Os dias passam rápido para você? Ou devagar? | Jornal Plural
Clube Kotter
13 abr 2020 - 21h06

Os dias passam rápido para você? Ou devagar?

Com texto claro e estilo envolvente, o ensaísta Alan Burdick explora várias respostas para a questão que dá título ao livro “Por que o tempo voa”

O tempo tem passado de maneiras estranhas. Mais devagar para alguns, mais rápido para outros (não foi sempre assim?). Quem se sente entediado vê os dias se arrastarem. Em contrapartida, aqueles que precisam conciliar os compromissos do trabalho com os da casa mal têm chance de parar para ver um pouco de televisão ou ler qualquer coisa. Para esses, o tempo voa.

A partir de questões elementares, a maior delas sendo talvez a que dá nome ao livro (“Por que o tempo voa”), o jornalista Alan Burdick, ex-editor da revista “New Yorker”, escreveu um tratado sobre o tema – um ensaio que ele define como “uma investigação sobretudo científica”, mas que é também filosófica.

Burdick passou algo como uma década trabalhando no livro e uma das qualidades mais evidentes da obra é o entusiasmo do autor, que chega a ser contagioso (com o perdão da palavra). Ele mesmo comenta que o livro se tornou uma espécie de lugar seguro e, ao longo dos anos, sentar para trabalhar no texto era o ponto alto de seus dias.

O interesse de Burdick é tão grande que às vezes é difícil acompanhá-lo. Ele tem um texto claro e consegue explicar conceitos complexos com desenvoltura (confira o trecho, no rodapé da página, sobre o funcionamento dos neurônios), mas isso não torna os assuntos menos complexos. Tanto é que existe uma diferença entre entender o que ele explica e ser capaz de replicar a explicação para outra pessoa (algo que vou tentar fazer aqui). Então se prepare para incursões pela filosofia de Aristóteles (“o tempo é uma propriedade da mente”) e Santo Agostinho (“tempo é um volume, nós somos o vaso que o contém”); por discussões sobre o relógio circadiano (biologia) e sobre as teorias de Einstein envolvendo o tempo e o espaço (física). Porém, não se preocupe, Burdick é um guia generoso e não tem pressa.

O ensaísta oferece muitas sacadas. Uma delas diz respeito à passagem tempo. Especificamente, sobre como o tempo parece passar rápido à medida que você fica mais velho.

Alguém chegou a cogitar que se tratava de uma questão matemática. Um ano parece muito mais para uma criança de 10 anos do que para uma mulher de 50 porque esse intervalo corresponde a uma fatia maior de tempo na vida da criança do que na vida da mulher.

“Por que o tempo voa” explora algumas respostas possíveis para essa impressão. A que parece mais contundente fala sobre “a pressão do tempo”. Ele passa rápido para a pessoa mais velha porque, em geral, os adultos são ocupados e têm o dia preenchido com as coisas da vida. Uma criança, ao contrário, tem muito mais horas livres e por isso sente o tempo passa mais devagar.

Há ainda o argumento sobre a intensidade das experiências. Quando elas são novas e, por consequência, mais intensas, o engajamento do cérebro é maior e a sensação é de que o tempo passa mais devagar. Um moleque de 7 anos tem mais experiências novas do que um adulto de 40. Outra teoria, também respaldada em experiências, diz que o tempo avança rápido ou devagar de acordo com o bem-estar da pessoa. Quanto mais ela sofre, mais lento é o passar do tempo.

Uma das conclusões a que Burdick chega é de que não existe uma teoria capaz de explicar tudo a respeito do tempo. Daí ele transitar por um punhado delas.

Outra explicação incrível, sobre a noção do que é “agora”, diz que o cérebro demora um pouquinho para processar os dados que chegam dos olhos e das orelhas, e para unir essas informações quando, por exemplo, alguém chama o seu nome. Ele leva, precisamente, oitenta milissegundos. Isso significa que o cérebro (ou que nossa consciência do presente) vive no passado. Um passado muito, muito recente, mas ainda assim. “O ‘agora só existe depois – e só porque você parou para anunciá-lo”, explica Burdick, na tradução de Paulo Geiger. “O pensamento consciente – por exemplo, a determinação de quando é ‘agora mesmo’ – tem um ligeiro atraso em relação a nossa experiência física. O que chamamos de realidade é como uma dessas transmissões de televisão ao vivo de espetáculos de premiação, que tem um breve delay, uma breve defasagem, um atraso introduzido para o caso de alguém falar um palavrão”.

Burdick explica o tempo universal coordenado (UTC), que define a hora certa no mundo todo; explica que o tempo é um fenômeno social (“Um relógio isolado funciona na medida em que se refere, cedo ou tarde, obviamente ou não, a outros relógios a sua volta”); vai atrás do relógio mais exato do mundo no Escritório Internacional de Pesos e Medidas, em Paris; analisa o funcionamento de nosso relógio interno (é por causa dele que alguns conseguem acordar sempre no mesmo horário sem a ajuda de um alarme); e apresenta o tempo como o sistema que o cérebro usa para manter nossas memórias ordenadas.

A amplitude dos interesses de Burdick e o cuidado em descrever experiências científicas em detalhes têm pelo menos um efeito colateral: às vezes, o texto parece se arrastar. Arrisco dizer que a culpa disso é das próprias pesquisas feitas pelos cientistas que estudam o tempo – parte delas é extremamente banal (como uma série de perguntas que precisam ser respondidas com uma escala que vai de “muito lentamente” até “muito rapidamente”) e mesmo um sujeito com um estilo agradável de escrita sofre para manter o interesse do leitor. Mas isso é compensado com folga pelas qualidades do livro.

Serviço

“Por que o tempo voa”, de Alan Burdick. Tradução de Paulo Geiger. Todavia, 400 páginas, R$ 74,90. Ensaio.

As orelhas detectam ondas sonoras, os olhos detectam ondas luminosas, o nariz interpreta moléculas. “Diferentemente de outras sistemas sensoriais, não existe um ‘material temporal’ do qual tenhamos um detector”, disse [o neurocientista comportamental Matthew] Matell. “É óbvio que o cérebro sente o tempo e controla nosso comportamento, mas isso que o cérebro está mensurando não é objetivo. É tempo subjetivo. O cérebro está prestando atenção a seu próprio funcionamento para poder dele derivar alguma paisagem temporal.” Até onde isso concerne à percepção humana, o tempo é o cérebro ouvindo sua própria fala.

Trecho de “Por que o tempo voa”, de Alan Burdick. Tradução de Paulo Geiger.
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