Mulheres invisíveis | Plural
29 out 2019 - 22h48

Mulheres invisíveis

“A vida invisível”, de Karim Aïnouz, tem pré-estreias neste fim de semana; com roteiro do curitibano Murilo Hauser, filme representa o Brasil no Oscar 2020

No Rio de Janeiro das décadas de 1940 e 1950, duas irmãs seguem rumos opostos. Eurídice (bela e dramaticamente interpretada por Carol Duarte) é a pianista cheia de sonhos que joga pelas regras que lhe são impostas. Já Guida (representada na tela por uma energética Julia Stockler) é intempestiva, guiada por seus desejos. Em comum, o amor fraterno que as une mesmo diante da distância que se impõe.

O fato é que as irmãs se perdem: Guida foge com um homem, retorna grávida e acaba deserdada. Eurídice fica, casa-se, mantém-se parte da família. Mesmo habitando a mesma cidade, uma torna-se invisível para a outra: as mentiras do pai e as diferenças entre as posições sociais que ocupam garantem os desencontros. Ainda assim, a vida invisível representada ali na tela é uma só – a das mulheres.

Para Eurídice, seguir as regras custa muito: não lhe cabe desejar, não lhe cabe falar, não lhe cabe escolha. Guida paga outro preço pela “liberdade” – perde a família e a “boa reputação”, também não lhe cabem escolhas. As violências são múltiplas: psicológicas, emocionais, sexuais.

O roteiro do curitibano Murilo Hauser, co-escrito por Inés Bartagaray e pelo diretor Karim Aïnouz, se divide entre cenas e diálogos que explicitam a invisibilidade das mais variadas – e angustiantes – formas.

Há, inclusive, estupro. Na lua de mel, a então virgem Eurídice se vê à sós com o marido Antenor (Gregório Duvivier). Dopada de lança-perfume, em meio a um mal-estar físico, a personagem vai ao banheiro. O marido a segue e comete o ato sexual sem que haja consentimento.

Se na década de 1950 a noção era outra, hoje sabemos melhor – consentir implica em uma manifestação de vontade livre, consciente e espontânea. Implica em escolha, um conceito distante da realidade das irmãs.

Além do roteiro e da narrativa de peso, o longa de Aïnouz conta com atuações cheias de nuances e profundidade.

Não à toa, o filme baseado no romance “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, da escritora Martha Batalha, venceu a mostra “Um Certo Olhar”, do Festival de Cannes 2019, e representará o Brasil na disputa por uma vaga entre os finalistas do Oscar 2020 de melhor filme estrangeiro.

Serviço
“A vida invisível” estreia nacionalmente no dia 21 de novembro. Enquanto a data não chega, Curitiba assiste a pré-estreias: na sexta-feira (1), haverá sessões no Cinemark Barigui, Espaço Itaú de Cinema e Cinépolis Batel. No sábado (2), haverá sessões apenas no Cinépolis Batel e no Cinemark Barigui. O drama tem 139 minutos e classificação 16 anos.

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