“O irlandês” é uma das melhores coisas que você vai ver neste ano | Plural
19 nov 2019 - 0h15

“O irlandês” é uma das melhores coisas que você vai ver neste ano

Novo filme de Martin Scorsese tem um elenco espetacular e virou trunfo da Netflix sobre as salas de cinema

Quarta-feira da semana que vem, 27 de novembro, é o dia em que estreia “O irlandês” na Netflix. E isso é importante por alguns motivos. Do ponto de vista comercial, porque é o maior olé que a Netflix deu na indústria cinematográfica desde a invenção do streaming. Do ponto de vista artístico, porque é um filmaço. Do tipo que faz 3h30 passarem voando (sim: três horas e trinta minutos).

Trata-se do mais novo filme de Martin Scorsese e o primeiro que ele lança fora do circuito comercial dos cinemas.

O diretor fez pressão para que “O irlandês” passasse nas maiores redes exibidoras dos Estados Unidos antes de estrear no streaming – de acordo com reportagem do New York Times. O problema é que elas queriam uma janela de três meses de exibição, alegando que esse seria o tempo necessário para ganhar seus trocados, e a Netflix estava disposta a dar apenas um mês, explicando que seu negócio é streaming e não cinema.

Como as partes não entraram em um acordo, os cinemas se recusaram a exibir “O irlandês” por apenas um mês e a Netflix estabeleceu a data que quis para a estreia, além de organizar sessões especiais de cinema – porque fora do circuito comercial – em várias cidades do mundo, de Nova York a Curitiba (o filme está em cartaz no Cine Passeio, e por pouco tempo).

Para resumir muito uma história longa: os estúdios de cinema se recusaram a bancar a produção de “O irlandês” por considerar o valor de US$ 100 milhões alto demais. Eles só se dispõem a gastar esse tipo de dinheiro em histórias de super-herói e olha lá. Uma parte considerável desse valor de produção tem a ver com uma tecnologia que rejuvenesce os personagens, de modo que a narrativa percorre mais de meio século sem usar maquiagem ou atores jovens substituindo os velhos.

No fim, o filme custou muito mais (US$ 175 milhões) e a Netflix aceitou pagar toda a conta com uma condição: depois de pronto, ela decidiria o que fazer com “O irlandês”. Daí a briga com os cinemas e a decisão de privilegiar as telas menores. Assim ganhamos o privilégio de ver a estreia de um Scorsese sentados no sofá de casa. (Apelando para uma metáfora futebolística: Scorsese fazer um filme para a Netflix é como se Messi deixasse o Barcelona para jogar pelo Real Madrid.)

Essa disputa entre os cinemas e a Netflix ganhou bastante cobertura da imprensa nos Estados Unidos porque diz respeito ao futuro da indústria cinematográfica americana, uma indústria que movimenta bilhões de dólares por ano. Até mesmo Scorsese entrou no debate, explicando por que não gosta de filmes de super-herói – para ele, essas produções têm mais a ver com parques de diversão do que com cinema. Uma tradução do texto saiu na Folha de S. Paulo.

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Robert De Niro (à dir.) tem 76 anos e Al Pacino (ao lado de De Niro), 79. No filme, eles são rejuvenescidos 20, 30 e até 40 anos por meio de um programa criado pela Industrial Light & Magic, de George Lucas. A cena acima é um exemplo desse efeito.

A história real de “O irlandês” é baseada no livro de Charles Brandt, publicado no Brasil pela editora Seoman com o mesmo nome do filme. O título original da obra, na verdade, é “I Heard You Paint Houses” (“ouvi dizer que você pinta casas”, uma espécie de código usado pela máfia para saber se o sujeito é assassino).

O irlandês é Frank Sheeran, interpretado por Robert De Niro, um ex-motorista de caminhão que se aproxima da máfia e passa a fazer serviços para Russell Bufalino, um chefão vivido por Joe Pesci. É Russell que coloca Frank em contato com o líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino), uma das figuras mais influentes de sua época (nos anos 1960, ele teria sido maior que os Beatles, o filme explica). Ele era presidente do sindicato dos motoristas de caminhão e seu poder político, imenso. Carismático, ele conseguia mobilizar milhões de motoristas em torno de si e podia parar o país, se quisesse. Além de administrar uma cifra bilionária em pensões da categoria.

Porque ele tinha acesso a essa fortuna – e a mantinha em um cofre, no prédio do sindicato –, ele tinha condições de emprestar dinheiro para a máfia sem fazer perguntas. Seus contatos e suas incursões políticas passam a incomodar um bocado de gente e aqui entra Frank: ele se torna o guarda-costas de Hoffa.

Um dos fatos abordados em “O irlandês” é o desaparecimento de Hoffa, em 1982, um dos mistérios insolúveis da história americana. Ao menos até o escritor Charles Brandt conseguir arrancar um relato de Frank Sheeran, no fim da vida, sobre o que teria acontecido (supondo que você não leu sobre isso ainda, não vou dar spoiler).

O roteiro de Steve Zaillian (que já tinha trabalhado com Scorsese em “Gangues de Nova York”) é, na verdade, sobre muito mais coisas do que o sumiço de Hoffa. O filme fala da influência da máfia na história americana, de família e amigos, fala de violência e de fidelidade ao mesmo tempo que permite a Scorsese fazer um filme que é, em alguma medida, uma síntese dos temas que abordou ao longo da carreira. Não bastasse tudo isso, ele coloca lado a lado três atores incríveis: De Niro, Pacino e Pesci, em papéis extraordinários.

Não se deixe enganar pela facilidade com que você vai acessar “O irlandês” – no conforto de casa, com um controle remoto na mão. Não existe nada de banal a respeito desse filme. É cinema de verdade e uma das melhores coisas que você vai ver neste ano.

Serviço

“O irlandês” está em cartaz no Cine Passeio, com uma sessão diária às 19h. Os ingressos estão sendo vendidos pela Event Brite, no site ou no aplicativo, e não podem ser comprados na bilheteria do cinema.

O filme estreia na Netflix na quarta-feira, dia 27 de novembro.

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