente”, diz Salu. 

Streaming
“Revelação” está disponível na Netflix.

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