Manifesto denuncia fotógrafo por ensaio sobre vulvas | Plural
5 fev 2019 - 0h00

Manifesto denuncia fotógrafo por ensaio sobre vulvas

Diversas entidades dos movimentos de mulheres da imagem no Brasil estão denunciando o trabalho “O Inventário”, do fotógrafo Kazuo Okubo, que expõe uma visão masculina…

Diversas entidades dos movimentos de mulheres da imagem no Brasil estão denunciando o trabalho “O Inventário”, do fotógrafo Kazuo Okubo, que expõe uma visão masculina e, dizem elas, machista do corpo feminino. Okubo pretende fotografar vulvas de mulheres numa iniciativa que deverá se tornar uma exposição e um livro.

Você pode ler o manifesto dos movimentos abaixo. A crítica aponta para um machismo estrutural que valida o olhar masculino sobre a mulher e sobre a vagina. Com a curadoria de Rosely Nakagawa, o projeto se inspira em Robert Mapplethorpe, em especial seu trabalho com nus masculinos.

Na descrição do projeto, Nakagawa diz que “o trabalho artístico do fotógrafo Kazuo Okubo tem uma forte raiz oriental, onde o nu tem outro significado e relação com a vida privada e a vida pública, cuja complexidade e originalidade reside justamente na aparente simplicidade das fotografias. Sua expressão subtrai elementos que muitos considerariam indispensáveis, resultando em imagens singulares da delicadeza ingênua da nudez”.

Para o movimento de mulheres, no entanto, o trabalho de Okubo representa a objetificação e a redução da mulher a exposição do corpo. Trata-se de uma iniciativa que compartilha mais uma vez o olhar do homem sobre o corpo da mulher, essa sem rosto, sem voz, sem história.

O coletivo de mulheres vê a iniciativa como inadequada ao momento histórico e a luta por mais espaço e visibilidade. Trata-se de machismo estrutural, ou seja, o padrão cultural e social que perpetua o lugar submisso e menor da mulher e que se manifesta no menor número de oportunidades para profissionais mulheres da imagem, mas também na ocupação do espaço de expressão por projetos como o de Okubo.

O manifesto, apesar de dirigido contra o projeto do fotógrafo, é uma maneira do movimento promover um debate público sobre discussões que estão presentes na atuação dessas profissionais. Mas que, mostra a iniciativa de Okubo, ainda precisa ser ampliado.

Você pode conferir a nota na íntegra.


NOTA ABERTA SOBRE O PROJETO “O INVENTÁRIO”

Nos últimos anos, vários coletivos, iniciativas e movimentos de mulheres que trabalham com fotografia, vídeo e audiovisual surgiram no país. Todos esses grupos convergem para o mesmo ponto: transpor as barreiras impostas por um machismo estrutural, impregnado nas famílias e nas instituições, que jogam um véu de invisibilidade sobre as mulheres, sejam as que produzem as imagens, sejam as que são retratadas nelas.

Há uma lista de festivais, prêmios, bolsas e editais que contemplam, numericamente, mais homens que mulheres. Há também uma lista de trabalhos artísticos e documentais que objetificam os corpos das mulheres, tiram delas a identidade, a história e a opinião, transformando-as no reflexo desse machismo entranhado nas famílias, empresas e organizações. Não faltam estatísticas para mostrar que o caminho para as mulheres serem protagonistas de suas vidas, corpos e carreiras ainda é longo.

A gota que fez o copo transbordar e originou esta nota, assinada por diversos coletivos, é o projeto intitulado “O inventário”, do fotógrafo Kazuo Okubo, com curadoria de Rosely Nakagawa, parceira do fotógrafo em projetos anteriores, e patrocinado pelo Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal. “Inventário” não é um projeto novo. Está em execução há mais de dez anos. No entanto, um projeto como este, executado por um homem cis e com esta justificativa, não cabe mais. Não, ao menos, sem que as mulheres possam se manifestar publicamente.

Decidimos publicar esta nota com o intuito de mobilizar a sociedade para as discussões que têm sido realizadas em nossos grupos a respeito desse projeto. Trata-se de uma expressão, até então privada, de nosso desagrado quanto a características do projeto que parecem reforçar o que, há anos, nós e as que vieram antes de nós tentam combater. De forma sutil e complacente, o projeto perpetua um machismo estrutural, na medida em que reduz nossa expressão artística, política e social à exposição do corpo e contribui para o processo histórico de invisibilização do nosso lugar de fala sobre nossos próprios corpos.

Somos mulheres que trabalham com imagem no Brasil. Somos trans, cis, negras, asiáticas, brancas, de várias idades, identidades e orientações sexuais que, diariamente, lutam contra a misoginia, o machismo, o racismo que, tradicionalmente, imperam em nossa atividade. E somos muitas.

O intuito é o de que as reflexões aqui elencadas sejam compreendidas como um debate pela inclusão, e não apenas de nossas vozes, mas também de nossos olhares e expressões, em nossas capacidades profissionais – e aqui damos as mãos a todas as mulheres, de todas as áreas de atuação, pois o que sofre uma sofrem todas. Algumas sofrem dupla ou triplamente por causa da cor da sua pele ou da sua condição social.

Buscamos, especialmente, a abertura real ao diálogo sobre um tema que nos concerne particularmente. Queremos, aqui, ativar um processo para a escuta genuína de nossas vozes – diversas, porém uníssonas e coletivas, numa perspectiva de que possam ser acolhidas décadas da luta que temos travado com a sociedade brasileira, inclusive no campo das disputas pelo nosso protagonismo e pelas narrativas de visibilização e de representação dos nossos corpos.

