16 mar 2021 - 11h08

Uma longa carta para uma mãe analfabeta

Romance de Ocean Vuong é autobiografia literária de um grande poeta

Ocean Vuong é um assombro. Nascido num campo de refugiados, vindo de uma família em que ninguém sequer tinha chegado a ser alfabetizado, ele se tornou um dos mais importantes poetas da nova geração nos Estados Unidos. Embora tenha só 32 anos, já ganhou prêmios como o T.S. Eliot, recebeu a bolsa MacArthur para gênios e tem sido elogiado por escritores tão diferentes quanto Ben Lerner, Marlon James e Celeste Ng.

Depois de três volumes de poemas, Vuong decidiu testar a mão na prosa, escrevendo um romance autobiográfico. O resultado foi Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, que a Rocco publica agora no Brasil.

Como o livro de Vuong é acima de tudo honesto, preciso eu também ser honesto aqui para falar dele: sou suspeito. O motivo mais óbvio é que fui o responsável pela tradução do romance para português no Brasil (em Portugal o tradutor optou pelo título Sobre a Terra Somos Brevemente Magníficos). Também traduzi para a Âyinê um dos livros de poemas dele, Céu Noturno Crivado de Balas. Mas o ponto nem é esse.

O que aconteceu foi que depois que conheci a poesia dele e soube que ia sair o romance, praticamente implorei para fazer o livro. Mexi meus pauzinhos, descobri quem ia publicar e corri atrás do editor. Depois de uma série de idas e vindas, acabei ficando mesmo com o trabalho – e o livro, quando chegou, era tudo que eu esperava.

Vuong, de família vietnamita, nasceu fora de seu país por um motivo que costuma escapar a nós, Ocidentais, que vemos a guerra do Vietnã sempre pelos olhos dos americanos. Durante o conflito, parte do país esteve tomada pelo exército dos EUA – e a população de Saigon e redondezas em muitas ocasiões deu apoio aos americanos. Quando a guerra acabou, essas pessoas passaram a ser malvistas pelo lado vencedor (os comunistas) e tiveram de procurar refúgio.

A família de Vuong correu para um campo de refugiados nas Filipinas. Anos depois, já em 1992, se mudou para o Connecticut. E é em Hartford que a história do romance se passa.

O romance começa com uma jogada de mestre: o personagem principal, sendo o único alfabetizado da família, escreve o texto como se fosse uma longa carta para sua mãe, a mulher responsável, junto com a avó, por toda a sua criação. Mas ele sabe que ela jamais vai chegar a ler (Vuong desconfia que a mãe é disléxica) e por isso se dá a liberdade de escrever coisas que talvez não revelasse de outra maneira.

A primeira parte do livro fala justamente sobre a relação entre mãe e filho. O pai do garoto, violento, acaba fora da vida familiar, e o personagem, que no livro se chama Little Dog (Cachorrinho), se vê às voltas com duas mulheres que tentam sobreviver em um país desconhecido com o pouco arsenal que lhes resta.

Não se trata de uma daquelas histórias açucaradas em que a mãe é uma santa que se supera em todos os aspectos e o filho é um menino prodígio sem falhas. Há momentos difíceis, inclusive para o leitor, em que o menino apanha brutalmente por não ter feito as tarefas domésticas e se perder brincando (a cena com o Mickey é excelente: ele está bolando uma cena em que o camundongo precisa fugir de uma prisão de fitas VHS; enquanto apanha, ele consegue erguer os olhos e ver que na confusão as fitas caíram. O Mickey escapou, pensa o menino.)

A segunda parte do romance é sobre amor e sexo. Assim como Vuong, o personagem se descobre homossexual na adolescência. Encontra um amor, um namorado que não se vê como gay (ele não só se recusa a fazer a parte passiva no sexo como diz que em alguns poucos anos aquilo vai passar, ele vai ficar “bem”). E de novo, apesar de toda a delicadeza da prosa de Vuong, ele não está interessado em escapar da vida como ela é: as descrições do sexo entre os adolescentes chegam a ser cruas, incluindo detalhes gráficos que beiram a escatologia.

A terceira e última parte do livro é sobre a morte. Duas personagens importantes do livro encontram seu final de modos bem diferentes: num caso, uma violência rápida e brutal; no outro, o sofrimento da doença terminal, ainda mais cruel. Vuong, como sempre, lida com maestria com os medos e afetos de seus personagens, com uma maturidade que faz vocês esquecer o quanto ele ainda é jovem.

É curioso pensar no livro como um romance de formação de um poeta: a leitura, a educação formal, tudo isso ocupa lugar secundário na história, e o que está em primeiro plano são sempre as relações do garoto com as pessoas a seu redor. É como se as palavras, a literatura, fossem derivadas da experiência, muito mais do que da própria história da pessoa com os livros.

Serviço

Sobre a Terra Somos Belos por um Instante, de Ocean Vuong. Tradução de Rogerio Galindo. Editora Rocco, 224 páginas, R$ 59,90 (papel) ou R$ 29,90 (e-book).

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

2 comentários sobre “Uma longa carta para uma mãe analfabeta

  1. Achei o resumo da história muito interessante e me deu a curiosidade para descobrir mais a respeito do desenroler da história, bom trabalho 👏🏽👏🏽

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias