Ousado, místico e curativo: este é Livro Vivo, novo disco de Luciano Faccini e Roseane Santos - Jornal Plural
9 set 2021 - 10h20

Ousado, místico e curativo: este é Livro Vivo, novo disco de Luciano Faccini e Roseane Santos

Trabalho é resultado da musicalização dos horóscopos escritos pela artista e astróloga Faetusa Tirzah

Foi entre encontros, afetos, delicadezas e uma variedade de céus diferentes que nasceu o EP Livro Vivo, nova obra de Luciano Faccini e Roseane Santos, lançada nesta quarta-feira (8). São quatro faixas compostas a partir da leitura dos horóscopos escritos pela astróloga Faetusa Tirzah que chegam como um respiro em tempos tão turbulentos e sufocantes. O EP é o primeiro dos três capítulos que compõem o projeto.

“Tem uma coisa muito bonita em presentificar e trazer para perto um misticismo que às vezes está em um campo mais etéreo”, diz Luciano. O músico, compositor e produtor conta que a ideia de musicar os horóscopos surgiu de maneira espontânea, quando viu, por acaso, o primeiro texto e sentiu que ali havia uma canção. “Foi meio impressionante porque só depois eu fiquei sabendo que aquele era o primeiro de todos os horóscopos que ela escrevia, então teve uma certa magia inaugural nisso.”

Luciano mandou a “ousadia criada por ele” para a amiga astróloga, que adorou o feito. O músico logo compartilhou a ideia com Roseane, com quem divide parcerias da arte e da vida, e a quem considera uma espécie de “termômetro ou farol das sensações musicais”. Assim como Luciano, Roseane também é musicista, além de uma das vozes mais marcantes do cenário cultural curitibano.

Foi no encontro com Roseane que o projeto começou a tomar forma de disco. Da primeira composição, que se tornou a faixa “Hoje” do EP, logo surgiram outras nove. E depois vieram mais. “As canções chegaram pra mim prontas, o que se fez a partir daí foi decidir que clima nós queríamos dar a elas. Trabalhamos sempre com a beleza e as levezas. Optar rítmicas, texturas, silêncios e pressão… é como colocar mais brilho naquilo que já reluz”, relata Roseane, que se define como uma artista em (des)construção, livre e viva.

Livre da incumbência de musicar todos os horóscopos que via, Luciano acabou criando um pequeno ritual: sempre que batia o olho em um texto e intuía que ali havia uma música, o artista a compunha no mesmo dia. Assim, todas as canções foram concebidas sob o mesmo céu em que os horóscopos foram escritos. “As canções podem ser uma espécie de feitiço que tira as palavras do papel e as joga no ambiente durante um tempo para depois retornar. Tenho achado bonito essa força que a canção tem de evocar as palavras como um feitiço.”

Perto, mesmo distantes 

“Para a gente é uma parte quase central a coisa do encontro, da vida compartilhada”, afirma Luciano, que encontra na coletividade, além de afeto, uma forma de sobrevivência.

Assim como em projetos anteriores, a produção do Livro Vivo reuniu pessoas da música, do teatro, da dança, da performance, das artes visuais e da poesia para se envolver, se misturar, alargar os espaços demarcados da criação artística e viver a música de outras formas possíveis. “Quando a gente vai descompartimentando essas relações e se permitindo também influenciar e ser influenciado, e ser vulnerável, estar disponível às trocas, isso amplifica as discussões e os debates e aprofunda o trabalho”, defende Luciano.

“A gente sem dúvida ama coletivos e ama compartilhamentos. Eu acho que não sei fazer música sem flertar com outras linguagens e outros artistas. E sim, a gente se encontrou nos afetos também e não tem medo de assumir isso, a gente se ama, se admira, se respira e ama ter perto esse povo todo”, relata Roseane.

Por conta da pandemia, no entanto, a convivência física dos multiartistas precisou ser repensada. Calculando outros modos e possibilidades de se misturar separados que a banda decidiu transpor a distância através das músicas. “É muito bonito que as canções fizeram a gente estar junto como a gente não esteve em nenhum momento do processo. A banda inteira não se encontrou a não ser no próprio fonograma.”

Embora grande parte das composições escolhidas para a primeira parte do projeto Livro Vivo seja de autoria de Luciano, há sempre uma trama de relações afetivas colaborando com as diversas instâncias do disco. “São muitos pequenos debates e negociações subjetivas. São pessoas que já trabalhavam juntas e de certo modo, por habitar esse espaço de intimidade, conseguiram traduzir com a gente a sonoridade que a gente imaginava mas ainda não tinha conseguido tornar palpável”, afirma o músico.

Além dos diversos musicistas que somam suas sonoridades e sensibilidades às composições, o disco é consagrado por outros artistas como o poeta Francisco Mallmann, que escreveu dez poemas a partir e através das canções, e os artistas visuais Miro Spinelli e Cochilo Taquieta, que assinam a capa, fotos e projeto gráfico. 

Capa do EP Livro Vivo. Imagem: Miro Spinelli e Cochilo Taquieta

O resultado é o trânsito entre os astros, a magia e a língua, sugerindo caminhos a seguir, mas mantendo-os sempre em aberto. Mais do que o nome de uma das canções, Livro Vivo é o próprio céu e a vida em constante transformação, é a história sendo escrita o tempo todo. Nas palavras de Luciano, “é um encontro, um presente, e em alguma medida, é um disco que tem a ver com a nossa cura em um momento tão doente.”

