O midas da MPB não despreza o sertanejo | Plural
24 jan 2019 - 0h00

O midas da MPB não despreza o sertanejo

Depois de “descobrir” Elis Regina, Ney Matogrosso e Chico Buarque e dedicar seis décadas à música, André Midani, maior executivo da indústria fonográfica brasileira prefere ouvir sonatas em casa e alerta: “o mundo está zangado”

O senhor de passos miúdos e boné enterrado na cabeça chega para a entrevista 20 minutos depois do horário combinado. Pede desculpas. E diz que o atraso foi devido a um almoço casual com Jaime Lerner. “Somos amigos há muito tempo, e quis revê-lo”, diz André Midani, nome fundamental da indústria fonográfica brasileira, testemunha de seu naufrágio e memória viva da música que se produziu no país entre as décadas de 50 e 90.

Aos 87 anos, Midani esteve em Curitiba pela primeira vez no último fim de semana, para participar de um bate-papo na Oficina de Música. A vida profissional daquele que “descobriu” Elis Regina, Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Belchior, Paulinho da Viola, entre outros tantos, e deu um empurrão em Anitta no início de sua carreira, começou com um trote involuntário.

André Midani nasceu na Síria em 1932 e foi para a França aos três anos. Trabalhava no estoque da Decca Records francesa quando a guerra da Argélia estourou. Mudou-se para o Brasil em 1955. No dia seguinte à sua chegada, telefonou para a gravadora Odeon. Conversou em inglês com a telefonista, que pensou tratar-se de um funcionário da matriz europeia. Conseguiu agendar uma entrevista. Equívoco desfeito e emprego garantido: Midani teria a tarefa de lançar a marca Capitol no Brasil.

Midani é o remanescente do que um dia se chamou de executivo musical: o sujeito responsável por escolher o que era “bom ou ruim”, e por consequência, quem merecia um LP, músicas em rádios ou espaço em programas televisivos como Chacrinha – jabás e garrafas de uísque a jornalistas inclusos.

Nos anos 1960, recebeu um desafio de seus patrões da Polygram-Europa: fazer com que em três anos o selo desse lucro no Brasil. Para isso, catalogou 150 artistas e ouviu tudo em um mês, “sem nem ter tempo de ir ao banheiro”. Destes, selecionou 50, levando em consideração critérios “lógicos” como qualidade musical, empatia e força de trabalho. Daí saíram Ney, Elis, Gil etc.

Feeling e Curitiba

Nas décadas seguintes passou pela Companhia Brasileira de Discos, filial da Philips, Phonogram, Polygram e Warner Music, gravadoras que lançaram Kid Abelha, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje a Rigor e Arnaldo Antunes – “o maior poeta de sua geração”. Mas o que um artista precisa ter para vender, afinal? “Racionalmente, não sei te dizer. Às vezes é só feeling mesmo”.

Com Curitiba, Midani confessa que não tem relação alguma. Sobre a difusão musical local, Midani desmonta o antigo rótulo de “cidade autofágica” e vai na veia, como um bom homem de negócios: “não há nada contra os artistas daqui, mas essa limitação pode ser interpretada como… eu não gosto dessa palavra, mas como incapacidade de os artistas de Curitiba se fazerem presentes no país”.

Antes da entrevista e do almoço com Lerner, Midani leu um artigo no jornal inglês The Guardian, sobre a sofisticação dos streamings de música, e compartilhou suas impressões com este repórter. Com a independência autoral proporcionada pela Internet e pelas novas tecnologias, a figura do empresário musical parece cada vez mais anacrônica. Midani meneia a cabeça. “Sinceramente, não sei se a música ainda precisa dessas pessoas. Há sinas de que sim, e outros de que não. Hoje um músico de 15 anos já faz sucesso sozinho”, explicou. “Haverá outras manifestações profissionais mais adaptadas a esses novos tempos”.

Anitta? Sim, Anitta

Em 2015, André Midani propôs, ainda na Warner, um projeto chamado “Inusitado”, em que reuniu Anitta, Arnaldo Antunes e Arlindo Cruz. A ideia era gravar sambas. “Só sabia que ela fazia ‘bumbumbum’ e todo mundo achava uma porcaria. Mas pensei: pode ser engraçado e interessante. O resultado foi espetacular e ela desinibiu muito. Antes, só olhava para o chão. Depois disso, nunca mais me deu bom dia”, lembra o empresário. Em 2016 Anitta foi uma das participantes da abertura das Olimpíadas, no Rio de Janeiro e hoje é uma pop star internacional. Quem não ficou feliz foi Maria Bethânia, que soltou cobras e lagartos ao telefone: “como você tem coragem de, na sua idade, trazer uma porcaria como essa menina?”

Movimentos musicais mais populares no Brasil nas últimas décadas, o sertanejo universitário e o funk também têm atenção daquele que já foi chamado de “Midas” da música nacional. “É muito bom saber que a juventude tem com o que dialogar. Esse mundo do sertanejo é muito rico. Mas é necessário alguém para fazer com que estes músicos acordem para a responsabilidade cultural que têm. Eu já tenho 87, não farei isso.”

Livro e censura

Em 2008 Midani lançou seu livro de memórias, “André Midani: Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download” (Nova Fronteira). A obra foi censurada três meses depois do lançamento pela família de Enrique Lebendiger, ex-proprietário da gravadora RGE. Na obra, Midani descreve Lebendiger como “uma figura exótica que não tinha capacidade nem seriedade profissional para acompanhar a carreira de um profissional do calibre de Chico Buarque”.

O livro traz causos saborosos, como o primeiro encontro com Elis Regina, então esposa de Ronaldo Bôscoli: “poucos minutos depois, Bôscoli desceu do quarto e, pela primeira vez, tive o privilégio de assistir à explosão de uma briga monumental.” Em outra passagem, revela sua predileção por Erasmo Carlos: “jantar após jantar, o mote era: Erasmo, você é bem mais interessante que o Roberto”.

O papo sobre a censura desaguou em uma análise tão pessimista quanto realista sobre os caminhos traçados por alguns países. “O mundo está zangado. França, Alemanha, Itália, Áustria, Brasil [todos países em que a direita ou extrema-direita avançaram politicamente]. Parece ser um momento em que, inconscientemente, todo mundo está chegando à conclusão de que a religião, o sistema político e filosófico, nada disso deu certo. Não sou filósofo de talento, mas tenho impressão de que muita gente chega a essa conclusão: puta merda, não dá mais.”

Depois de seis décadas dedicadas à música brasileira, hoje Midani descansa. Quase não há compromissos. Serve jantares a amigos e a familiares três vezes por semana e diz ter “deslocado sua sensibilidade musical”, porque hoje prefere ouvir sonatas de Schubert, Debussy e Beethoven em casa, seja em programas de streaming ou no toca-discos. E as dicas que dá para novos artistas? “Trabalhe, trabalhe, trabalhe, trabalhe. Movido a paixão ou a ódio. Mas trabalhe”.

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