Quadrinistas superpoderosas | Jornal Plural
28 fev 2019 - 0h00

Quadrinistas superpoderosas

A duras penas, as mulheres vêm ganhando espaço no mercado dos quadrinhos. Veja alguns nomes importantes

Não é errado afirmar que a proporção de obras de mulheres publicadas em relação ao número de autores homens é desigual. Não há uma pesquisa oficial que quantifique isso, mas uma visita a uma livraria é reveladora. Por, o número de criadoras em evidência tem aumentado sensivelmente nos últimos anos.

Isso é reflexo de mudanças de perspectiva dos mercados editoriais; porém, mais ainda de novas posturas das próprias autoras. Cada vez mais elas mostram iniciativa e independência em relação às casas editoriais conservadoras.

Histórias em quadrinhos são uma arte onde os homens
predominam. Por consequência, predomina também a visão hegemônica deles sobre o mundo, sobre si mesmos e, claro, sobre as mulheres. Felizmente, hoje cada vez mais mulheres fazem uso da linguagem das HQs para afirmar seu espaço e colocar em evidência temas necessários e muitas vezes negligenciados.

Há muito tempo suas obras renovam ares, propondo diferentes perspectivas de mundo, questionando nossa sociedade e, principalmente, os papéis desempenhados pelas próprias mulheres na ficção e no mundo real. Deixando as protagonistas ficcionais para outro momento, proponho aqui uma breve volta aos mundos das quadrinistas.

É possível que o leitor médio de quadrinhos, imerso nos seus gêneros mais populares, jamais tenha lido uma única frase delas. Mas esse mesmo leitor precisa desesperadamente conhecer essas vozes femininas para romper com sua confortável bolha de fórmulas cíclicas e estáveis de narrar o mundo apresentado na maioria das histórias de super-heróis e mangás. Que, inclusive, também são produzidos por mulheres.

Mas para fugir desses universos em particular, preferi um sobrevoo mais abrangente sobre alguns dos nomes femininos que têm feito diferença na produção contemporânea de quadrinhos. Este texto foi escrito sempre tendo em mente que as quadrinistas não vieram para ficar, mas que sempre estiveram aqui. Que não são uma curiosidade, mas um componente essencial do que faz dos quadrinhos uma das formas de arte que mais refletem o nosso tempo. Não se trata de um ranking, pois isso seria injusto com autoras e leitores. Mas sim uma espiada num universo imenso que dificilmente caberia em um só texto.

Gringas influentes

Se você quer recomendar uma HQ para alguém não familiarizado com essa forma de leitura, algumas autoras estrangeiras são fundamentais. Das autoras que produzem em língua francesa a mais conhecida no Brasil é a iraniana Marjani Satrapi, autora de Persépolis.

No livro ela conta sua trajetória pessoal, desde a infância no Irã da década de 1980, período em que sua sociedade vivia a revolução islâmica, passando por sua adolescência na Europa e o posterior olhar para seu país já transformado. Essa autobiografia inclusive foi adaptada pela própria Satrapi para o cinema. Uma obra para ler atentamente em tempos onde valores religiosos se sobrepõem a assuntos de Estado.

Cruzando o mundo, outra autora que também foi adaptada para o cinema foi Power Paola. Vírus Tropical foi uma das bizarras teorias que tentaram explicar como foi que sua mãe engravidou dela após fazer uma laqueadura. Nessa HQ vemos Paola, uma equatoriana criada na Colômbia, em busca de independência e identidade próprias. Vivendo numa família pouco convencional em um caldeirão cultural próximo de nós, mas sobre o qual raramente temos contato. Parte do coletivo internacional de autoras Chicks on Comics, Paola atualmente é uma das autoras latino-americanas de maior destaque mundial.

A alemã Ulli Lust também expõe seus traumas em seu livro Hoje é o último dia do resto da sua vida, em que recorda seus tempos de mochileira adolescente pela Europa. Uma viagem de poucas semanas repleta de descobertas, aventura, prazer, delitos e também abusos morais e físicos, que fala muito sobre como a mulher é vista num mundo que, mesmo permitindo outras afetividades, não deixa de ser conservador e machista.