A delicadeza em tempos hostis 

Após meses de trabalho, o EP Livro Vivo nasce para dar fôlego e sentido a um contexto tão agressivo, de distanciamentos – forçados ou não -, em que mesmo a felicidade pode ser agridoce. “Lançar [o EP] num momento como esse é como conseguir perfurar a violência da realidade como está posta. A gente precisa estar ao mesmo tempo calejado e seguir sensível – e negociar essas duas coisas.”

“O Livro Vivo pra mim é bálsamo e cura, dentro de todas essas tormentas que estamos passando. Fazer o Livro Vivo foi remédio para muitas mazelas”, comenta Roseane. 

A data de lançamento, 8 de setembro, também teve a ver com os astros. Com a ajuda de Faetusa, o grupo se voltou aos céus, mais uma vez, para buscar outro guia além do calendário comum. Com algumas datas em mente, a astróloga fitou o cosmos e encontrou a relação mais acertada um dia depois do Dia da Independência.

“É muito louco. É um contexto de total turbulência, de crise institucional, de muita gente morrendo, roubalheira, e a gente apostando na delicadeza. Sem querer ser ingênuo nesse sentido, eu acho que a gente está colaborando e essas são as armas que temos à disposição.”

Para Luciano, lançar um disco em meio à pandemia gera uma estranha sensação de incompletude. “A gente põe as coisas no mundo e as relações estão tão distantes, carentes de encontro, que é estranho a gente não tocar, não se encontrar, sair para tomar uma cerveja, conversar com as pessoas, ouvir o trabalho delas de outros modos”, comenta. “Eu estou muito feliz pelo trabalho e uma das melhores coisas de se lançar um disco é que depois dá para lançar os próximos”, completa.

Na fala de Roseane, lançar um projeto artístico nesse contexto “é pensar futuro e pensar futuro é pensar vida. Estamos vivos apesar disso tudo. Tristes, traumatizados, um misto de desesperança e ira, mas estamos vivos e isso nesse momento é muito.”

O Livro Vivo no mundo

Para Luciano, as canções de Livro Vivo são como um presente ou “pequenas pílulas de uma utopia possível no meio dessa devastação”. O desafio agora é fazer as pessoas experimentarem. “O que vai ser o Livro Vivo no mundo, se vai chegar nas pessoas, se vai ter um grande público, isso eu não sei. Mas olhando de dentro e vivendo o disco eu estou muito feliz. Eu olho para ele e reconheço o tamanho que ele tem, independente de como vai ser daqui para frente.”

Nesse momento, o que os artistas esperam é que as canções cheguem até as pessoas. Daí para frente, a maneira como cada um irá sentir e interpretar as músicas ainda é um caminho a ser trilhado, desimpedido, transitável e livre.

A obra faz parte de um projeto que reúne três capítulos, cada um com quatro canções. Neste primeiro, estão presentes as músicas “Livro Vivo”, “Hoje”, “Nos últimos graus” e “Junto de suas raízes”. Livro Vivo está disponível nas principais plataformas musicais como Youtube, Spotify, Deezer, Apple Music e a BandCamp, um canal online para artistas independentes divulgarem e venderem seus trabalhos autonomamente.

O lançamento dos próximos dois volumes do projeto está previsto para o primeiro semestre de 2022. Atualmente, a banda seleciona as próximas canções e tenta “adequar a medida do sonho com a realidade”, como diz Luciano. 

Se desamarrando da regra do imediatismo e com músicas sensíveis capazes de mudar o estado do corpo e da alma, Livro Vivo chega com tempo para ser escutado, sentido e vivido. Em momentos de desalento, Luciano e Roseane nos fazem acreditar que é possível sonhar e dançar novamente. 

Quem faz o Livro Vivo 

O projeto Livro Vivo, viabilizado através da Lei Aldir Blanc, foi elaborado pela Queda Livre, um coletiva de artistas curitibanos que produz trabalhos com estéticas musicais múltiplas e singulares como os álbuns Fronteiriça (2020), de Roseane Santos, e Ímã de Nove Pontas (2020), da banda Ímã. O EP foi gravado, editado, misturado e masterizado por Leonardo Gumiero no Gume Estúdio, em Curitiba, no primeiro semestre de 2021.

  • Roseane Santos: voz
  • Luciano Faccini: voz e violão
  • Daniel D’Alessandro: Bateria e percussões
  • Vic Vilandez: Baixo Elétrico
  • Leonardo Gumiero: Guitarra
  • Nati Bermúdez: Flautas e voz em “Livro Vivo”
  • Otávio Augusto: Clarineta, clarone e sax
  • Arranjos de base: Roseane Santos, Luciano Faccini e Daniel D’Alessandro
  • Arranjos de sopro em “Junto de suas raízes” e “Nos últimos Graus da Leoa”: Otávio Augusto
  • Trompete e trombone em “Últimos graus da Leoa”: João Martins e Rodrigo Viccaria, respectivamente
  • Direção geral: Luciano Faccini e Roseane Santos 
  • Produção musical: Leonardo Gumiero e Luciano Faccini 
  • Artes e Fotos: Miro Spinelli e Cochilo Taquieta 
  • Revelação: Pretícia Jerônimo / Digitalização: Tárcilo Pereira
  • Interlocutores artísticos: Faetusa Tirzah e Francisco Mallmann
  • Produção: Luciano Faccini
  • Administração de projeto: Moira Albuquerque
  • Realização: Água Viva e Queda Livre
  • Todas as gravações de sopros, exceto as flautas, por Otávio Augusto no Estúdio Track Cheio
  • Todas as letras de Faetusa Tirzah e músicas de Luciano Faccini

Reportagem sob orientação de João Frey

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