4 dez 2021 - 9h26

Música clássica: os 12 álbuns de 2021 que você deveria ouvir (parte 1)

Beethoven, Chopin, Brahms… Veja algumas das melhores gravações lançadas neste ano

É bem provável que você esteja pensando algo como “ué, mais de doze discos de música clássica em 2021?”. Eu conheço a piada: Beethoven continua morto. É que foge ao senso comum a quantidade absurda de gravações novas de música clássica que são lançadas todas as semanas. Dezenas, sempre às sextas. Tenho acompanhado de pertinho a indústria fonográfica desde o ano passado e beira o insano filtrar, ouvir, entender, comparar tudo o que eles lançam. Sério, é muita coisa. Não consigo escutar nada mais de duas vezes; não dá tempo.

Desse mundaréu de disco, alguns se destacam por suas interpretações de repertório consagrado e outros chamam a atenção pelas obras novas e/ou desconhecidas que eles defendem. Este primeiro artigo lista os meus seis álbuns favoritos de 2021 na categoria “o de sempre”. Estão aí o Beethoven que segue morto (nunca esteve tão vivo) e outras obras famosas ou semi-famosas tocadas de jeitos especiais por músicos incríveis. No próximo texto, mostro seis outros discos que apresentam um novo repertório. São gratas surpresas pra mim e serão – assim espero – pra vocês também.

Parte 1: O repertório de sempre

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Beethoven

Sonata no. 29, op. 106, “Hammerklavier” (1818)

Variações op. 35, “Eroica” (1802)

Pierre-Laurent Aimard, piano

Pentatone

2020 foi um “ano Beethoven” frustrado pela pandemia. Concertos e projetos mirabolantes foram cancelados (oi, Marin Alsop!); gravações e projetos mais razoáveis ficaram todos para 2021. Das dezenas de novos álbuns dedicados à música de Beethoven lançados neste ano, creio mesmo que o único que permanecerá de alguma maneira na discografia é este do pianista francês Pierre-Laurent Aimard, lançado pela holandesa Pentatone. Aimard toca aquela que é, provavelmente, a maior sonata para piano de todos os tempos, a “Hammerklavier”. Sim, Beethoven inaugurou o romantismo musical em virtualmente toda obra, mas esta aqui foi particularmente influente. E Aimard? Vamos direto ao exercício favorito do comparador de gravações: ele faz o indescritível movimento lento em muito razoáveis 17 minutos. É uma execução perfeitamente equilibrada, ligeiramente mais pra rápida, muito transparente mas em nenhum momento fria ou analítica. Um virtuosismo mais exibido você vai encontrar na obra que acompanha a sonata, as muito anteriores Variações “Eroica”. Aqui Aimard e Beethoven botam mesmo a casa abaixo, como temia Goethe.

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Barber

Quarteto de cordas, op. 11 (1936)

Ives

Quarteto de cordas no. 1, “Do Exército de Salvação” (1896)

Quarteto de cordas no. 2 (1913)

Quarteto Escher

BIS

O Quarteto de cordas do americano Samuel Barber é a obra desconhecida mais famosa de todos os tempos. Esse estranho fenômeno acontece porque ele abriga a versão original do “Adagio para cordas”, que é talvez o trecho de música mais célebre jamais composto nos Estados Unidos. De resto, Barber infelizmente não soube estruturar seu quarteto. Após um muito interessante movimento rápido e o maravilhoso adagio, o compositor travou. Entre idas e vindas, optou por encerrar a obra com uma passagem rápida que liga os primeiros movimentos com… o vazio? É frustrante, e aqui os novaiorquinos do Quarteto Escher apresenta os ainda mais frustrantes esboços originais de Barber para o finale. A gente consegue sentir a luta do autor com sua própria obra. Mas o prato principal do disco são mesmo os dois quartetos do compatriota Charles Ives, compostos um bocado antes. O primeiro é da lavra inicial de Ives e é uma delícia do início ao fim. De qualquer maneira, a obra-prima mesmo é o segundo quarteto, já típico do Ives transcendentalista: os três movimentos descrevem um grupo de amigos que discutem, brigam e chegam a bom termo graças à sua comunhão mística com a natureza (!). A harmonia totalmente não tradicional, o contraponto cerradíssimo e a abundância de citações tornam o Quarteto no. 2 de Ives uma audição bastante exigente, mas muito compensadora. E transformadora.

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Saint-Saëns

Sinfonia em lá maior (1850)

Sinfonia no. 1, op. 2 (1853)

Sinfonia “Urbs Roma” (1856)

Sinfonia no. 2, op. 55 (1859)

Sinfonia no. 3, op. 78, “Órgão” (1886)

Orquestra Filarmônica de Liège

Jean-Jacques Kantorow, regente

BIS

A gravadora sueca BIS e o regente francês Jean-Jacques Kantorow celebraram o centenário de falecimento (que conceito) de Camille Saint-Saëns lançando uma integral de suas cinco sinfonias. De verdade: ninguém se importa com quatro delas. Elas foram compostas por um Saint-Saëns ainda muito jovem e são obras bem escritas, agradáveis e imediatamente esquecíveis. Restou a Terceira, dita “Órgão”, que conquistou desde a estreia um lugar muito sólido no repertório – é, verdadeiramente, das obras mais importantes e influentes da música francesa da segunda metade do século 19. Kantorow defende maravilhosamente bem todas essas sinfonias indefensáveis, mas não pense que há talento desperdiçado aqui. Sua “Órgão” vale pelo ciclo todo e entra desde já na discografia de referência da peça: ela alcança um mix ideal de atenção aos detalhes e visão geral que faz a música andar da maneira mais natural e inevitável possível. É uma grande, grande interpretação. Ouça toda as sinfonias, tire suas próprias conclusões sobre elas, mas esta Terceira você vai querer guardar.