A norte-americana Allison Bechdel é conhecida pelos cinéfilos pelo  “Teste de Bechdel”: uma forma de avaliar o papel feminino em obras audiovisuais criada com intenção cômica em sua tira sobre diversidade sexual “Dykes To Watch Out For” (em tradução livre, Sapatonas Com Quem se Preocupar). Nela uma de suas personagens afirma  assistir somente filmes dentro dos seguintes parâmetros:

  1. Que tenham ao menos duas personagens femininas
  2. Que conversem entre si em alguma cena
  3. E que a conversa seja sobre algo que não sejam homens.

Mas foi com a publicação de Fun Home – uma tragicomédia em família, que seu nome alcançou maior notoriedade nas HQs. Nessa obra autobiográfica ela lida com a perda do pai emocionalmente distante, que escondia sua própria homossexualidade, no momento em que ela  se assume lésbica perante sua família.

Da mais recente geração de autoras estrangeiras que chegam a nossas prateleiras, um nome que tem se destacado com uma obra mais “leve” é a norte-americana Noelle Stevenson, autora das obras Nimona e Lumberjanes que misturam elementos de fantasia com temáticas LGBTQ.

Num desdobramento desse seu trabalho, ela recentemente alcançou notoriedade fora das páginas com a “polêmica” reformulação da personagem de desenho animado She-ra. A nova série, sob supervisão de Stevenson, abriu mão da sexualização da série original por uma abordagem mais em sintonia com a bandeira da diversidade e empoderamento feminino.

Brasileiras Incansáveis

Como dito anteriormente, elas “sempre estiveram aqui”. Na já distante década de 1900, as revistas ilustradas “Fon-Fon” e “O Malho”, publicavam trabalhos de Rian – pseudônimo, escrito de trás para frente, para Nair de Teffé, que foi uma das primeiras mulheres cartunistas do mundo. Ela não foi uma quadrinista, mas é com certeza a primeira mulher conhecida a se dedicar ao humor gráfico.

Seu trabalho é um marco histórico para quem valoriza o papel feminino no universo do traço, da sátira e crítica social. Infelizmente os reveses de nossa própria história relegaram potenciais autoras a atuarem mais nos bastidores da produção de charges, cartuns e quadrinhos.

Pulando um vácuo temporal enorme avançamos para a década de 1970. Época em que Curitiba teve na editora Grafipar um suspiro criativo. Em boa parte, impulsionado pelo erotismo visto pela ótima masculina. Mas a editora, famosa por títulos como Maria Erótica e por imprimir muitas formas femininas em suas capas, também deu espaço para mulheres criarem quadrinhos sensuais sob sua própria ótica:  Verônica Toledo e a poeta Alice Ruiz, que são as primeiras roteiristas de quadrinhos conhecidas de Curitiba. Ambas atuaram pouco tempo nesse ofício e somente o trabalho de Ruiz possui uma antologia dessa fase: “Afrodite: Quadrinhos Eróticos”.

Desde aquele período de intensa produção de quadrinhos nacionais na Grafipar muita coisa aconteceu: a cena morreu, ressuscitou, se adaptou e se transformou. Agora, um século depois de Nair, as autoras brasileiras não só se multiplicaram em número, como também em diversidade de discussões.

Recentemente, no mainstream dos quadrinhos nacionais, a coleção Graphic MSP tem aberto espaço para autoras antes independentes criarem versões dos personagens de Maurício de Sousa. Penadinho – Vida, contou com Cris Eiko, coautora da absurda série de autobiografias fantásticas Quadrinhos A2, feita com o companheiro Paulo Crumbim.

A série ainda promete a aguardada releitura da personagem Tina, feita por Fefê Torquato, autora de títulos dos pouco convencionais como Gata Garota e Estranhos. Provavelmente o nome feminino mais evidente do quadrinho brasileiro atual, especialmente após ter feito a Graphic MSP Mônica Força, é o de Bianca Pinheiro. Carioca radicada em Curitiba, ela transita por gêneros diversos nos trabalhos Alho Poró e Eles estão por Aí em parceria com Greg Stella.

Pryscila Vieira: tirinhas com humor à la Rê Bordosa.

