Nosso professor de jazz | Plural
30 jan 2019 - 0h00

Nosso professor de jazz

Conheça Osvaldo Hoffmann Filho, o homem que anima (e acalma) os motoristas na hora do rush em Curitiba, com seu fabuloso Tempo de Jazz.

A cada vez que Osvaldo Hoffmann Filho descobre um disco, uma música, um cantor, a cidade inteira fica feliz. Porque não vai demorar para isso sair das mãos dele, passar pela mesa da Rádio Educativa e chegar a você.

Há cinco anos, Osvaldo assumiu as picapes do Tempo de Jazz de segunda a sexta – programa que é transmitido num dos horários mais nobres do rádio, às 18h, quando muita gente está no carro ouvindo algo enquanto espera o trânsito andar.

O Tempo de Jazz acalma os motoristas com Sinatra, anima com dixieland e de vez em quando apresenta alguma coisa que você nunca pouviu falar – mas que vai procurar no Google assim que chegar em casa.

Em entrevista ao Plural, o DJ explica como cria o programa e dá uma dica para você ouvir depois de terminar este texto. Além de, claro, ouvir o programa diariamente em 97,1 FM.

De onde surgiu a paixão pelo jazz?
Desde garoto ouço música. Começou quando ganhei um pequeno rádio de pilhas do meu pai, lá nos anos 1960. Ouvia MPB, Beatles e mais tarde rock e blues. Na faculdade comecei a me interessar por jazz, embora, confesso, achasse meio cerebral e difícil. Com o tempo aprendi a apreciar a riqueza dos improvisos e passei a comprar discos de jazz. Um dos primeiros, lembro bem , foi Gerry Mulligan e Astor Piazzolla juntos. 

Há quanto tempo você faz o programa? De quem foi a iniciativa?
No final dos anos 1990 eu comecei a produzir e apresentar um programa na Rádio Educativa chamado Educativa Cult. Nesta época fui convidado a fazer a produção musical de apenas um dia, todas as segundas, do Tempo de Jazz.  Em 2014 passei a produzir todos os cinco programas da semana, e assim sigo até hoje. Já escrevi mais de 1.500 programas!

A impressão é que teu estoque de ideias, de faixas para usar no programa é infinito… Você ouve música o dia inteiro?
Na verdade o Jazz é um gênero infinito. Impossível conhecer tudo. Eu não escuto música o dia inteiro. Quando trabalho, por exemplo, gosto de silencio. Mas em casa ou no trânsito, fico sempre ligado. Gosto muito de ler sobre jazz nos jornais, nos sites especializados e nos livros. Assim sempre me atualizo com os novos artistas, embora deva admitir que o que mais gosto tem um pé lá nos anos 1930, 40 e 50.

Como faz para acompanhar tudo que sai? Você ainda compra discos? Usa qual streaming?
Desde jovem compro discos. No começo eram os famosos LPs, depois vieram as fitas cassete e depois os CDs. Sempre que ia aos Estados Unidos, trazia uma mala cheia deles, principalmente de jazz. Hoje tenho uma discoteca respeitável, mas confesso que atualmente escuto pouco discos. Prefiro as seleções do Spotify e das rádios pela Internet. Compro muita música pelo iTunes. e gosto muito de ir a shows.

Que critérios você usa para “equilibrar” os vários tipos de jazz em cada programa?
Eu sigo alguns macetes que aprendi como DJ. Procuro tocar músicas conhecidas intercaladas com as menos conhecidas. Misturo performances vocais com instrumentais e também procuro balancear músicas lentas com as mais suingadas e movimentadas. O importante é não deixar o ouvinte mudar de estação, rsrsrsrs.

Existe algum estilo dentro do jazz que seja teu favorito?
Sim, gosto muito do hard bop, um estilo que surgiu no final da década de 1950 com o esgotamento do bop. Ele foi fortemente influenciado pelo rhythm and blues, pelo gospel e pelo blues. Também gosto muito de blues. Adoro o dixieland, ou jazz tradicional e o público também curte quando apresentamos no programa. 

E algum que você não consiga engolir?
Bem, eu tenho algumas restrições meio inconfessáveis, mas não posso deixar de apresentá-las no Tempo de Jazz, afinal estamos numa emissora educativa e temos que ser impessoais na programação. O propósito principal do Tempo de Jazz é entreter os ouvintes, então eu evito temas muito longos e difíceis. John Coltrane, por exemplo, foi um gênio do jazz, mas algumas músicas dele, aposto, nem ele conseguiria ouvir, rsrsrsrs

O curitibano tem ouvido mais jazz? É possível influenciar as pessoas a partir de um programa de rádio para que elas curtam algo mais sofisticado?
Sim, dá pra perceber uma atenção maior da cidade para com o jazz. É bom lembrar que temos em Curitiba uma cena jazz bem forte, com muitos lugares onde se pode ouvir boa música: o Dizzy Café, o Bar o Pensador e o Full Jazz,  sem esquecer os festivais que acontecem na cidade e também em Morretes e na Ilha do Mel.  A lista de músicos que aqui trabalham é extensa: José Antonio Boldrini no contrabaixo, Jeff Sabag no piano, Glauco Sölter no baixo elétrico, a cantora Selma Baptista, Endrigo Bettega na bateria, etc. E, claro, a Rádio Educativa com o Tempo de Jazz, que é um dos programas mais ouvidos da estação, além do Cena Jazz, produzido pelo Mauricio Cruz ajudam a divulgar o gênero. Tudo isso aprimora do gosto musical dos ouvintes, afinal ninguém que seja um pouco esclarecido suporta mais esta onda de sertanejo e funk que assola nossos meios de comunicação.

Como é a parceria com a Betina Müller? Ela hoje é “a voz” do programa, a ponto de parecer impossível fazer sem ela.
Concordo, a Betina Müller é “A Voz” do Tempo de Jazz. Admiro o trabalho dela há muito tempo. Temos uma relação de muito respeito, apesar de vê-la muito raramente. Eu escrevo os roteiros e os envio por e-mail e e ela, com seu talento, dá vida ao meu texto.

Recomenda uma música pro pessoal ouvir assim que terminar de ler a entrevista.
Eis ai uma pergunta difícil, pois são muitas as sugestões. A cada uma que eu escolher, deixo de fora milhares de outras. Mas, só para fechar esta entrevista com chave de ouro, escolho uma dupla que resume a hitória de todo o jazz, Louis Armstrong e Billie Holiday juntos interpretando “You Can’t Lose a Broken Heart”.

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