Morre o fundador da Raridade Discos | Jornal Plural
5 jun 2020 - 22h31

Morre o fundador da Raridade Discos

Clésius Marcus Real de Aquino foi o guardião das trilhas sonoras de nossas vidas

Faleceu em Curitiba o maior colecionador de trilhas sonoras da América Latina, Clésius Marcus Real de Aquino. Tinha 74 anos. Morreu de complicações renais e respiratórias após uma cirurgia. Era paulista de Araraquara (como Ignácio de Loyola Brandão e Zé Celso Martinez Correia). Adotou Curitiba, onde na década de 80 inaugurou a icônica loja Raridade Discos, uma espécie de Capela Sistina ou Museu do Louvre para os amantes da música. Clésius tinha muitas facetas, fotógrafo, comerciante, colecionador, bibliófilo.

Fisicamente parecia um personagem saído do Renascimento. Intelectualmente também. Era culto, fino, bem-humorado.Tinha a expressão luminosa (e iluminada) de um personagem de uma das telas de Rembrandt. De “Ronda Noturna” talvez.

Era um verdadeiro “Google” da música. O universo das trilhas sonoras era o seu domínio absoluto. Parecia que ele assistia a todos os filmes lançados no Brasil, Estados Unidos ou Europa.Campeões de bilheteria, ou filmes de arte e de diretores que quase ninguém conhecia. Clésius conhecia. Era assombroso que ele tivesse na cabeça tantas informações sobre cinema e música de todos os gêneros num mundo onde a internet ainda engatinhava e não havia filmes ou arquivos musicais por streaming. Era o que se chamava – ou ainda se chama – de um sujeito enciclopédico. Tinha dois compositores de trilhas prediletos, o americano Henry Mancini e o italiano Ennio Morricone. De Mancini tinha todos os discos lançados aqui, nos EUA, Europa e Japão. Alguns autografados e dedicados de próprio punho, que ele conseguiu em viagens a Nova York.

Conheci Clésius quando fiz uma reportagem sobre sua incrível coleção de trilhas (mais de 5 mil vinis) para o Jornal da Globo, em fins dos anos 80. Virou amigo e fornecedor de discos difíceis. Os que não conseguia através de catálogos especializados ou por serem muito raros não significava empecilho. Fazia gentilmente cópias de seu acervo pessoal. Inicialmente em k-7. Depois em CDs.

Uma visita à sua loja mudava e enriquecia a perspectiva que se tinha sobre música. Era um universo a descobrir.

A tecnologia engoliu os fabulosos tempos dos vinis e cds. A vida levou um amigo e um verdadeiro mentor de boa música. Levou o guardião das trilhas sonoras de nossas vidas. Cada um de nós tem uma trilha sonora para chamar de “minha”. Clésius conhecia todas elas.

Deixa os filhos Daphne, Clésius Fº, Noelle, Alyssa, Alisson e Ellen. E os netos Ewan, Francisco, Flávia, Olívia, Alice e Miguel. 12 ao todo. Como se fosse um disco de vinil “long play”. Com 6 faixas de cada lado. Significativo

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Um comentário sobre “Morre o fundador da Raridade Discos

  1. Meu pai sempre foi um entusiasta da música, da literatura, do cinema, das artes em geral. Viveu a vida sempre em companhia de seus discos e livros, além dos cães e gatos que ele abrigava. Belíssima homenagem prestada pelo Plural, a família será eternamente grata.

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