10 maio 2022 - 13h04

O homem que amava os filmes

Em entrevista, Marcelo França Mendes, autor do livro “Eu que amava tanto o cinema”, fala sobre como abrir o Estação Botafogo desgastou sua relação com filmes

Marcelo França Mendes amava tanto os filmes que, aos 19 anos, decidiu abrir um cinema: o Estação Botafogo. Isso foi no Rio de Janeiro dos anos 1980. Ele conta essa história no livro “Eu que amava tanto o cinema”, que a editora Cobogó acaba de publicar.

Depois de uma vida trabalhando no circuito de exibição, Mendes diz que gostaria de ter continuado apenas um cinéfilo, sem ter de administrar um negócio que depende da renda gerada pelos filmes. Hoje, a rede de cinemas leva o nome de sua patrocinadora: Estação NET Cinema.

Na entrevista a seguir, Mendes admite que, se pudesse dar um conselho para sua versão de 40 anos atrás, ele diria: “Não se mete nisso”.

Quando surgiu a ideia de contar a história do Estação Botafogo em livro?
Em 2014, quando o Estação teve uma crise grande e chegou perto da falência, escrevi sobre isso no Facebook. As pessoas ficaram surpresas com essa possibilidade e começaram a perguntar o que poderiam fazer para ajudar. Sugeri que escrevessem histórias afetivas que tinham com o Estação, histórias de coisas que aconteceram com elas. Contando por que o Estação era importante na vida delas a ponto de quererem fazer alguma coisa para o cinema não fechar.

E para estimular, comecei a escrever algumas histórias que eu tinha vivido ao longo de 30 anos. As pessoas foram gostando, foram incentivando e foram pedindo mais, dizendo que isso daria um livro. E nunca me passou pela cabeça ser um escritor, até que começou a pandemia.

O fato é que poderíamos morrer. Eu poderia morrer e não contaria a história do Estação. Então me aventurei a escrever o que seria um livro, sem ter editora, sem saber se conseguiria publicar. Era mais para deixar registrado.

Que conselho o Marcelo de hoje daria para o Marcelo de 40 anos atrás?
Sinceramente, hoje, não me sai da cabeça a sensação de que eu preferia ter sido apenas parte do público. Porque eu amava o cinema, daí o título do livro. Isso não quer dizer que deixei de amar, mas eu amava mais. Ou seja, o cinema me surpreendia.

Por mais que a gente tivesse surgido como uma iniciativa cultural, quando o cinema começou a crescer, ele virou um negócio que precisava se manter. Não para ganhar dinheiro, mas para existir, para pagar salários. Os filmes de que eu gostava tanto viraram um negócio.

Então comecei a exibir filmes que eu mesmo não gostava, apesar da gente ter criado o Estação para ver filmes que a gente queria ver. Isso foi desgastando a minha relação com o cinema. Hoje, eu diria para o Marcelo de 40 anos atrás: “Fica perto, ajuda da maneira que puder, mas não se mete nisso. Seja parte do público, frequente o Estação semanalmente, vá sempre e tal, mas não entre nessas questões de ter um negócio, de administrar um negócio”.

Sem entrar na questão da programação, qual a principal diferença que você vê entre um cinema de rua e um cinema de shopping?
A principal diferença é o público. Cinema de shopping, em geral, é um público muito mais jovem. No shopping, mesmo quando você vai ver um filme mais adulto, tem um público jovem que entrou na sala inadvertidamente. E você acaba tendo outra experiência.

Eu sou da época em que você tinha uma certa reverência ao cinema – nada de conversar ou de olhar o celular. Em um cinema de rua como o Estação, as pessoas são, digamos assim, mais respeitosas com o que estão vendo.

Sem contar que o shopping está muito ligado ao consumo, o que não é muito a linha dos poucos cinemas de rua que ainda existem. Todos eles são mais autorais. Eles não estão ligados a essa coisa de consumo de coisas. Acho que a principal diferença, na realidade, é o público.  

A realidade em que vivemos hoje permitiria o surgimento de uma iniciativa como a do Estação Botafogo?
Hoje, para abrir um cinema, tenho a sensação de que teria que passar por uns 250 business plans, coisa que a gente nem pensou em fazer. A gente simplesmente meteu a cara e fez. Porque a gente queria ver os filmes. Acho que hoje, com a facilidade que você tem de acesso aos filmes e com os problemas econômicos, dificilmente uma iniciativa como a nossa sairia do papel. O Estação envolvia circuito de cinema, distribuidora de filmes e festival de cinema. A gente vivia, basicamente, da bilheteria. Os apoios e patrocínios eram para melhorar a qualidade das instalações ou para ampliar as instalações.

Livro

“Eu que amava tanto o cinema”, de Marcelo França Mendes. Cobogó, 336 páginas, R$ 65. Memórias.

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