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Brahms

Sinfonia no. 4, op. 98 (1884)

Orquestra Sinfônica de Pittsburgh

Manfred Honeck, regente

Reference Records

Dos figurões da regência, o nome do austríaco Manfred Honeck talvez seja o que circule menos. Ele não é tão midiático quanto Simon Rattle ou Gustavo Dudamel (será que ele deveria deixar crescer o cabelo?) e rege a orquestra de uma cidade de 300 mil habitantes – Pittsburgh, Pennsylvania. Mesmo assim, ele é um hot shot internacional. O lance é que Honeck é bom de verdade e esta gravação fumegante da Quarta Sinfonia de Brahms prova isso. Não faltam registros dessa obra tão, tão, tão conhecida. Mas esta nova versão consegue entrar para a lista bem pequena de referências. A interpretação une vigor (ouça o scherzo!), suavidade (ouça o início da sinfonia!), profundidade (ouça a passacaglia que encerra a obra) e beleza de execução orquestral (ouça tudo!). A Sinfônica de Pittsburgh está na melhor forma de sua existência e ouso dizer que é a melhor orquestra americana do momento. Mais não preciso explicar – Honeck justificou ele mesmo cada decisão que tomou, numa esquisita auto-resenha incluída no encarte. Deixa isso pra lá: o importante é que 2021 viu nascer uma gravação que vai durar.

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Chopin

Scherzos, opp. 20, 31, 39 e 54 (1832-1842)

Concerto para piano e orquestra no. 2, op. 21 (1829)

Seong-Jin Cho, piano

Orquestra Sinfônica de Londres

Gianandrea Noseda, regente

Deutsche Grammophon

A cada cinco anos o mundinho muito restrito da música clássica se diverte ao torturar jovens. Estou falando do Concurso Chopin de Varsóvia, a mais famosa e importante e longa competição para pianistas. 2020, claro, empurrou o concurso para 2021, e passamos todos nós a acompanhar intermináveis semanas de gente tocando Chopin, vendendo perfume Chopin, comendo chocolate Chopin e passeando pelos logradouros públicos poloneses chamados Chopin (spoiler: todos eles). Meninos e meninas que entram no Chopin ficam presos lá por mais de mês; porém vale a pena. Os vencedores costumam sair velhos e traumatizados mas também com contratos bem gordinhos embaixo dos braços. É o caso do sul-coreano Seong-Jin Cho, que venceu a edição anterior e já lançou vários disquinhos para a veneranda Deutsche Grammophon. Agora recebemos dele esta antologia dos fabulosos scherzos, que são a coisa mais impressionante que Chopin compôs, de acordo comigo mesmo. Cho toca todos os quatro à maneira antiga, como um virtuoso daredevil, super rápido, flutuando tempo e dinâmica sem medo de errar (e ser feliz). Você ouve tudo na ponta da cadeira. O disco é completado por Cho interpretando o Concerto no. 2 acompanhado pelo italiano Gianandrea Noseda. Não é ruim, mas você deveria colocar os scherzos no repeat. Pra sempre.


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Ibert

Divertimento (1930)

Bernard

Divertimento (1888)

Bartók

Divertimento (1939)

Ippolito

Divertimento (2017)

Orquestra de Câmara c/o

BIS

Você leu certo: quatro obras de quatro compositores diferentes, todas chamadas “Divertimento”. É o álbum de estreia da orquestra de câmara alemã c/o (esse é o nome do grupo), que, tal como a lendária Orpheus, não tem regente. Eles são jovens e fabulosos e gostam de montar programas que mesclam obras conhecidas com peças menos lembradas e música contemporânea. Os célebres (e muito diferentes entre si) Divertimentos de Bartók e Ibert me convenceram a classificar este álbum como “repertório de sempre”. São incrivelmente bem tocados, poderão se tornar referências, são um assombro etc etc. Mas a graça está mesmo na parte menos batida do disco. Começa com o Divertimento do francês Émile Bernard, contemporâneo de Saint-Saëns e Franck. Composto só para sopros, é uma peça encantadora. E vai muito além com o Divertimento do americano Michael Ippolito, nascido em 1985, a minha maior descoberta de 2021. Pense no Stravinsky neoclássico e acrescente pitadas da harmonia suavemente atonal da música contemporânea anglófona (Adams, Adès). O resultado é sem dúvida conservador mas, ao mesmo tempo, extremamente pessoal. É uma pequena obra-prima de um compositor ainda bem jovem. Estou muito ansioso para acompanhar sua carreira.

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2 comentários sobre “Música clássica: os 12 álbuns de 2021 que você deveria ouvir (parte 1)

  1. Esse cara escreve muito bem. Entende de música clássica demais. Ele é o maior. Tenho que elogiar bastante ele. Além de tudo é meu filho. Uma gracinha diria Dona Hebe.

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