A já veterana autora e Youtuber curitibana Pryscila Vieira, com sua tira sobre a boneca inflável Amely talvez seja a autora feminina com o humor mais “masculino” atuante na cena feminina. Influenciada diretamente pelo humor ácido de Angeli, seu trabalho segue a estrutura clássica das tiras de humor da geração anos 1980 das tiras de jornal. Mas falando de sexualidade e relacionamentos através da exploração da imagem da mulher-objeto representada de maneira nada metafórica na figura de Amely, uma boneca inflável.

Garota Siririca: série tem masturbação feminina como ponto de partida.

Falando mais abertamente de sexualidade, a brasiliense Gabriela Masson, que também assina Gabi LoveLove6, produz a série Garota Siririca onde, como o nome indica, a masturbação feminina é o ponto de partida para atacar morais e bons costumes dos que se perturbam diante de mulheres que sentem prazer em estar à vontade com a própria sexualidade.

Quem também não tem medo de abordar tabus é Cynthia Bonacossa, ou Cynthia B., autora de Estudante de Medicina onde fala sobre seus anos na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, antes de decidir seguir a carreira de quadrinista. De seu trabalho autobiográfico, a história curta “Meu aborto em Quadrinhos”, disponível no site da revista Piauí, é um singelo e brutal clássico sobre uma das realidades mais negligenciadas do universo feminino.

Cynthia Bonacossa, autora de um clássico sobre o aborto.

As quadrinistas aqui citadas são apenas algumas numa infinidade de mulheres que continuamente têm se dedicado a fazer das HQs seu meio de expressão. Este texto não é um resumo das melhores autoras nacionais e estrangeiras. Mas um convite para que vocês busquem outras mais. Toda lista é carregada de injustiças e omissões. Mas algumas delas permitem chamar a atenção a trabalhos que merecem a nossa leitura e que poderiam passar despercebidos.

Foi assim que, em janeiro passado, a roteirista Sirlene Barbosa, junto do desenhista João Pinheiro, recebeu o prêmio ecumênico do Festival de Angoulême na França, um dos principais eventos dos quadrinhos mundiais, por Carolina, obra que narra as dificuldades vividas por Carolina Maria de Jesus, mulher favelada que na década de 1960 se tornou escritora autodidata de sucesso mundial.

A jornada de Sirlene ao reconhecimento mundial, assim como foi a da escritora Carolina, não é certeza de sucesso, mas é sintoma do trabalho árduo de apaixonadas por boas histórias. Lentamente o mercado editorial brasileiro tem acordado para a qualidade e o apelo de obras escritas e desenhadas por mulheres.

Quadrinhos de Allison Bechdel, já publicada no Brasil.

Mas em tempos de crise no mercado editorial – leia-se os cada vez raros jornais que publicam tiras e a quebra das grandes redes de livrarias – o cenário não é o mais otimista, tanto para autores como autoras da geração atual, que fazem em sua maioria da autopublicação, on-line ou impressa, a maneira mais viável de veicular suas ideias e atingir leitores.

Certamente muitas grandes autoras desta geração que ainda não lemos estão no corpo a corpo dos eventos literários e de cultura pop que acontecem pelo país todo, em uma discreta mesinha, prontas para serem descobertas. E vale a pena ler o que elas têm para dizer.

Instagram de algumas autoras citadas

Marjane Satrapi: https://www.instagram.com/m.satrapi/?hl=pt-br

Power Paola: https://www.instagram.com/powerpaola/?hl=pt-br

Ulli Lust: https://www.instagram.com/ulli_lust/?hl=pt-br

Allison Bechdel: https://www.instagram.com/alisonbechdel/

Noelle Stevenson: https://www.instagram.com/gingerhazing/

Fefê Torquato: https://www.instagram.com/fefetorquato/

Biabca Pinheiro: https://www.instagram.com/bianc_pinheir/

Pryscila Vieira: https://www.instagram.com/pryscila.vieira/

Gabriela Masson: https://www.instagram.com/odiozinho/?hl=pt-br

Cynthia Bonacossa: https://www.instagram.com/malacossa/?hl=pt-br

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