Nova tradução reapresenta "poeta do Holocausto" ao leitor brasileiro - Jornal Plural
22 jul 2021 - 17h34

Nova tradução reapresenta “poeta do Holocausto” ao leitor brasileiro

Editora 34 lança A Rosa de Ninguém, de Paul Celan, em tradução de Maurício Cardozo

A publicação de na tradução de Die Niemandsrose  na tradução de Maurício Cardozo (A rosa de ninguém, 2021) significa uma (re)virada na recepção de Paul Celan em língua portuguesa. Celan havia sido traduzido no Brasil por Flávio R. Kothe e por Cláudia Cavalcanti, e, em Portugal, por João Barrento, em antologias. Traduções esparsas de seus poemas também já haviam aparecido em revistas e jornais  – como as minhas próprias. Assim, até agora, o poeta romeno de língua alemã havia sido apresentado apenas de forma dispersa.

Não que as antologias ou traduções pontuais sejam em si algo ruim. Mas há que se considerar que o livro de poesia tem, desde o Renascimento (ou antes), uma dimensão semântica de que nenhuma antologia dá conta. Pense-se, por exemplo, em As Flores do Mal ou, entre nós, em Claro Enigma. Trata-se de livros que, lidos em conjunto, deixam entrever um esqueleto, ou, pelo menos, uma ossada que aponta para uma forma de totalidade de sentido. E o que dizer de separar-se os poemas de Educação pela pedra, se até mesmo editá-los sem respeitar a relação material da sua paginação geométrica já significa descontextualizar a leitura? Claro que há livros e obras menos “orgânicos” que os mencionados, e não são poucos os autores que se contentam em acumular “recolhas” de poemas. Mas mesmo as recolhas são escolhas: importa pensar o que foi deixado de fora.

Assim, agora podemos ler hoje A rosa de ninguém como um livro, no sentido orgânico: desde a dedicatória a Óssip Mandelstam ao último poema, que termina com os  seguintes versos:

as criaturas dos vaus, sobre as quais
o pé torto dos deuses vem
tropeçando – no tempo
sideral de quem
tarde demais?

Quem são essas criaturas? Nesse poema final do livro, que se inicia com o verso “NO AR, é aí que fica a tua raiz, aí”, essas criaturas permanecem inominadas, embora sejam qualificados como “os dispersados” e “os sempiternos estrangeiros”. Sabemos que Celan era judeu de origem, e que os judeus eram assim chamados, de “errantes”, por haverem vivido séculos em êxodo. Mas, se remontarmos à dedicatória do livro, lembramos que o poeta russo Óssip Mandelstam também era judeu, e também foi “dispersado” pelo regime stalinista, também acabou se transformando num “sempiterno estrangeiro” na URSS.

A presença de Mandelstam, em A Rosa de ninguém, também não se limita à dedicatória. Mandelstam é citado direta ou indiretamente várias vezes no livro, como em “Tarde com circo e citadela”, em que seu nome sobre o acréscimo de um “m”, enfatizando uma etimologia composta de “Mandel” (amêndoa, símbolo de pertencimento ao povo judeu) e “Stamm”, que tanto o pode ser tronco, haste, quanto origem, tribo (daí a excelente tradução de Cardozo, “Óssip Mandel’stame”). Além disso, pouco antes de publicar A rosa de ninguém (1963), Celan havia traduzindo a poesia de Mandelstam para o alemão.

Num dos ensaios seminais de Mandelstam, “O interlocultor” (1913), o poeta russo da geração vanguardista de V. Maiakóvski e M. Tvsietáieva afirmava que o poema é ao mesmo tempo uma carta endereçada e uma mensagem numa garrafa lançada ao mar: ele pressupõe um interlocutor, mas não afirma quem seja o interlocutor, nem espera que ele esteja diante de si. Do mesmo modo, o conteúdo de um poema não se limita ao que ele comunica: ele pode estar falando com ninguém, sobre nada. Dizem as anedotas que, nos últimos anos, Mandelstam falava sozinho coisas incompreensíveis, assim como Hölderlin, que aparece no poema “Tübingen, Janeiro” do livro de Celan, falando palavras sem sentido. Segundo se lê no ensaio de Mandelstam, “o poeta está ligado somente ao interlocutor providencial”, isto é, aquele que num determinado momento encontra a garrafa com a mensagem. Em outros termos, o leitor.

No discurso “O Meridiano”, contemporâneo das traduções de Mandelstam e da escrita de A rosa de ninguém, Paul Celan não apenas retoma o ensaio de  Mandelstam, mas amplifica a tensão entre o falar com o Outro (“o poema precisa desse Outro”)  e o falar com ninguém e mesmo não falar (“e poema é solitário”, “ele mostra uma tendência ao emudecimento”). Aliás, num outro poema famoso, Celan associa o poema (Gedicht) ao “nadema” (Genicht), uma de suas muitas palavras inventadas (artifício usado também por Mandelstam e pelos poetas russos modernos). 

Essa tensão entre comunicar e silenciar atravessa os poemas de A rosa de ninguém, desde o título (que rosa? que ninguém?). Ela responde pelo propalado “hermetismo” de Paul Celan, hermetismo que pediria, segundo Flávio R. Kothe, e também segundo o filósofo H.G. Gadamer, uma hermenêutica. Em Quem sou ? Quem és tu? , Gadamer tentou realizar tal hermenêutica, assim como Kothe o fez na pioneira publicação Hermetismo e Hermenêutica (1985). Mas em ambos os casos, a sensação final é de que, se por um lado, o método hermenêutico se define perfeitamente, o sentido dos poemas finalmente escapa.

