O Labirinto de Henfil | Jornal Plural
Clube Kotter
31 jan 2019 - 0h00

O Labirinto de Henfil

Benett comenta a triste semelhança do nosso país hoje com o Brasil que Henfil retratou há quatro décadas: pobreza, preconceitos e o insólito medo de um comunismo que ninguém sabe de onde virá.

O melhor do filme Black Mirror: Bandersnatch, da Netflix, é a interpretação que um desenvolvedor de joguinhos para videogame dá sobre o verdadeiro significado do Pac-Man, também conhecido pelo divertido nome de Come-Come, nos Ataris daqui do Brasil. Pac é a sigla para Programers and Controlers e a história é a de um programador preso em um labirinto mental, tentando fugir de seus próprios fantasmas que o perseguem com a intenção nada divertida de matá-lo. Sua única chance de sobreviver são as pastilhas – drogas ou ansiolíticos – que lhe permitem destruir as assombrações. Mas quando o efeito acaba os fantasmas voltam mais rápidos ainda do que antes. E a alegria do miserável Pac-Man dura menos de um segundo quando ele descobre que a porta secreta da saída, que ele encontrou em uma das paredes do labirinto, joga-o de volta para a mesma prisão infernal.

Quando peguei minha coleção de revistas do Fradim, do Henfil, lançadas pela editora Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu) nos anos 70 e 80, percebi que de alguma maneira estamos presos numa espécie labirinto histórico há décadas, sem encontrar uma saída e sendo assombrados pelos poltergeists atemporais de sempre. No momento em que chegamos a achar que estávamos encontrando a saída de períodos nebulosos de nossa história, caímos de novo no velho cenário político, com as mesmas assombrações recauchutadas: o medo do comunismo, os golpes militares, a corrupção, os preconceitos, a pobreza, o analfabetismo, os militares, as conspirações que pretendem destruir a família e o cristianismo, os desastres ambientais.

A capa da edição número 14 da revista Fradim, lançada em novembro de 1976, tem o título “O cumunismo que assola o Baixim”. Baixim é o personagem sádico e pervertido da dupla de frades que Henfil criou para a revista Alterosa, ainda em Minas Gerais, no final dos anos 60. Logo na página três o Baixim cumprimenta um senhor de terno escuro e se apresenta dizendo “sou comunista”. O homem se espanta, arregala os olhos, o terno perde a cor e ele corre lavar a mão com água e todo tipo de desinfetante.

Na página 15 um cartum mostra que a realidade social daquele Brasil, muitas vezes romantizado pelos simpatizantes da ditadura militar, não era lá essas coisas. Uma socialite aponta para um menino negro e grita “Hah, um trombadinha, né?”. E ele responde: “Não! Sou 85% analfabeto, 90% abandonado, 14% seviciado e 60% deficiente de coordenação motora”. Esses cartuns eram, em geral, comentários do noticiário político da época.

No Fradim 8, de abril de 1976, Cumprido pergunta para Baixim o que ele tá fazendo “aí em cima?”. Sem aparecer no quadro, ele responde: “Exercendo o único dos meus direitos civis”. Qual? BANG! “O direito do porte de arma.”

No número anterior, de março de 1976, Baixim caminha de maneira afeminada cantando “Moça”, do Wando, em direção a um policial. Ele para em frente à autoridade e diz “Oi, azeitona”. O policial levanta o cassetete para arrebentá-lo. “Ahhh. Me quebra!”. Me queima! Me estrangula toda”, debocha o “depravado” personagem.

Temas recorrentes

Religião, sexo e política são as carótidas do trabalho do Henfil, nascido em Ribeirão das Neves em 1944 e morto tragicamente em 1988, por conta da AIDS, contraída em uma transfusão de sangue. Ele e seus dois irmãos, Betinho e Chico Mario, eram hemofílicos. Morreram num intervalo de dez anos.

Se nas aventuras do Fradim os temas em geral são a religião, a liberdade ou o sexo, nas tiras do Zeferino a seca e a miséria são cenários tão fixos quanto os cactos e os crânios de gado morto pela fome. Em uma entrevista para a “patota” do Pasquim, Henfil conta que Zeferino, Graúna e Bode Francisco Orelana não vivem no nordeste, mas no interior de Minas, no seridó. Alguns quilômetros de Mariana e Brumadinho, pelo jeito.

No entanto, é nos cartuns de um personagem secundário chamado Orelhão que percebemos o quanto estamos presos no nosso labirinto particular do Pac-Man: vacinas, desemprego, inflação, filas em hospitais públicos, violência urbana, esquadrão da morte – espécie de precursor macabro das milícias do Rio, políticos corruptos e tragédias ambientais.

Para conhecer melhor a personalidade genial e geniosa de Henrique Filho, o documentário Henfil, de Angela Zoé, lançado em dezembro de 2018, exibe várias cenas de vídeos caseiros feitos pelo próprio cartunista e depoimentos de  parentes e amigos dos tempos do Pasquim, como Jaguar e Ziraldo. Cartas da Mãe e Henfil, um documentário, são também excelentes referências para se ter uma ideia de quem foi o autor desses cartuns que selecionamos aqui, publicados há mais de 40 anos. Que, no entanto, permanecem perturbadoramente atuais, como os próprios demônios do Pac-Man.

“Morro. Mas meu desenho fica”.

Henfil, 1944 – 1988.

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