O final político feliz em Game of Thrones (com spoilers) | Jornal Plural
20 maio 2019 - 9h42

O final político feliz em Game of Thrones (com spoilers)

A desigualdade e a tirania ainda não terminaram, mas os avanços são inegáveis, diz Michel Urânia

Game of Thrones não teve um final satisfatório para a maioria de seus fãs, que fazem um abaixo-assinado para que a derradeira temporada seja refilmada. Além de muitas outras reclamações, o ponto mais discutido é o arco dramático de Daenerys Targaryen, indo da misericordiosa libertadora de escravos até a rainha maquiavélica. Mas, do ponto de vista político, Game of Thrones teve um final feliz.

Não apoio a monarquia, nem no nosso mundo, nem em Westeros, mas são inegáveis os avanços em direção à democracia. É bom ver que um reino que já foi governado por loucos, como Aerys, Robert e Joffrey agora está nas mãos da pessoa que melhor conhece seu povo, seu território e sua história.

Também agradam aos democratas o fim da hereditariedade e o surgimento da ideia de voto popular, que mesmo não sendo levada a sério pelo conselho de Lordes neste final de temporada, é algo que ficou na mente de todos e poderá ser colocado em prática num futuro não muito distante.

Outro ponto forte foi a manutenção do Tyrion Lannister como Mão do Rei. Apontado pelo historiador Leandro Karnal como “a melhor opção”, o famoso anão que serviu Daenerys Targaryen é a prova de que até nos piores governos nós podemos encontrar pessoas de bom caráter e com boas ideias. O Rei Bran, que enxerga o passado, o futuro e o presente, deve ter se inspirado em Nelson Mandela para essa indicação.

Por fim, é necessário louvar o respeito à autodeterminação dos povos, tanto do Povo Livre, que agora pode viver tranquilo em suas florestas além da muralha, quanto do Norte, que decidiram não integrar os agora Seis Reinos.

A desigualdade e a tirania ainda não terminaram. O deboche à auto-proposição real de Edmure Tully soou como um “se coloque no seu lugar” e demonstrou que as casas mais fracas ainda não terão o direito de participar das decisões importantes. Do mesmo modo, é questionável a indicação de Bronn como Mestre da Moeda, que se deu por negociações espúrias de reinados anteriores. Por fim, mesmo contente com a independência do Norte, é impossível não sentir o cheiro de nepotismo ao ver a coroação da Rainha Sansa Stark, irmã do Rei Bran.

É (infelizmente) natural que por vezes a injustiça da sociedade e a demora das soluções democráticas nos leve a cogitar a tirania como solução. Até este que vos escreve, que agora saúda o Rei Bran, já vibrou com as atrocidades de Daenerys Targaryen no outro continente. Nos resta a atenção no mundo real para não cometer os mesmo erros e chegar a situações tão bárbaras quanto a do penúltimo episódio, pois só o consenso agrada à justiça. Eu acredito num mundo sem Dracarys.

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