Memória e esquecimento em Virginia Woolf | Jornal Plural
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18 nov 2020 - 9h00

Memória e esquecimento em Virginia Woolf

Em Um Esboço do Passado, biografia da escritora, ela conta que, ao se debruçar sobre suas memórias, enfrentou dificuldades, como a de saber até que ponto ela era diferente das outras pessoas

Enquanto escrevia a biografia do pintor e crítico de arte Roger Fry, seu grande amigo, e os alemães sobrevoavam a Inglaterra e a aterrorizavam a ponto de pensar em cometer suicídio, Virginia Woolf (1882-1941) reservou um tempo, aconselhada por sua irmã, Vanessa Bell, para escrever suas memórias. 

Em Um Esboço do Passado, publicado em português em tradução e apresentação de Ana Carolina Mesquita, Woolf conta que, ao se debruçar sobre sua biografia, enfrentou algumas dificuldades, como a de saber até que ponto ela era diferente das outras pessoas, pois não possuía nenhum padrão de comparação, em parte, porque nunca frequentara a escola e nunca tivera “a chance de comparar meus talentos e defeitos com os dos outros”. Além disso, Woolf tinha consciência de que suas lembranças “como relato da minha vida são enganosas, porque as coisas de que não lembramos são tão importantes quanto; talvez até mais […] Infelizmente, só nos lembramos do excepcional”.  A vida de uma pessoa, é claro, não se reduz a momentos de excepcionalidade. Porém, como admite, “a capacidade de receber choques é o que me faz escrever. Arrisco a explicação de que o choque, no meu caso, vem imediatamente acompanhado pelo desejo de explicá-lo”.

Woolf chamava de “não ser” uma parte do dia vivida inconscientemente: quando caminhamos, comemos, lavamos roupa etc. E concluía que quanto pior era o dia maior era a possibilidade de não ser.  Sua infância, por exemplo, foi repleta desses momentos de “não ser”, de modo que qualquer acontecimento diferente se revelava um choque, o qual seria lembrado por toda a vida.

Nas suas memórias, Woolf conta que, quando era criança, foi assediada por Gerald Duckworth, seu meio-irmão, em sua própria casa: “sua mão explorou minhas partes íntimas. Eu me lembro do meu ressentimento, do meu desgosto – qual a palavra para um sentimento tão estupefato e complexo?”.

Também ganham protagonismo alguns membros de sua família: a mãe, Julia Stephen, morta quando Woolf tinha apenas 13 anos e descrita como “muito ativa, muito direta, prática e divertida”, embora não teria deixado nos filhos uma impressão “demasiado íntima e particular”, pois ela vivia, como destaca a escritora, “em tão extensa superfície que não possuía nem tempo, nem forças, para concentrar-se, exceto por um momento se algum de nós caísse doente […]”. 

A morte da mãe não a marcou pela perda em si, mas por tê-los tornado “solenes e encabulados” e por terem sido “forçados a desempenhar papéis que considerávamos falsos […] Sua morte obscurecia, embotava. Transformava a pessoa em um hipócrita imerso nas convenções do luto”, como revela Woolf.

As convenções sociais são cruciais nessas memórias. A escritora lembra, por exemplo, que os pais e irmãos viviam na era vitoriana, enquanto ela e a irmã, Vanessa, viviam na era eduardiana: “embora mirássemos o futuro, estávamos completamente esmagadas pela força do passado”, em rituais que a levavam a salões de baile com o irmão George, limitado intelectualmente, mas com dinheiro e, “assim provido e equipado, a alta sociedade o recebia de braços abertos”.   

A escritora ao lado do marido Leonard Woolf.

As lembranças do pai são terríveis: um homem mimado pela mãe e pela mulher, com explosões de raiva cujos alvos eram as filhas, nunca os filhos.

Entre essa família disfuncional, pululam lembranças prazerosas de férias na Cornualha e personagens e paisagens que reviveriam em sua ficção.

Para ir além

Um Esboço do Passado

Virginia Woolf. Tradução e apresentação: Ana Carolina Mesquita. Editora Nós. 160 páginas.

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