De início, chama nossa atenção o título do projeto. “Inventário” se refere a um catálogo de bens e seu uso remonta ao período colonial, quando pessoas escravizadas apareciam ladeadas a objetos como meras propriedades de seus senhores. Mesmo se imaginarmos que a expressão tenha sido escolhida, ingenuamente, para conotar a ideia de “compilação”, estamos de acordo que é de grande insensibilidade política utilizar uma categoria do campo da economia, um termo que equivale nossos corpos a mercadorias.

Até onde pudemos alcançá-lo, o objetivo do projeto é fotografar, compilar, expor e publicar genitálias consideradas “femininas”. Aqui, acreditamos ser necessário lembrar que homens trans também podem ter vulvas e vaginas, e que a genitália, sem cirurgia, de uma trans é uma genitália feminina. Há, portanto, uma inadequação da terminologia utilizada.

Embora cercado de uma certa retórica de “empoderamento” calcada, de modo simplista, no ato de expor a nudez como uma liberação, o projeto não parece se propor a uma abordagem, de fato, diferente daquelas que já são feitas, há séculos, acerca dos corpos possuidores de vulva e vagina. É provável que exista um conceito estético singular, mas não chega a oferecer novas leituras geradoras de algum impacto positivo na reconstrução de uma narrativa cultural sobre nossos genitais.

Trata-se, mais uma vez, de reforçar uma noção de feminilidade como “delicada” e de representar a vulva e vagina pautadas por uma metáfora já desgastada. Assim, cria-se uma definição pessoal do que são a sensualidade e a beleza do corpo alheio, um olhar predatório acompanhado, ainda, da frase “deixe essa vergonha e vamos conversar?” que aparece nas redes em chamadas a “voluntárias” para que se deixem fotografar. Note-se: a chamada é por mulheres “voluntárias”, ou seja, sem remuneração, para um projeto em que vão atuar como protagonistas. Sem nada receber? O contrato, no site, é uma via de mão única que beneficia apenas o fotógrafo.

No site do projeto, a proposta diz: “Sua expressão subtrai elementos que muitos consideram indispensáveis, resultando em imagens singulares da delicadeza ingênua da nudez” e quando nos deparamos com as imagens de “divulgação” do projeto, no perfil do fotógrafo no Instagram, é possível perceber que elas impõem, inconscientemente, um padrão de beleza opressor e que não consideram a diversidade. Ao focar-se nas genitais todo o resto da mulher e cada vivência, em particular, é esquecida nos corpos de mulheres, aparentemente, cis, uma negra e outra branca, depiladas, magras, calcinha de renda, em um enquadramento que não mostra seus rostos apenas suas genitais encobertas.

Ou seja, o projeto agencia não só na imagem, mas no texto, a proposta de que o genital que uma pessoa possui está ligado, obrigatoriamente, à sua identidade de gênero, como se fosse imposição uma mulher precisar de vulva e vagina para ser uma mulher, ou, que apenas as mulheres as possuem, excluindo-se os homens trans que também podem ter vulvas e vaginas.

Estes são alguns pontos que levantamos diante dos debates instaurados nas nossas redes nos últimos dias. Certamente, ainda muitos outros virão.

O fato é que estamos batalhando, arduamente, para escapar da lógica à qual projetos como esse insistem em nos aprisionar. Trata-se de uma luta por conquistar espaços profissionais e de protagonismo nas artes que nos livrem dos papéis históricos aos quais fomos confinadas: musas e objetos sobre os quais se tecem as mais diversas narrativas à nossa revelia.

Não há, intrinsecamente, nada errado em um homem cis ou qualquer outra pessoa retratar nossos corpos. Entretanto, historicamente, não mais é possível admitir que as pessoas com vaginas e vulvas apareçam em obscena minoria no espaço de protagonismo e em maioria enquanto objetos das mais diversas expressões realizadas por homens. É urgente transformar essa equação. Podemos assegurar, ainda, que se trata de uma questão política de grande pertinência no cotidiano que vivenciamos neste País.

Por fim, é importante lembrar que trabalhamos com as mais diversas linguagens artísticas em toda a sua cadeia produtiva e criamos projetos, nos posicionamos de maneira crítica, somos profissionais com responsabilidade política, buscamos espaços e caminhos que transformem a espectatorialidade masculina do audiovisual, dos festivais de fotografia, das curadorias, dos espaços museológicos no Brasil, e não tem sido nada fácil.

Acreditamos na relevância de nos posicionarmos nesse momento em que políticas públicas e os discursos políticos têm sido atacados a todo tempo. Acreditamos que debater sobre as impressões que esse projeto nos tem causado possa ser, de fato, um exercício democrático e pedagógico para mudar a relação histórica que coloca as mulheres no lugar de objeto e o homem cis no lugar de sujeito das narrativas artísticas sobre nossos corpos. Acreditamos que apenas por meio do debate e da reflexão conseguiremos empoderar mulheres e trazer homens para esta luta.

Com esta NOTA esperamos uma reflexão e revisão nas estratégias de apresentação e execução do projeto.

Assinam essa nota grupos e coletivos de mulheres que atuam nos diversos segmentos da Economia da Cultura no Brasil.

MAVDF (Mulheres do Audiovisual do Distrito Federal) – DF
YVY Mulheres da Imagem – Nacional
Coletivo Amapoa – SP
DAFB (Coletivo das Mulheres Diretoras de Fotografia do Brasil) – Nacional
Plataforma Lótus de Mulheres Brasileiras Asiáticas – Nacional
Mamana Foto Coletivo – SP e DF
Coletiva Era – RJ
Mulheres da Imagem – CE
Nítida Fotografia – RS

Brasília, 31 de Janeiro de 2019

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