Quase tudo tem um significado oculto no terror “O farol” | Jornal Plural
Clube Kotter
8 jan 2020 - 21h17

Quase tudo tem um significado oculto no terror “O farol”

Willem Dafoe e Robert Pattinson interpretam dois faroleiros isolados em uma ilhazinha maldita no fim do século 19

“O farol” é uma história de terror que se passa no fim do século 19, filmado de modo que pareça ter sido feito naquela época. O diretor Robert Eggers realizou diversas manobras para conseguir tal efeito: usou equipamentos antigos, aplicou um filtro para tornar as imagens em preto e branco um tantinho azuladas e conseguiu usar lentes que deram à fotografia um aspecto quase quadrado.

O fato de os personagens parecerem confinados nesse espaço pequeno de tela não é casual. Eles de fato estão confinados, mas em um farol, numa pequena ilha deserta localizada na Nova Inglaterra (na realidade, porém, a produção foi rodada no Canadá).

Willem Dafoe faz o faroleiro mais velho, chamado Thomas Wake. Ele assume o trabalho com a ajuda do mais jovem Ephraim Winslow, interpretado por Robert Pattinson. Os dois homens não se conheciam antes de dividir o espaço exíguo do farol e estão sozinhos nesse fim de mundo porque, de acordo com o que diz Winslow, o pagamento é bom – depois de amargar semanas ou meses nesse trampo insalubre, um homem pode sonhar em comprar uma casa simples e viver tranquilo em algum lugar quente.

Se você viu “A bruxa”, o primeiro longa-metragem dirigido por Eggers (“O farol” é seu segundo), deve lembrar que ele é um sujeito ligado em símbolos e em animais, e no que certos animais podem simbolizar. Quase tudo tem um significado oculto.

O farol, por exemplo, é também um falo e a luz que brilha no topo da torre seria o sêmen (há uma cena que parece confirmar essa ideia).

O novato está proibido de subir até a fonte de luz. Quem cuida dela é Wake. A Winslow cabe tarefas mais prosaicas como limpar os penicos e a cisterna. No fim do dia, os dois homens se reúnem para jantar e trocam histórias sobre mortes bizarras de outros faroleiros, discutem, brigam e fazem as pazes. Em algum momento, eles se parecem com um casal e dá até para desconfiar que vai haver algo mais entre os dois. Quando Wake faz Winslow admitir que gosta da comida que ele cozinha, é difícil não enxergar nos dois uma dinâmica de casal – o que se dedica a cozinhar querendo ser reconhecido pelo que senta à mesa para comer sem nunca falar nada.

Gaivotas também não são só gaivotas em “O farol”. Elas encarnam espíritos de marinheiros mortos e participam de duas cenas chocantes, ambas contracenando com Pattinson. E para não ter dúvida de que elas são importantes para a história, o faroleiro experiente chama atenção do novato porque é preciso ter respeito pelas gaivotas. Caso contrário, você atrai má sorte. Depois dessa bandeirada, não é difícil supor que má sorte será de fato atraída e que as gaivotas terão sua vingança.

Um dos problemas é que você se acostuma com as proezas técnicas relativamente rápido (os efeitos sonoros com a buzina de nevoeiro são muito bons) e o filme tem quase duas horas de duração. Aí restam dois caminhos possíveis: entrar no esquema de Eggers – um esquema difícil, meio abstrato, meio deprimente – ou combater o tédio de tantos símbolos e gaivotas que não são só gaivotas.

Serviço

“O farol” está em cartaz no Cine Passeio (18h20), no Cinépolis Batel (16h30 e 21h40) e no Espaço Itaú de Cinema (19h). É legal conferir os horários das sessões antes de sair de casa, para não perder a viagem.

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