O Mundo sem Mad | Plural
Fide 2019
9 jul 2019 - 20h36

O Mundo sem Mad

Revista, ícone do humor anárquico, deixa de circular em agosto

Um paciente deitado no divã pergunta ao psicanalista “devo lhe contar meus problemas, doutor?”. “Não, fale dos problemas de sua mãe. Comece pelo boçal que ela tem por filho”. Um homem carregando um latão cheio de espinhas de peixe, restos de comida e bagaços de laranja atravessa o quintal. O vizinho lhe pergunta “você está jogando o lixo fora?”. A resposta: “Não, estou jogando fora o nosso jantar. O lixo eu coloquei na geladeira”. Um sujeito está gritando de dor pela sala, saltitando, o martelo no chão, o quadro na parede. A esposa põe a cabeça na porta e pergunta “acertou o dedo?”. “Não. Tô pulando de felicidade por ter um polegar inchado”. Uma fila enorme dando a volta na quadra. Um senhor pergunta para o ranzinza que está por último: “é o fim da fila?”. E ouve: “não, é o começo. Está todo mundo de costas”.

Esses diálogos fazem parte da série “Respostas Cretinas para Perguntas Imbecis”,  criada pelo cartunista Al Jaffee, para a revista Mad, que deixará de circular nos EUA em agosto, após 67 anos (quase) ininterruptos. Essa foi a notícia triste da semana, veiculada no Facebook pelo cartunista Ota, ex-editor da Mad no Brasil. Para quem não sabe, a revista Mad é aquela que tem um garoto sem um dente em todas as capas. O garoto em questão é Alfred E. Neuman e ele está em minha memória afetiva desde antes de eu aprender a ler.

Meu irmão mais velho colecionava a Mad da segunda fase, publicada pela editora Record. Nos anos 70 era editada pela Vecchi. Sem ainda entender, eu folheava as páginas e ficava intrigado com os desenhos de Don Martin e aqueles bonecos de pés dobrados e dedos mindinhos esticados. Havia violência e escatologia que, claro, não existiam nos gibis da Mônica e Disney que eu lia nas minhas primeiras leituras. Sabia que tinham desenhos de cocô que eram muito engraçados, e termos como “eca” até na capa.

As capas, por sinal, sempre me fascinaram. Lembro de uma que dizia em letras enormes: “Feliz 1989. Porque 1988 nós sabemos que vai ser uma merda”. Havia outras que mostravam Neuman segurando o “objeto inexistente” e sátiras dos filmes mais importantes da época. Neuman era autor também de frases como “Em terra de cego quem tem um olho é ciclope”. Ou ainda “Nunca diga desta água não beberei. A menos que esteja se afogando”. Ou “Até mesmo o homem que tem tudo sente inveja do homem que tem dois de tudo”.

Apesar de humor completamente anárquico, não havia trégua para os autores da Mad. Seus alvos eram políticos, a indústria do cinema, a violência nas ruas, a poluição, o consumismo, estrelas da música e, claro, a própria imprensa – a Mad e toda a sua “gangue de idiotas”.

Quando meu irmão mudou-se para Curitiba deixou um grande legado para mim. Além de uma dúzia de revistas pornográficas, uma coleção de exemplares da Mad ficou para trás. Me apropriei de todas e comecei eu mesmo a comprar as revistas. As primeiras que comprei foi em 1985. Com apenas 11 anos já tinha uma certeza na vida: seria cartunista. E era graças àqueles caras malucos.

Em 2007 viajei para o Rio e me hospedei por duas noites no apartamento de Otacílio D’Assunção Barros. O Ota, lendário editor da Mad de 1975 até os anos 90. Ele tinha dois apartamentos. Um onde morava e outro, no andar de cima, onde guardava toda a memorabilia da Mad que você pode imaginar. Além de livros e uma coleção de revistas que eu só tinha visto por fotos. Um lugar incrível que aquele garoto de 11 anos nem sonhava em conhecer. Eu pretendia ficar mais tempo, porém, havia sido chamado para publicar charges na página 2 da Folha, cobrindo as férias de Angeli, que publicava na Mad antes de criar sua própria revista, a Chiclete com Banana. Foi uma época memorável para o cartunista, que não havia atinado ainda que, nessa época, o fim já estava bem pra lá do começo.

A Mad americana deverá publicar ainda mais duas edições e depois vai para o limbo das revistas de humor, como National Lampoon, a Chiclete com Banana, Geraldão, Níquel Náusea, Piratas do Tietê, Circo, Animal e Casseta Popular. A cultura da publicação impressa foi importante mas, definitivamente, faz tanto sentido nos dias de hoje quanto os personagens de Dave Berg em seu “O Lado Irônico…”. Mas a Mad vai acabar mesmo?

1- Não, ela vai continuar existindo, mas como rolos de papel higiênico.

2- Não, só vai trocar de nome. Vai se chamar “Veja”.

3- (Deixe a sua resposta cretina para a pergunta idiota):

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