21 jun 2022 - 12h41

Lenda urbana mais sedutora de Curitiba ressurge no HQ “Fantasmogênese: em busca da Loira Fantasma” 

Há 47 anos, o espírito da “Loira Fantasma” era manchete dos jornais e assustava os curitibanos

Uma loira seduz os habitantes de Curitiba há 47 anos. Na verdade, trata-se de uma assombração que de tempos em tempos volta às ruas da cidade ora em boatos, ora em obras de arte. 

Durante a vida, ou melhor, depois de se tornar uma alma penada, essa “Loira Fantasma” ganhou muitas páginas nos jornais de 1975 devido ao ataque a um taxista. O espectro desaparecia dos automóveis, sem mais nem menos, ou de súbito esganava o motorista, e teria sido visto até por policiais – que atiraram várias vezes contra a bela.

Tornou-se uma das lendas urbanas mais famosas da cidade e, por isso mesmo, já foi tema de histórias em quadrinhos, filmes e livros. Recentemente, fez uma nova aparição. Ela ressurgiu na graphic novel “Fantasmogênese: em busca da Loira Fantasma”, com roteiro de Antonio Eder e desenhos de André Stahlschmidt. Em entrevista ao Plural, Eder falou sobre como o espírito dessa mulher – que nunca desapareceu de Curitiba – guiou a história da publicação. 

É uma história nova sobre a lenda da “Loira Fantasma”? 

A HQ está toda embasada nas notícias do ataque em Curitiba, essa é a fonte primária de tudo. Para dar alívio da leitura, escolhemos dois jovens estudantes de jornalismo como protagonistas para dar um fio condutor em toda a narrativa; e a nossa história tenta dar uma solução possível, mas nunca apontar o que deve ter sido a verdade, até porque essa verdade pode nem existir.

Por que “Fantasmogênese”?

Na época, os jornais entrevistaram parapsicólogos e alguns deles se referiam a esse termo para “explicar” a aparição da “Loira Fantasma” em Curitiba. O jornalista, cirurgião e estudante de parapsicologia (já falecido) Percival Charquetii o descreveu como uma espécie de materialização em forma de mulher devido a alucinação coletiva dos policiais e do taxista. 

A grosso modo é o equivalente ao ectoplasma que Hollywood tanto nos mostrou em filmes como “Os Caça-Fantasmas”. Assim, foi naturalmente convidativo usar o termo para criar essa graphic novel em que apresentamos diversas nuances das notícias da “Loira Fantasma” de Curitiba.

Existe relação com as fake news?

Desde o início da pesquisa percebi que a Loira Fantasma, assim como tantas outras lendas urbanas, sempre são ampliadas justamente por não ter confirmação segura dos fatos e das informações, são narradas de boca em boca, criando uma desconstrução da história. Hoje em dia isso é possível de se verificar nas notícias sem fonte clara que se divulgam pelas redes sociais, as fake news.

Na sua opinião, por que existe tanto fascínio pela “Loira Fantasma”?

Olha, enquanto escrevia o roteiro fui coletando dezenas de histórias de “loiras fantasmas” que eram de outros estados brasileiros. Então me dei conta que a nossa “Loira Fantasma” é mais uma das louras que assombram o Brasil, e a gente compilou todas no álbum com as informações que encontramos.

A questão é mais antiga do que imaginamos. O cabelo loiro carrega uma carga variada de simbologia, é um tom raro – somente 1,85% das pessoas são loiras –, uma cor que se assemelha a ouro. Quanto à associação ao belo, vale lembrar que as representações artísticas de Afrodite, deusa da beleza, no renascimento eram pintadas com cabelos loiros; e o erotismo vem de uma campanha gigante de Hollywood em retratar atrizes como Marilyn Monroe, Judy Holliday, Jayne Mansfield e tantas outras com mulheres como loiras e sedutoras.

O que levou a imprensa a dar tanto espaço para aparições dessa fantasma?

Na Curitiba de 1975, os jornais se valiam dos crimes e de notícias espetaculares para vender. Uma coisa que nunca se percebeu foi que, uma semana antes do ataque da “Loira Fantasma” de Curitiba, o jornal paulista “Notícias Populares” estampou uma fake news que vendeu muito, era o nascimento do “Bebê Diabo” no ABC paulista.

Ainda em novembro de 1974, chegou aos cinemas brasileiros “O Exorcista”, baseado na obra do escritor William Peter Blatty. Em Curitiba, os jornais registraram que o Cine Vitória iria “colocar de plantão uma ambulância para atendimento dos casos de desmaios, enjoos e até crises histéricas que o diabo pode provocar nos mais sensíveis”. O filme ficou em exibição na cidade até março de 1975, praticamente dois meses antes do ataque da “Loira Fantasma”, então havia no ar um grande apelo para notícias sobre coisas paranormais.

De onde veio a inspiração?

Sempre me incomodou a narrativa perpetuada sobre a “Loira fantasma”, a forma que ela está inserida como lenda urbana e o tom erotizado. A situação é mais complicada e rica em detalhes que pouca gente percebeu. Também não partimos do princípio que existem fantasmas ou coisas assim, mas a imprensa e as pessoas na Curitiba de maio de 1975, tinham quase certeza de que fantasmas existem e ocasionalmente andavam de táxi. O fato é que hoje, mais de 47 anos depois, a “Loira Fantasma” ainda chama atenção e desperta a curiosidade dos curitibanos.

Como surgiu a parceria com o Stahlschmidt?

O André Stahlschmidt é um desenhista de longa data de quadrinhos. Ele já fez muitas coisas, entre elas as sagas de milhares de páginas do “Undeadman”, personagem editado de forma independente pelo Leonardo Melo, aqui em Curitiba; e também tem uma carreira em ascensão lá fora com a minissérie “Titan – Mother of Monsters” da roteirista britânica Colleen Douglas.

Quando pensei em fazer essa graphic novel eu já imaginei com desenhos dele, é um traço cinematográfico, realista, estiloso, flerta com preto e branco de uma forma única. Deixei livre para ele compor os desenhos na página, porque esse é um momento de pura alegria para o desenhista. Queria que ele se sentisse cúmplice da história o tempo todo. 

Graphic novel “Fantasmogênese: em Busca da Loira Fantasma”

Roteiro de Antonio Eder e desenhos de André Stahlschmidt. 136 páginas. Primeira edição esgotada, nova impressão em breve. Exemplares disponíveis para leitura na Gibiteca de Curitiba.

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