O que a tradução de Cardozo propõe vai assim na contramão de um “fechamento” de leitura e de sentido, inclusive porque abole as milhares de notas necessárias a contextualização de cada poema especificamente. Por exemplo, em A Rosa de ninguém não se vê  a referência a François Villon (à “Balada dos enforcados”, que Mandelstam também apreciava) na “Balada Malas-arte e Triquetraz…” (p. 75), ou à iconografia ortodoxa cristã em “Mandorla” (p. 103), magnífico e intrincado poema, que trata também do holocausto, na medida em que a “madeixa judia” que “grisalha” é também a que “vira cinza”; ou seja, uma imagem dos cabelos das vítimas carbonizados pelos nazistas nos campos de concentração.

Sabemos que Celan é identificado normalmente como o “poeta da Shoah”, e que sua poesia provocou uma diatribe intelectual gigantesca a partir da afirmação de Theodor W. Adorno de que “escrever poesia depois de Auschwitz é barbárie”. Logo, o leitor de A rosa de ninguém pensará que se trata de um poeta judeu falando de assuntos judaicos e do holocausto nazista. Um poema como “Era terra dentro deles, e” pode autorizar tal leitura. E no entanto, a epígrafe do poema “E COM O LIVRO DE TARUSSA” (p. 179), da poeta russa Marina Tsvetáieva, afirma: “todos os poetas são judeus”. E o que dizer de um poema como “PALAVRA DE IR-AO-FUNDO” (p. 43)? Leiamos:

PALAVRA DE IR-AO-FUNDO,
a palavra que lemos.
Os anos, as palavras desde então.
Somos nós, ainda.
Sabe, o espaço é infinito,
sabe, você não precisa voar,
sabe, o que se inscreveu em teu olho,
profunda-nos o profundo.

A única informação concreta que temos desse poema, é que Celan estaria pensando em sua mulher, a artista gráfica francesa Gisèle Lestrange, com quem viveu até jogar-se de vez nas águas fundas do rio Sena, em Paris (1970), deixando a viúva e um filho pequeno – Eric, a quem provavelmente é dedicado o belíssimo poema “CORTEI BAMBU:” (p. 137) . Como ocorre em outros poemas, Celan oblitera as razões e as informações circunstanciais concretas (onde? quando? por quê? o quê?), e deixa o poema girar em torno dos pronomes: eu, tu, nós.

Sabemos que se estabelece entre os “personagens” uma relação que se aprofunda no tempo e no espaço, e que as palavras funcionam ora como instrumento/mediação, ora como identificação entre o que foi lido pelo “nós”, e que aparece depois “inscrito” no olho do “tu”. Fala-se também de uma tensão entre o ficar e o sair, entre o mergulho e o voo, entre o ser e o estar. Trata-se de um poema de amor? É um poema sobre o compromisso? Será um poema sobre a relação? Quem aqui é o judeu, o alemão, o romeno, o francês? Em que língua se “inscreve” o que está no olho do outro? Não sabemos. Nunca o saberemos.

Na verdade, o poema é como uma concha sonora: o molusco, que um dia o habitou, ali já não está. Tampouco o mar a penetra. O que há é apenas um vazio, e um eco (uma imagem acústica), que depende de um ouvido (uma outra concha) para se concretizar. “Eu sou tu, quando eu sou eu”,  diz um dos mais famosos versos de Celan, que ecoa no verso de Tsvetáieva (“os poetas – judeus”), que é como a mensagem na garrafa de Mandelstam.  Além disso, uma vez que os pronomes não possuem referencias concretas, eles funcionam como dêiticos. Um dêitico é uma palavra sem significado próprio, ou cujo significado depende de saber quem fala e onde fala. Se eu digo “eu, aqui”, eu sou um poeta romeno-judeu exilado na França que escreve em alemão. Mas se você diz “eu, aqui”, você é um palestino sob um bombardeio israelense.

Por isso, mais do que hermética, a poesia de Celan é estética, e ética: como uma concha, ela está feita de mil e uma volutas de madrepérola, é perfeita na sua forma, mas lá já não está o criador (o molusco, ou o sentido): ela depende antes de uma relação, a qual se renova sempre que houver um Outro. Ela é a própria “palavra de-ir-ao-fundo”, ela se inscreve em nosso olho e “profunda-nos o profundo”. Gostei muito desse pseudo-caipirismo norte-parananese, desse “profundar” quase dialetal (ouço Maurício lendo), que ao mesmo tempo remete para as sucessivas amputações que Celan faz nas palavras alemãs, quiçá para ferir a linguagem do opressor alemão, que está “inscrita” profundamente no poeta romeno, cujo nome de registro era, salvo engano, Paul Pessach Ančel.

A tradução, como a que se a-presenta em A rosa de ninguém, cria condições para que a relação ética se estenda no espaço e no tempo, sem contudo descuidar-se do estético. Afinal, o que se lê no final do “Meridiano”, vale para a boa tradução, como a de Maurício Cardozo: ela “atravessa os tropos”, e, ao mesmo tempo, “atravessa os Trópicos”.

Apenas na Travessia é que se recebe a Rosa.

Serviço
A Rosa de Ninguém, de Paul Celan. Tradução de Maurício Mendonça Cardozo. Editora 34, 192 páginas, R$ 52.

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